Valor Econômico
Decisão do Banco Central é importantíssima
para a economia brasileira
À margem de bombásticos noticiários -
sequestro da Venezuela, ameaça de anexação da Groenlândia, Conselho da Paz,
revolta em Mineápolis, Banco Master, boom da bolsa, raios sobre o bolsonarismo
etc. -, o Banco Central decide amanhã se mantém os juros básicos em 15% ou faz
um corte na taxa. A decisão é importantíssima para a economia brasileira.
No mercado, a opinião é quase consensual: 112 (93,3%) das 120 instituições financeiras consultadas pelo Valor preveem a manutenção. Na mídia, há apoio também majoritário. Prevalece o argumento fiscalista de que o governo gasta demais, isso estimula a inflação e o BC não tem outra opção a não ser manter uma das taxas de juros reais mais elevadas do mundo.
Opiniões do outro lado, favoráveis ao corte,
têm pouco espaço e são consideradas atentatórias à autonomia do BC,
principalmente depois que o falastrão autocrata dos EUA, Donald Trump, sem ser
convidado, entrou no time dos defensores da redução dos juros.
Nesse contexto, sem abusar do economês, vale
observar que os dois lados têm argumentos na ponta da língua.
A favor do corte
1. A inflação está sob controle, fechou o ano em 4,26%, abaixo do teto da meta,
de 4,5%, e deve continuar em queda. Com isso, não faz sentido manter um juro
real próximo dos 10% ao ano, havendo espaço para corte sem comprometer o regime
de metas.
2. A atividade econômica perde força em quase
todos os setores, inclusive no de serviços, o mais importante do PIB. Não há
previsão de pressão de demanda que venha a estimular a inflação.
3. A manutenção da Selic em 15% por mais
tempo vai aprofundar a perda de dinamismo da economia, com impactos negativos
na criação de empregos e nos investimentos em razão do elevado custo do
crédito. Assim, o crescimento fica muito dependente de programas de
transferência e aumento da renda para os mais pobres. Sem investimentos, o país
não consegue expandir sua estrutura produtiva.
4. O cenário internacional, apesar das
incertezas geopolíticas, é favorável ao corte, porque as economias centrais
estão baixando suas taxas, o que reduz o diferencial de juros necessário para
manter a atração de capital externo que, aliás, está entrando aos bilhões na
bolsa.
5. Juros de 15% ao ano são desastrosos porque
exigem gastos de R$ 1 trilhão em 12 meses com a dívida pública. Uma redução de
dois pontos percentuais na Selic significaria economia de quase R$ 100 bilhões
anuais na conta de juros da dívida.
Contra o corte
Os argumentos de quem é contra mostram uma leitura mais pessimista da economia:
1. As expectativas de inflação ainda estão
“desancoradas”. Esse termo adorado pelo mercado indica que o setor financeiro
continua a prever inflação acima da meta no médio prazo e considera que um
afrouxamento da política monetária reforçaria a percepção de tolerância com a
inflação.
2. A inflação de serviços permanece
resistente, insuflada pelo mercado de trabalho e pela demanda interna.
3. Há grande incerteza, especialmente em ano
eleitoral, quanto à disposição e à capacidade do governo de cortar gastos.
Juros elevados funcionariam como âncora adicional contra pressões
inflacionárias.
4. O cenário internacional desestimula cortes
de juros, porque está exageradamente sujeito a choques e tensões geopolíticas
que podem provocar mudanças abruptas nas políticas monetárias dos países
centrais.
5. O efeito da política monetária sobre a
inflação e a atividade econômica se dá com defasagens de seis meses a um ano.
Seria prematuro reduzir a Selic antes de observar os impactos completos do
aperto.
Fatos
Independentemente do debate, dois pontos se impõem.
Primeiro, a Selic de 15% ao ano para uma
inflação de 4,26% está fora do lugar. Nos EUA, a inflação é de 2,7% e a taxa
básica varia entre 3,50% e 3,75%. No Reino Unido, é 3,7%; na União Europeia, 2%
a 2,5%; no Japão, 0,75%; na Índia, 5,25%; na Coreia do Sul, 2,50%; na
Indonésia, 4,75%; e na África do Sul, 6,75%.
Segundo, a meta de inflação, fixada em 3% há
três anos, é irreal para país em desenvolvimento - na Índia, por exemplo, é 4%.
O Conselho Monetário Nacional teve a oportunidade de pelo menos mantê-la em
3,5% em 2023. O então presidente do Banco Central, o bolsonarista Roberto
Campos Neto, era favorável à redução para 3%. O governo tinha dois dos três
votos do CMN para que ela continuasse nos 3,5%, mas prevaleceu a opinião de
Campos Neto. Faltou coragem para enfrentar reações do mercado.
Metas devem ser adaptadas às condições
estruturais dos países. No Brasil, principalmente por causa da indexação, o
alvo de 3%, inalcançável, impõe custo absurdo às contas públicas. Fato: nunca,
desde o Plano Real, há 30 anos, a inflação anual foi igual ou inferior a 3%.
Alfredo é a favor
Vale também dar a opinião de um leigo. Alfredo, investidor classe média, tinha
R$ 6,35 milhões aplicados em três fundos de renda fixa conservadores em 31 de
dezembro de 2024. Passados 12 meses, seu patrimônio líquido subiu para R$ 7,16
milhões. Sem mexer uma palha, teve um ganho de R$ 810 mil no ano, 12,7%, muito
acima da inflação.
Claro, Alfredo é a favor da manutenção da
Selic em 15%.

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