terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Instituições americanas devem impor freio a Trump

Por O Globo

Morte de enfermeiro por agentes de imigração em Minneapolis expõe faceta brutal e autoritária do governo

A morte do enfermeiro americano Alex Pretti, de 37 anos, por agentes federais em Minneapolis revelou a faceta mais brutal do governo Donald Trump. Em desafio à autonomia dos estados, Trump tem usado agentes da Fiscalização de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) para impor sua agenda anti-imigrantes com violência desmedida, sobretudo em redutos democratas. No sábado, um agente federal empurrava dois civis que acompanhavam uma detenção durante uma manifestação pacífica quando Pretti, filmando com celular, se postou entre eles e foi alvo de spray de pimenta. Em seguida, revelam imagens, vários agentes o derrubaram, o agrediram e o imobilizaram. Um dos policiais encontrou e apreendeu uma arma que Pretti carregava escondida (nunca empunhada). Em seguida, ele foi alvejado por tiros. No início do mês, a poeta Renée Good, de 37 anos e mãe de três crianças, fora morta na mesma Minneapolis por agentes da ICE que atiraram em seu carro.

A reação do governo Trump foi uma sucessão de mentiras, como comprovam imagens filmadas. Stephen Miller, artífice da política anti-imigração, chamou Pretti de “terrorista”. Gregory Bovino, chefe da Patrulha de Fronteira, afirmou que ele queria “massacrar” policiais. O Departamento de Segurança Interna (DHS), a que os agentes de imigração estão subordinados, afirmou que um deles efetuou “disparos defensivos”. Roteiro idêntico foi adotado depois da morte de Good: transformar a vítima em vilão e tentar bloquear qualquer investigação independente.

Manifestantes enfrentaram o frio polar em várias cidades para protestar. Em carta, presidentes de mais de 60 empresas com sede no Minnesota (entre elas 3M e Target) clamaram por paz. Até a Associação Nacional de Rifles (NRA), conhecida pelo alinhamento com os republicanos, disse ser “perigoso e errado” justificar o tiro de um policial em alguém que apenas carrega uma arma (Pretti tinha licença).

Pesquisas mostram que a maioria dos americanos é favorável à deportação de imigrantes ilegais, mas critica os métodos da ICE. Há nítida divisão partidária nas respostas: 94% dos democratas, 71% dos independentes e 19% dos republicanos afirmaram que os métodos foram “longe demais” em sondagem New York Times/Siena. Em pesquisa do site Politico, 29% dos eleitores de Trump não radicais afirmaram que as deportações eram agressivas demais. Depois de Pretti, é provável que a insatisfação cresça. O próprio Trump abrandou as declarações, pressentindo efeito do episódio na disputa por vagas no Congresso em novembro.

Trump já enviou 3 mil agentes da ICE às Cidades Gêmeas de Minneapolis e St. Paul, onde a polícia local mal reúne 600. Nem de longe é a região com mais imigração ilegal, mas se trata de tradicional reduto democrata. É preciso ter clareza sobre o que representam fatos chocantes como as mortes de Pretti e Good: transformar forças policiais em braços paramilitares do Estado, usar violência contra manifestantes pacíficos, tratar opositores como “animais”, “vermes” ou responsáveis por “envenenar o sangue” da nação, matar cidadãos a esmo e inviabilizar investigações são características dos piores governos tirânicos. Instituições como Judiciário e Congresso — responsável pelas verbas que financiam DHS e ICE — têm o dever de impor limites aos ímpetos autoritários de Trump. Ou em breve não haverá democracia a salvar.

Debate sobre regras do Fundo Garantidor de Créditos é oportuno

Por O Globo

O próprio Daniel Vorcaro reconheceu que o modelo de negócios do Banco Master dependia do FGC

A fraude bilionária no Banco Master, de Daniel Vorcaro, despertou a discussão a respeito de um dos instrumentos mais relevantes para o funcionamento do mercado financeiro: o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Trata-se de uma instituição privada, mantida pelos bancos, que funciona como como seguro: em caso de liquidação bancária, o FGC garante o ressarcimento de aplicações de até R$ 250 mil por CPF e instituição. Inspirado em mecanismos semelhantes no mundo, ele foi criado em 1995 com o objetivo de evitar dinheiro do Tesouro nas operações de socorro e vinha exercendo seu papel de modo satisfatório. Até o caso Master.

O próprio Vorcaro, acusado de ser o mentor das fraudes, reconheceu em depoimento à Polícia Federal (PF) que seu modelo de negócios dependia integralmente do FGC. Era a garantia oferecida pelos demais bancos privados que lhe permitia oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pagando muito acima do mercado. À PF, Vorcaro afirmou que “não se preocupava” com o capital do banco. Afinal, o FGC estava lá para honrar pagamentos.

Corretoras e plataformas de investimento venderam títulos de forma indiscriminada, alegando a seus clientes que estariam protegidos. Em vez de favorecer a estabilidade do sistema financeiro, portanto, o FGC se tornou trampolim para captação irresponsável e fator de risco. Até o momento, a soma dos prejuízos causados pelos CDBs do Master e do Will Bank, do mesmo grupo, beira R$ 50 bilhões. Esse dinheiro terá de ser reposto pelos bancos e sairá, de uma forma ou de outra, do bolso de seus acionistas — e prejudicará o serviço aos correntistas.

É oportuno o debate sobre as regras do FGC. Há um desequilíbrio entre os incentivos oferecidos ao distribuidor dos títulos e os riscos criados. Quem agiu com responsabilidade não distribuiu produtos do Master, mas perdeu mercado. Uma das sugestões em debate é que o FGC deixe de pagar o total prometido pelos bancos liquidados e cubra apenas o valor investido com correção monetária, ou dentro de um limite. É uma ideia que vale a pena discutir com base em critérios técnicos.

O debate sobre a reforma do FGC é necessário, mas, qualquer que seja a regra adotada, o Banco Central (BC) precisa ser ágil para corrigir os desvios. Ao contrário do que alegou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quando defendeu a transferência ao BC de atribuições da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), teria sido possível à autoridade monetária desmascarar os artifícios usados pelo Master para inflar seus ativos, ainda que os fundos usados para isso sejam regulados pela CVM. “O acesso a tais informações é garantido por diversas normas e pode ser obtido tanto diretamente da instituição financeira quanto da CVM”, escreveu no jornal Valor Econômico o ex-presidente da CVM Marcelo Trindade.

Tentativas de manipular o mercado existem desde sempre, e os criminosos continuarão atrás de novas brechas. Por isso é preciso um debate sereno sobre as regras do FGC e as brechas que resultaram no escândalo do Master.

Supremo não pode ser uma confraria

Por Folha de S. Paulo

Em meio à crise de credibilidade, Fachin defende medidas corretas, mas evita melindrar parceiros de toga

Alegar ataque à democracia num caso de conflitos de interesse de ministros não passa de recurso corporativista vulgar contra críticas

Reconheça-se que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, não se omite diante da crise de credibilidade da corte provocada pelas relações nebulosas de dois ministrosDias Toffoli e Alexandre de Moraes, com o escândalo do Banco Master.

Fachin interrompeu suas férias para conduzir discussões internas e fazer manifestações públicas que miram tanto a defesa da reputação do Supremo quanto a de reformas tidas como necessárias. A tarefa tem sido levada a cabo, até aqui, com erros e acertos.

No primeiro caso, o exemplo mais evidente foi a divulgação de uma nota oficial de redação tortuosa, que não cita o Master mas trata como correta, nominalmente, a atuação de Toffoli. O pior do documento, no entanto, é misturar a defesa da instituição com a defesa de seus ocupantes.

"Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade, a fim de provocar o caos e a diluição institucional, está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de Direito", diz o texto, acrescentando que o papel da corte não será revogado por "pressão política, corporativa ou midiática".

Ora, quem tenta desmoralizar o Supremo? Essa denúncia faria sentido no tempo dos ataques de Jair Bolsonaro (PL), hoje preso, assim como seus cúmplices, por tentativa de golpe de Estado.

Brandir tal argumento num caso de fraude bancária e conflitos de interesse de ministros não passa de recurso corporativista vulgar contra críticas, questionamentos e cobranças, vitais numa democracia para o aperfeiçoamento institucional.

Já em artigo publicado nesta Folha, Fachin expôs diretrizes corretas e indicou que pretende levar adiante mudanças —"sem rupturas, com urgência racional e sem açodamento decisório". Em especial, sua defesa da colegialidade como princípio organizador do tribunal não deixa de ser referência ao excesso de decisões monocráticas de seus colegas.

Ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente do Supremo defendeu a autocontenção dos magistrados, apontando o risco de a imposição de limites acabar partindo de outro Poder. Sem mencionar nomes, confirmou que há resistências internas a normas de conduta que disciplinem questões como a atuação de parentes em casos ali julgados.

Fachin claramente está pisando em ovos, seja por estratégia para levar adiante seus propósitos, seja apenas para não melindrar os parceiros de toga. Fato é que o Supremo não pode se portar como uma confraria cujos membros só se tratam com rapapés. A colegialidade pressupõe divergências que não precisam se limitar ao mérito dos processos em julgamento.

Submeter-se a um código de ética —a OAB-SP acaba de propor um, por exemplo— em nada reduzirá as prerrogativas constitucionais dos ministros. Mais que isso, a corte se fortalecerá quando ficar claro que seus ocupantes não estão acima da lei.

Mais médicos mal formados

Por Folha de S. Paulo

Ao tentar reduzir desigualdades com abertura de cursos no interior, programa induziu expansão caótica

Dos 107 cursos de medicina com conceitos 1 e 2 no Enamed, mais da metade (63) está em municípios com menos de 300 mil habitantes

Além de mostrar baixo desempenho dos formandos de medicina do país, o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) revela como o programa Mais Médicos, instituído em 2013, acabou criando distorções temerárias.

Foram avaliados 351 cursos, e 107 obtiveram os conceitos 1 e 2 (numa escala de 1 a 5). Segundo levantamento da Folha, entre os 24 com nota 1, 23 são de instituições privadas e 18 foram abertos a partir de 2014; entre os 83 cursos com conceito 2, 79 são de faculdades particulares e 45 foram criados após 2014.

Do total com as piores avaliações, mais da metade (63) está em cidades do interior com menos de 300 mil habitantes.

Os dados são relevantes porque um dos eixos do Mais Médicos era a política de indução de abertura de cursos em regiões desassistidas e com baixa concentração de médicos por habitante.

Entre 2014 e 2025, o número de faculdades passou de 252 para 494, e o de vagas, de 23 mil para mais de 50 mil, segundo pesquisa da Faculdade de Medicina da USP. Estima-se que cerca de 80% das instituições sejam privadas.

Municípios com menos de 100 mil habitantes ganharam em torno de 6.500 vagas —25% do total aberto após 2013. Alguns com menos de 300 mil habitantes foram autorizados a abrigar dois cursos, como Tianguá (CE) e Luís Eduardo Magalhães (BA).

Pela lei, a criação de novos cursos precisa ser feita por meio de editais. Contudo diversas faculdades conseguiram fazê-lo por meio de liminares da Justiça. Só de 2024 a 2025, 77 cursos foram abertos dessa forma.

De acordo com especialistas, trata-se de uma estratégia de política pública equivocada.

Apesar de a interiorização da formação aumentar as chances de fixação nesses locais, ela em si não é suficiente, e o processo não é imediato. Médicos mudam-se para fazer residência e buscam melhor infraestrutura de trabalho, entre outros fatores.

Ademais, a formação da categoria exige capacidade da rede local de saúde de servir como campo de prática (atenção básica, hospitais, urgência), o que falta em muitos municípios pequenos. Tal fator, aliado a ensino precário, resulta num grande contingente de médicos generalistas mal formados que acabam atendendo a população mais vulnerável no SUS.

Além de mais vagas em residência médica, é preciso que a avaliação dos cursos seja criteriosa e que as sanções previstas sejam de fato aplicadas —além de ações de longo prazo nas três esferas, como investimentos em infraestrutura nos locais mais carentes.

Trump violenta cidadãos, os fatos e a democracia

Por O Estado de S. Paulo

A execução de Alex Pretti expõe um governo que avilta a verdade e instrumentaliza a máquina pública para intimidar adversários, cruzando a linha entre o Estado de Direito e o terror de Estado

A morte de Alex Pretti, enfermeiro de 37 anos sem antecedentes criminais, baleado por agentes federais em Minneapolis, marca um ponto de inflexão na escalada repressiva do governo de Donald Trump. Não se trata de mais um acidente trágico num ambiente político inflamado. Trata-se de um caso em que a violência estatal colide frontalmente com princípios elementares do Estado de Direito.

Durante um protesto, ao tentar intervir depois que uma mulher foi derrubada por forças federais, Pretti foi atingido por spray de pimenta, imobilizado e cercado no chão. No momento crucial, Pretti segurava apenas o celular com que filmava a ação dos agentes. Ele portava legalmente uma arma de fogo, mas não a empunhava. A arma foi identificada e retirada. Ainda assim, os agentes dispararam dez tiros. Mesmo diante dessas imagens, autoridades federais apressaram-se em descrevê-lo como ameaça letal, agressor e “terrorista” em potencial – pedindo ao público que desconfiasse não apenas de seus instintos morais, mas de seus próprios olhos.

Essa reação é ainda mais ultrajante que o próprio episódio. Ao substituir investigação por estigmatização, o governo não apenas se esquivou de responsabilidade como reforçou uma lógica perigosa: a de que agentes armados podem agir com ampla margem de impunidade, desde que o Poder Executivo forneça a cobertura narrativa necessária.

A escalada não surgiu do nada. A crise migratória foi, durante anos, tratada com complacência por administrações democratas, em descompasso com a percepção da maioria da população. Esse vazio de autoridade ajudou a alimentar o apelo eleitoral de soluções maximalistas e retóricas de combate. Some-se a isso a imprudência de vozes que, em nome da resistência, flertaram com discursos de obstrução e confronto às forças federais. Ainda assim, convém ser claro: esses fatores ajudam a explicar o contexto, mas nem de longe absolvem o governo que hoje detém o poder e o exerce de forma letal.

Operações ostensivas, agentes mascarados, uso rotineiramente desproporcional da força, retórica de guerra interna e normalização da exceção compõem um padrão. Não é preciso recorrer a analogias extremas para reconhecer traços de regimes totalitários que suprimem liberdades não abolindo leis, mas reinterpretando-as de modo a esvaziar seu conteúdo. O governo Trump passou a empregar terror de Estado como método de governo, não apenas para impor políticas, mas para produzir medo difuso, permanente e imprevisível.

Quando o Executivo transforma adversários políticos, manifestantes ou simples observadores em “inimigos internos”, o efeito é literalmente letal. A confiança pública se dissolve. O direito de protesto torna-se risco pessoal. Até o porte legal de uma arma – ferrenhamente defendido pelo movimento Maga – deixa de ser garantia constitucional e passa a ser pretexto para execução sumária. A fronteira entre aplicação da lei e truculência política se torna indistinta.

Uma política migratória eficaz exige autoridade, sim, mas autoridade legítima, limitada, sujeita a controle. A força sem responsabilidade não protege. Apenas amedronta. E o medo é combustível instável para qualquer democracia.

Há saídas. A primeira é óbvia: investigações independentes, transparência plena, cooperação com autoridades estaduais e responsabilização individual. A segunda é institucional: limites claros às operações federais, identificação obrigatória de agentes, uso efetivo de câmeras corporais, supervisão externa real. A terceira é política: abandonar a lógica da provocação permanente e reconhecer que governar não é testar até onde o poder pode ir sem ser contido. O Congresso – em especial os republicanos sensatos – precisa constranger o governo.

A história americana oferece inúmeros exemplos de correção de rota após abusos estatais. Mas todos exigiram coragem institucional. Se o assassinato de Alex Pretti – como o de Renee Good antes dele – não provocar essa reação, o precedente estará estabelecido.

O poder legítimo não se mede pela força das armas, mas pela disposição de responder por cada tiro.

O Brasil precisa fazer sua parte

Por O Estado de S. Paulo

O País tem chance de buscar participação relevante no comércio exterior com acordo histórico entre Mercosul e União Europeia, mas precisa melhorar modelos macroeconômico e institucional

A dimensão da abertura da janela de oportunidade para o Brasil do acordo comercial fechado entre Mercosul e União Europeia (UE), depois de mais de 26 anos de negociações, não será definida apenas por decisões tarifárias, mas também – e principalmente – por avanços domésticos para fazer a economia brasileira competir mais em pé de igualdade com os países da UE. Aumento da produtividade, modernização da produção, redução do custo Brasil, estabilidade regulatória e do ambiente de negócios, ajuste das contas públicas e previsibilidade econômica são os fatores-chave na busca dessa simetria.

Se superar os entraves políticos e judiciais na Europa, como se espera, o tratado entre os dois blocos econômicos, celebrado como um marco histórico num momento de reordenamento geopolítico e fragmentação do comércio global, embute alguns riscos, como pressões competitivas sobre a indústria menos preparada à concorrência internacional e mais voltada ao mercado interno. É necessário preparar o terreno, sobretudo institucionalmente, para que o Brasil possa aproveitar plenamente o potencial dessa nova fase comercial.

No artigo Avaliando os impactos regionais no Brasil do acordo Mercosul-União Europeia, publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), os economistas Flávio Ataliba Barreto, Thiago de Araújo Freitas, João Mário Santos de França e Pedro Avelino reforçam os ganhos potenciais, que podem influenciar, inclusive, decisões de novos investimentos. Mas destacam também riscos e condicionantes, institucionais e produtivas.

No âmbito do comércio exterior brasileiro, a China, os Estados Unidos e a Argentina ocupam, respectivamente, as primeiras posições como principais parceiros comerciais. Contudo, os países da União Europeia também desempenham papel relevante no contexto agregado: em 2025, as exportações brasileiras para esse bloco totalizaram US$ 49,8 bilhões em mercadorias, representando um acréscimo de 3,2% em relação ao ano anterior.

Os economistas chamam a atenção, porém, para a grande diferença nas dinâmicas regionais internas do comércio, concentrado no Sudeste e no Sul do País, embora o Centro-Oeste, com o agronegócio, cresça de forma mais notável. Quatro regiões tiveram crescimento no ano passado, em maior ou menor grau, enquanto o Nordeste teve queda expressiva nas exportações para o bloco europeu, de 12,3% no período. As disparidades permitem estimar que os efeitos da ampla liberalização tarifária não se distribuirão de forma uniforme nem pelas regiões nem por setores. Haverá oportunidade para uns e grandes desafios para outros.

Avanços estruturais poderiam garantir maior aproveitamento. A despeito das recorrentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em defesa do multilateralismo, a economia brasileira, como é amplamente sabido, se mantém entre as mais fechadas do mundo, com baixa participação do comércio exterior em relação ao PIB e altas tarifas de importação, o que limita crescimento e produtividade. Não raro, setores industriais são carimbados como “estratégicos” para dispor de incentivos governamentais, prática comum sobretudo em gestões lulopetistas.

Os déficits no comércio do Brasil com a União Europeia concentram-se em setores mais industrializados. Já o agronegócio tende a ampliar oportunidades. O saldo final dessa conta será ditado não apenas pela eliminação tarifária, mas pelo necessário aumento da competitividade e capacidade de atendimento de exigências sanitárias, ambientais e técnicas.

Os quatro economistas da FGV reforçam em seu levantamento que, caso não venha acompanhada por avanços em produtividade, redução do custo do capital, fortalecimento institucional e políticas de apoio à adaptação empresarial, a liberalização comercial pode resultar em perda de densidade industrial em determinadas regiões, configurando um processo de desindustrialização relativa.

O acordo histórico Mercosul-União Europeia é um importante instrumento de inserção internacional efetiva do Brasil, mas dependerá de uma guinada macroeconômica e institucional para gerar impactos positivos.

O CFM extrapola

Por O Estado de S. Paulo

Conselho de Medicina quer barrar registro de egressos de faculdades ruins, o que não é sua atribuição

O Conselho Federal de Medicina (CFM) pretende barrar o registro profissional dos estudantes que apresentaram um desempenho ruim no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). A ideia extrapola as atribuições do CFM.

De fato, os resultados da prova preocupam: segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), boa parte dos alunos não atingiu o nível de proficiência na primeira edição da avaliação, aplicada em outubro, e um terço das faculdades obteve conceitos 1 e 2, os mais baixos numa escala que vai até 5.

Não à toa, o Ministério da Educação (MEC), que é o órgão regulador da educação superior, impôs sanções a 99 instituições, como o congelamento ou a redução de vagas, a proibição de realização de vestibular ou a suspensão de contratos com o Financiamento Estudantil (Fies). Mas, ainda assim, o CFM permanece inconformado.

O órgão médico afirmou, em nota, que o resultado do Enamed evidencia que “a expansão acelerada de cursos, especialmente no setor privado, não foi acompanhada de critérios mínimos de qualidade”. Nesse ponto, não há como discordar. Isso não significa, contudo, que caiba ao CFM punir alunos das faculdades mal avaliadas.

O conselho já pediu ao Inep os microdados do Enamed, de modo a ter acesso ao desempenho de cada aluno na prova. Ocorre que, segundo a lei, os Conselhos Federal e Regionais de Medicina lidam com profissionais já em atividade e não podem negar o registro médico a recém-formados com diploma reconhecido pelo MEC.

A essas entidades cabe expedir a carteira profissional, fiscalizar o exercício da medicina, conhecer, apreciar e decidir os assuntos atinentes à ética profissional, impondo as penalidades quando necessário, e zelar pelo livre exercício legal dos direitos dos médicos, entre outras atribuições.

A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) reagiu, com razão, a essa investida do CFM. Segundo a Abmes, o Enamed tem por objetivo avaliar o desempenho dos estudantes, “e não aferir aptidão médica, capacidade profissional ou autorização para o exercício da medicina”.

O CFM tem uma ambição: criar a sua “OAB da Medicina”. Não é de hoje que a proposta do Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed) tramita no Congresso. Ocorre que um estudante de Direito cursa um bacharelado que lhe permite atuar na advocacia, magistratura ou promotoria, enquanto um aluno de Medicina, conforme também diz a lei, estuda para ser médico.

A regulação, a avaliação e a fiscalização das faculdades de Medicina são missões constitucionais e legais do MEC, e não atribuições do CFM. Faria um grande bem à sociedade o conselho ser mais rígido naquilo que lhe compete, isto é, zelar pelo bom exercício da profissão, tirando do mercado os médicos que se revelam incapazes não numa prova, mas no consultório e no hospital. Já zelar pelos cursos de Medicina, assegurando ensino de qualidade e profissionais bem formados, é responsabilidade do poder público, representado pelo MEC e pelo Ministério da Saúde.

Brasil precisa avançar na gestão das águas

Por Correio Braziliense

A menor taxa de balneabilidade da história em praias e rios cheios de microplásticos não condizem com o esperado de um país que tem pretensões de ser referência em preservação ambiental

Os banhos de praia e de rio que têm mitigado os efeitos do calor ao longo do verão podem não ser tão apropriados quanto parecem. Mergulhar em águas limpas no Brasil é cada vez mais uma experiência listada entre as excepcionalidades. Cenário resultante da inabilidade histórica na gestão do esgotamento sanitário e da falta de respostas eficazes a ameaças ambientais mais recentes — entre elas, a dispersão dos microplásticos.

Quanto às praias, o panorama é dramático. Apenas três em cada 10 são próprias para banho neste verão, conforme balanço divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo recentemente. Trata-se do pior índice da década, com o número de praias com condições de balneabilidade consideradas péssimas e ruins superando o das aprovadas — 279 contra 253, respectivamente. O levantamento considerou coletas feitas em 14 estados entre novembro de 2024 e outubro de 2025. Amapá, Piauí e Pará ficaram de fora porque sequer medem a qualidade de suas águas.

O critério avaliado é a densidade de bactérias fecais. Não surpreende, portanto, que tenha se chegado à taxa histórica mínima de balneabilidade, já que não há evolução expressiva em indicadores de saneamento em tempo recente. Segundo levantamento do Instituto Trata Brasil, após cinco anos de instalação do Marco Legal do Saneamento Básico, o acesso aos serviços de coleta de esgoto no país aumentou apenas dois pontos percentuais — de 53,2% para 55,2%. O tratamento de esgoto subiu um pouco mais — 46,3% para 51,8% —, mas segue deletério. Praticamente metade do esgoto produzido é despejado na natureza — leia-se rios e mares — sem qualquer remoção de contaminantes.

O marco legal prevê que 90% da população brasileira seja atendida com esgotamento sanitário até 2033, entre outras metas. Para isso, facilitou a privatização das empresas estatais que prestam esse tipo de serviço, o que tem se mostrado insuficiente.  "O saneamento precisa ser visto como um ativo político, como algo realmente que transforma a vida das pessoas, que é transversal, que traz saúde para a população, que impacta na escolaridade média das crianças, na renda média dos adultos", indicou Luana Pretto, presidente executiva do instituto, à época da divulgação do balanço, em agosto.

Ainda que mais recentes, os monitoramentos da presença de microplásticos nas águas corroboram com a gravidade do panorama. Estudo liderado pelo Instituto Federal Goiano (IF Goiano) com 1.024 praias brasileiras — o mais extenso conduzido até o momento no país — revela que 70% estão poluídas com esses fragmentos de até cinco milímetros. Estudo em andamento na Universidade Federal do Pará estima que são lançados anualmente nos rios amazônicos 182 mil toneladas de plástico, o que faz com que a bacia hidrográfica esteja entre as mais poluídas no mundo. 

Não é exagero afirmar que a prática se repete pelo resto do país. Pesquisa divulgada, em fevereiro último, na revista Marine Pollution Bulletin alertou que o Rio Bugres, entre Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo, tem a concentração de resíduos plásticos "nunca vista antes na costa da América Latina". Projeto recente de mestrado na PUC de Goiás "reforça a urgência de uma gestão eficaz dos resíduos plásticos na Bacia do Rio Meia Ponte, manancial do bioma Cerrado, no alto curso da Bacia do Rio Paraná.

Tais cenários não condizem com o esperado de um país que tem pretensões de ser  referência em preservação ambiental. Reconhecido internacionalmente pela farta reserva hídrica e pela grande faixa litorânea, o Brasil peca na governança das águas. Elencou, inclusive, o tema como uma das prioridades da COP30 para mostrar ao mundo "o compromisso histórico do Brasil com essa pauta", nas palavras do ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes. É preciso fazer mais.

Brasil precisa avançar na gestão das águas

Por Correio Braziliense

A menor taxa de balneabilidade da história em praias e rios cheios de microplásticos não condizem com o esperado de um país que tem pretensões de ser referência em preservação ambiental

Os banhos de praia e de rio que têm mitigado os efeitos do calor ao longo do verão podem não ser tão apropriados quanto parecem. Mergulhar em águas limpas no Brasil é cada vez mais uma experiência listada entre as excepcionalidades. Cenário resultante da inabilidade histórica na gestão do esgotamento sanitário e da falta de respostas eficazes a ameaças ambientais mais recentes — entre elas, a dispersão dos microplásticos.

Quanto às praias, o panorama é dramático. Apenas três em cada 10 são próprias para banho neste verão, conforme balanço divulgado pelo jornal Folha de S. Paulo recentemente. Trata-se do pior índice da década, com o número de praias com condições de balneabilidade consideradas péssimas e ruins superando o das aprovadas — 279 contra 253, respectivamente. O levantamento considerou coletas feitas em 14 estados entre novembro de 2024 e outubro de 2025. Amapá, Piauí e Pará ficaram de fora porque sequer medem a qualidade de suas águas.

O critério avaliado é a densidade de bactérias fecais. Não surpreende, portanto, que tenha se chegado à taxa histórica mínima de balneabilidade, já que não há evolução expressiva em indicadores de saneamento em tempo recente. Segundo levantamento do Instituto Trata Brasil, após cinco anos de instalação do Marco Legal do Saneamento Básico, o acesso aos serviços de coleta de esgoto no país aumentou apenas dois pontos percentuais — de 53,2% para 55,2%. O tratamento de esgoto subiu um pouco mais — 46,3% para 51,8% —, mas segue deletério. Praticamente metade do esgoto produzido é despejado na natureza — leia-se rios e mares — sem qualquer remoção de contaminantes.

O marco legal prevê que 90% da população brasileira seja atendida com esgotamento sanitário até 2033, entre outras metas. Para isso, facilitou a privatização das empresas estatais que prestam esse tipo de serviço, o que tem se mostrado insuficiente.  "O saneamento precisa ser visto como um ativo político, como algo realmente que transforma a vida das pessoas, que é transversal, que traz saúde para a população, que impacta na escolaridade média das crianças, na renda média dos adultos", indicou Luana Pretto, presidente executiva do instituto, à época da divulgação do balanço, em agosto.

Ainda que mais recentes, os monitoramentos da presença de microplásticos nas águas corroboram com a gravidade do panorama. Estudo liderado pelo Instituto Federal Goiano (IF Goiano) com 1.024 praias brasileiras — o mais extenso conduzido até o momento no país — revela que 70% estão poluídas com esses fragmentos de até cinco milímetros. Estudo em andamento na Universidade Federal do Pará estima que são lançados anualmente nos rios amazônicos 182 mil toneladas de plástico, o que faz com que a bacia hidrográfica esteja entre as mais poluídas no mundo. 

Não é exagero afirmar que a prática se repete pelo resto do país. Pesquisa divulgada, em fevereiro último, na revista Marine Pollution Bulletin alertou que o Rio Bugres, entre Santos e São Vicente, no litoral de São Paulo, tem a concentração de resíduos plásticos "nunca vista antes na costa da América Latina". Projeto recente de mestrado na PUC de Goiás "reforça a urgência de uma gestão eficaz dos resíduos plásticos na Bacia do Rio Meia Ponte, manancial do bioma Cerrado, no alto curso da Bacia do Rio Paraná.

Tais cenários não condizem com o esperado de um país que tem pretensões de ser  referência em preservação ambiental. Reconhecido internacionalmente pela farta reserva hídrica e pela grande faixa litorânea, o Brasil peca na governança das águas. Elencou, inclusive, o tema como uma das prioridades da COP30 para mostrar ao mundo "o compromisso histórico do Brasil com essa pauta", nas palavras do ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes. É preciso fazer mais.

Japão torna-se mais um risco em meio à instabilidade global

Por Valor Econômico

Este é mais um motivo para que o Brasil ponha suas contas em dia e reduza sua vulnerabilidade aos humores dos fluxos de capital

Até a pandemia, o governo japonês fez os mais radicais experimentos econômicos para combater a deflação, sem muito sucesso contra a queda contínua dos preços. Ela persistiu por praticamente duas décadas, para enfim deixar a temperatura abaixo de zero dos preços de 2022 em diante. Agora Tóquio tem outro problema: a inflação subiu. Janeiro é um mês ruim para os preços ao consumidor no país e em 2024 e 2025 houve alta de 4%. Em dezembro, a inflação anual atingiu 2,1% e seu núcleo, 2,4%. Ela não difere da que se vê na Europa e é menor que a dos EUA, mas os juros atuais, herdados da época da inflação, não são capazes de detê-la: a taxa básica de 0,75% ao ano é negativa e, mesmo assim, a maior em décadas. A primeira-ministra Sanae Takaichi, a primeira mulher a exercer o cargo no Japão, que assumiu em novembro, convocou eleições em 8 de fevereiro e prometeu gastos fiscais para estimular a economia e corte de impostos sobre alimentação. Os mercados estão inquietos e o iene está em seu menor nível em 18 meses.

A estabilidade japonesa, mesmo com a economia desequilibrada, que cresce menos que o Brasil e exibe baixa performance desde o estouro da crise imobiliária no início dos anos 1990, serve de base para o “carry trade” global, com os investidores se financiando a baixas taxas no Japão e aplicando em países com altas taxas, como o Brasil. Em boa medida, o ingresso destes recursos tem ajudado a valorização do real, importante para conter a inflação doméstica. Essa estabilidade está sendo posta à prova agora e um dos sinais mais eloquentes de problemas foi que pela primeira vez desde que foram lançados, em 2007, os títulos soberanos de 40 anos ultrapassaram 4% na semana passada.

No campo financeiro, a alta das taxas traz vários problemas. Um dos temores do mercado é que os investidores japoneses desloquem quantias significativas de suas aplicações em títulos do Tesouro dos Estados (eles detêm US$ 7,2 trilhões em um mercado de US$ 30,5 trilhões) para os papéis domésticos de longo prazo. Uma troca massiva elevaria os juros nos EUA e, em seguida, no resto do mundo. A intranquilidade cresceu quando tanto as autoridades japonesas quanto o Federal Reserve de Nova York fizeram consultas sobre câmbio aos mercados, indicando a possibilidade de uma intervenção conjunta para sustentar o iene, como foi feito no passado.

Os riscos, no entanto, podem ser mitigados pelo próprio aumento da volatilidade do iene e das taxas dos títulos japoneses, que poderia reduzir os retornos esperados dos investidores tentados a fazer a troca. Por outro lado, o Japão parece estar atrasado na normalização monetária, com juros ainda fortemente negativos e inflação entre 2% e 4%. O Banco do Japão (BC) indicou que a tendência é de alta, o que deve retirar parte da atratividade do carry trade e provocar um reposicionamento de liquidez nos mercados de moeda e nos que servem para proteção de apostas arriscadas no câmbio.

A readaptação ao mundo pós-deflacionário japonês não é simples. Com a deflação e, depois, com a crise financeira de 2008 e a pandemia, o Japão realizou as mais radicais medidas de afrouxamento quantitativo e qualitativo do mundo, com o balanço do BC japonês elevando-se a US$ 5 trilhões, superior ao PIB do país, de US$ 4,3 trilhões. Em comparação, o balanço do Fed americano, de US$ 7 trilhões, não passou de cerca de 30% do PIB. O Banco do Japão também comprou US$ 500 bilhões em ações, detém 7% a 8% da capitalização total da Bolsa de Tóquio e só em setembro fez um cronograma para começar sua venda.

O outro lado da moeda é uma dívida bruta de 240% do PIB (mais de US$ 10 trilhões) que, se por um lado, não enfrenta os problemas comuns de dificuldades de rolagem de governos muito endividados — 90% dos débitos estão em mãos de investidores doméststicos —, por outro verá seu custo subir muito. Com juros negativos, a dívida não pesava. Agora, sim e muito.

No lado real da economia, o aumento dos juros será mais um desestímulo ao crescimento da economia japonesa, que nunca mais foi a mesma desde o estouro de sua bolha imobiliária e perdeu o lugar de terceira maior do mundo para a Alemanha. A intenção de elevar os juros colocará o BC em choque com a primeira-ministra após as eleições, convocadas para que aumente a representação do partido de Takaichi, o conservador Liberal Democrata (PLD). Ela quer reduzir por dois anos os impostos de 8% que recaem sobre a alimentação e lançar um pacote fiscal de estímulo a economia de US$ 135 bilhões. A dívida ficará maior ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais cara.

Takaichi acredita que o crescimento permitirá ao país sair dessa armadilha, reduzindo a dívida, uma aposta de risco em um mundo convulsionado pelo protecionismo do presidente Donald Trump. Os mercados esperam um rearranjo sustentável, cujo sinal relevante será a estabilização do iene. Os desequilíbrios japoneses e as ânsias de conquistas territoriais de Trump levaram o dólar a seu menor valor em 4 meses e o ouro a ultrapassar US$ 5 mil a onça. A instabilidade japonesa é mais um risco a considerar em um ambiente carregado de grandes incertezas e mais um motivo para que o Brasil ponha suas contas em dia e reduza sua vulnerabilidade aos humores dos fluxos de capital.

O quadro preocupante dos açudes no Ceará

Por O Povo (CE)

O mês de janeiro caminha para o fim neste ano de 2026 e, até agora, confirma-se a previsão de que seria um mês irregular de chuvas, com má distribuição e tendência a ficar abaixo da média histórica

Dos 144 açudes hoje existentes no Ceará, pelo menos 75 apresentam apenas a metade (ou menos disso) de sua capacidade ocupada. O dado é oficial e foi extraído do portal hidrológico, alimentado por informações atualizadas da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), o que já deve começar a preocupar diante de uma realidade, no mês de janeiro, de chuvas abaixo das expectativas. E, claro, das necessidades.

A Companhia de Gestão de Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), responsável pelo monitoramento dos reservatórios, anuncia que o ano começa com cerca de 39,9% da capacidade hídrica atual, o que configura um cenário de estabilidade. Ou seja, não haveria razões para temer crises de abastecimento, por exemplo, no curso prazo, mas a má distribuição de chuvas ou a redução no volume observado nos principais açudes pode determinar fatores preocupantes em relação ao futuro.

Para dar uma ideia do quanto o quadro é crítico o Castanhão, maior açude da América Latina, com capacidade para armazenar 6,7 bilhões de metros cúbicos de água, perdeu volume no final de 2026 e iniciou o novo ano com apenas 36% de ocupação. Os técnicos da Cogerh apontam como preocupantes, na linha do acompanhamento, as Bacias do Banabuiú, Sertões de Crateús e Ibiapaba. O fato é que nenhum açude cearense está sangrando, atualmente, e apenas Caldeirões, em Saboeiro, na bacia hidrológica do Alto Jaguaribe, apresenta um quadro realmente animador com ocupação de 90% de sua capacidade.

O cenário pode até ser pior do que o retratado acima, considerando que, pelo mesmos dados colhidos e atualizados pela Funceme, de cada 10 açudes três estão com apenas 30% da capacidade, situação que apresentam 43 dos 144 que formam o sistema. Um quadro ruim no geral e, como agravante, que não permite maior otimismo quando se busca olhar para mais adiante.

Janeiro caminha para o fim neste 2026 e, até agora, confirma-se a previsão de que seria um mês irregular de chuvas, com má distribuição e tendência a ficar abaixo da média histórica. Na verdade, o que amplia a preocupação e já exige das autoridades que estabeleçam planos para lidar com uma situação desafiadora, há uma projeção de que o acumulado na quadra chuvosa, que se estende até maio, feche 40% abaixo do volume médio.

Configura-se, diante de tudo que está dito, um quadro de muita dificuldade e cabe ao governo estadual, desde agora, liderar um processo em articulação com a União, prefeituras e as forças sociais envolvidas e interessadas para que os efeitos danosos sejam mitigados. O ano eleitoral não pode ser usado como justificativa para ausência de um plano que racionalize o uso da água disponível e o direcione para atividades essenciais da população. É uma tarefa para ontem.

 

 

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