segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Marcas da pandemia persistem. Por Demétrio Magnoli

O Globo

O vírus biológico já não atemoriza. O que assusta é o vírus político

Cinco anos atrás, no réveillon de 2021, sob a pandemia, milhões desceram ao litoral paulista, depois de meses intermináveis de congelamento da vida social. A peregrinação foi acompanhada de sombrias admoestações de especialistas e jornalistas. Mas a maior onda de infecções e óbitos chegou um ano depois, no verão de 2022, pelas artimanhas da biologia, com a variante ômicron. Já quase esquecemos aquilo, exilando a Covid-19 para o rodapé da História. O pesadelo passou, sem deixar os rastros previstos —exceto um, que ninguém profetizou.

Profetas garantiram que as máscaras faciais ficariam. Disseram, também, que o trabalho on-line se transformaria em regra. Que, portanto, as cidades mudariam para sempre, com a conversão extensiva de edifícios comerciais para uso residencial e a redução sustentada dos congestionamentos de tráfego. E, ainda, como fruto dos novos padrões de trabalho e consumo, que as metrópoles entrariam em longo crepúsculo, dando lugar a redes de pequenos núcleos urbanos.

Nada disso aconteceu. O vírus inscreveu-se em nós, como parte da natureza da espécie humana, repetindo o percurso seguido pelo influenza A, causador da “gripe espanhola” (1918-1920). Aparentemente, a pandemia de Covid-19 reduziu-se a uma memória ruim, algo como uma história que contaremos aos netos. Errado: o pesadelo deixou como heranças entrelaçadas uma arraigada desconfiança social na palavra dos cientistas e uma plataforma invisível para a ascensão da direita radical.

A ciência não falhou, mas os cientistas fracassaram. Incensados pela arrogância, embriagados por um poder inédito, passaram a enunciar certezas absolutas sem sustentação na evidência empírica disponível. No curso da pandemia, disseminando conjecturas efêmeras, coagularam superstições como a transmissão do vírus pelo tato, que nos legou os embrulhos plásticos de talheres e o ubíquo álcool em gel.

Diante das telas de computadores, cientistas formularam hipóteses alheias às dinâmicas sociais, ignorando as mudanças individuais de comportamento impulsionadas pela emergência. Os modelos estatísticos do Imperial College previram pilhas de óbitos um dígito além das verificadas. Depois, com ar maroto, os autores descreveram seu erro como acerto genial, atribuindo o resultado às políticas oficiais restritivas inspiradas pelos gráficos apocalípticos que desenharam.

Os conselheiros científicos dos governos preconizaram lockdowns extremos, dignos de Estados policiais, destinados à utopia da supressão total do vírus. No Brasil, tais políticas atingiram as vítimas mais indefesas: os alunos de escolas públicas, sujeitos ao virtual cancelamento das aulas presenciais por quase 18 meses. Hoje, diversos estudos oscilam entre as conclusões de que a paralisação da vida social obteve reduções mínimas nas infecções ou apenas modificou a configuração da curva de óbitos.

Os “progressistas” enxergaram na pandemia a oportunidade de exercitar, por meio do “Estado científico”, uma engenharia social redentora. Tornaram-se arautos de lockdowns sempre mais rigorosos. Subitamente, porém, cessaram o clamor pelo “isolamento social” quando policiais de Minneapolis assassinaram o negro George Floyd, deflagrando amplos protestos populares nas ruas dos Estados Unidos. As aglomerações humanas eram letais — exceto no caso benigno de manifestações progressistas.

Trump e Bolsonaro, negacionistas sanitários, perderam as eleições de 2020 e 2022. Os episódios singulares mascararam as tendências de fundo. A pandemia desencadeou o ápice da febre política identitária e assinalou o início de seu declínio. No período pós-pandemia, a direita radical engatou a quinta marcha, sitiando ou tomando de assalto as fortalezas das democracias ocidentais. O retorno triunfal de Trump ilumina o vagalhão dos nacionalismos populistas que se ergue na Europa e na América Latina.

O vírus biológico já não atemoriza. O que assusta é o vírus político engendrado sob a pandemia, que se infiltrou nas democracias através da fenda aberta pela folia identitária. A persistência do bolsonarismo explica-se pelos gráficos alarmantes do declínio da vacinação infantil

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