quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Como sobreviver em um mundo de ameaça, chantagem e extorsão. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Declaração franca do premiê canadense dá a receita para os tempos presentes

Recado de Mark Carney é simples e acertado: países têm de denunciar as pressões, venham da China ou dos EUA

Em Aristóteles havia três tipos de falar político. O primeiro era o do político que dizia sempre as coisas pela metade, a quem se chamava "ironista" (em grego, "ερων" ou "eíron") num sentido diferente do que "ironia" tem hoje: o "ερων" ou "ironista" era aquele que dissimulava ou evitava dizer a verdade inteira.

Quando o povo se fartava disso, vinha o tempo do político "fanfarrão" (em grego "λαζών" ou "alazón"), ou seja, o político que exagera. Não é que ele dizia a verdade; podia até ser um mentiroso contumaz, um charlatão, um impostor. Mas como para dizer uma mentira com eficácia é preciso misturar-lhe qualquer coisa de uma verdade que não costuma ser dita, por pudor ou conveniência, o "λαζών" ou "fanfarrão" passa por ser aquela política de quem "fala muita besteira, mas diz umas verdades".

Vocês sabem de quem eu estou falando. Em 2016, Hillary Clinton era um bom exemplo do primeiro tipo, a política que não diz tudo e, por isso, parece dissimulada, e Trump o fanfarrão hiperbólico que ao povo parece refrescante por dizer coisas que não se costumava ouvir da boca de um político.

Mas como sempre com Aristóteles, é no terceiro tipo que está a virtude. Essa a da parrésia (em grego: "παρρησία") ou "falar franco". O substantivo que se usava para o político que "fala franco" é um palavrão: "παρρησιαστής", que em latim se transcrevia como "parrhesiastes". Esse é aquele que não dissimula nem exagera, antes diz as coisas justas na devida proporção, nada ocultando e não ofuscando, mas iluminando.

E a partir desta terça (20) sabemos quem encaixa nesse modelo: o premiê canadense, Mark Carney. Leiam este excerto do discurso que ele pronunciou em Davos. A citação é longa, mas vale a pena:

"Sabíamos que a história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam delas quando lhes fosse conveniente. Que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. E sabíamos que o direito internacional era invocado com graus variados de rigor, consoante a identidade do acusado ou da vítima.

Essa ficção foi útil. E a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de disputas.

Por isso, pusemos o letreiro na janela. Participamos dos rituais. E, em grande medida, evitamos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este pacto deixou de funcionar."

Sem dissimulação nem fanfarronice, Mark Carney fala franco ao mundo sobre o novo mundo que aí vem — aliás, que já está aí. É um mundo em que as grandes potências, e em particular os EUA, deixaram de fingir ter em mente o interesse comum. Em vez disso, dedicam-se descaradamente à ameaça, à chantagem e à extorsão.

O que fazer perante esse mundo? A receita de Carney é simples e acertada: os países médios têm de se proteger trabalhando em conjunto; devem ter a mesma clareza a denunciar as pressões, venham da China ou dos EUA; e devem manter as suas alianças funcionando com as regras do multilateralismo, sem o poder hegemónico global.

Falou franco. Deveríamos escutar.

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