quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Se a Europa se render de novo a Trump, mundo fica ainda mais perigoso. Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Projeto de tirano dos EUA foi contido apenas quando foi peitado ou por causa de risco doméstico

China, a Rússia de Putin, começo de pânico financeiro e impopularidade maior limitaram Trump

Donald Trump 2 foi contido até agora apenas por retaliações comerciais e armas nucleares chinesas, por um início de pânico no mercado financeiro americano (no tarifaço de abril de 2025), pela indiferença cínica e pelas armas nucleares de Vladimir Putin e pelo receio de que o mau humor do eleitorado aumentasse ainda mais, por causa de preços elevados por impostos de importação desmedidos. Por falar nisso, Trump 2 é ora menos impopular que no final do primeiro ano de Trump 1.

Trump foi parcialmente contido, de resto. A cada vitória sentiu-se mais à vontade para começar outro ataque bárbaro, contra outros países ou contra os próprios cidadãos e a Constituição dos Estados Unidos.

Tem mais três anos de mandato. Haverá ainda tempo e oportunidade para que o projeto de tirano use negócios como armas e armas como negócios. Qualquer um pode estar na mira, do indivíduo que pode levar tiro das SA de Trump (ICE, "la migra", polícia de imigração e fronteiras) até um país qualquer, como também o Brasil.

Quem não peitou Trump não levou. Se Trump levar mais essa, em alguma medida, vai partir para a próxima. Mas a retaliação terá custos sérios para os europeus.

Centros de estudos militares, de relações internacionais, de economia e a mídia europeia dão relatos imprecisos a respeito de como a União Europeia pretende reagir à ofensiva da Groenlândia. No que parece menos incerto, os europeus outra vez negociariam a fim de reduzir danos. Mas haveria danos.

Por exemplo, a concessão de poderes militares e econômicos grandes sobre a ilha. No ano passado, a União Europeia se rendeu ao ataque comercial trumpiano, fazendo concessões enormes, porque não tem armas bastantes para enfrentar Putin.

A negociação é na verdade um modo de tentar empurrar o problema com a barriga. Enquanto "negociam", os europeus esperam alguma reação doméstica americana. Isto é, que sobrevenha alguma contenção dos poderes de Trump, quase milagre: o poder de fazer guerra quente (depende de uma dúzia de parlamentares republicanos) ou de fazer guerra comercial (depende da submissa Suprema Corte).

Europeus e mais gente com fé no milagre esperam também que possam evitar conflito decisivo ou rendição maior até o final do ano, quando Trump pode perder o controle do Congresso.

No curto prazo, a União Europeia não quer recorrer a retaliação econômica que faça efeito prático. Poderia acertar tiros em Trump, mas sofreria danos também, sendo de resto mais frágil. Para começar, recorde-se que a UE cresce pouco (perto de 1,3% em 2025, quase metade do crescimento americano), muitos países estão com as contas públicas estouradas, governo depois de governo perde eleições, a hiena da extrema direita espreita o apodrecimento político etc.

Suponha-se que Trump não reaja agora, que não passe da guerra comercial para guerra econômica maior ou não faça pressão militar direta. Ainda assim, a União Europeia corre o risco de ficar militarmente nua com a mão no bolso furado caso os EUA esvaziem de vez a Otan e parem de oferecer apoio de "inteligência" militar ou armas.

A UE começou um programa de rearmamento, mas levará tempo para ter mísseis de longo alcance, aviões de ponta etc. Para piorar, compram parte de seu equipamento justamente dos EUA. Putin já está na Ucrânia e faz arreganhos de guerra híbrida no leste europeu. A UE está entre o caldeirão do inferno do leste e o do oeste.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.