O Estado de S. Paulo
A lição é que alienar a direita por suas ligações com grupos radicais pode impedir exercício da liderança
A aprovação do acordo Mercosul-União Europeia é estratégica para o Brasil. Apesar de todas as restrições à importação de produtos agrícolas pelos europeus, o Brasil passa a participar da maior zona de livre comércio do mundo, com um bloco que compartilha os valores democráticos e liberais, reduz a relativa dependência da China e o efeito das pressões americanas.
No momento em que Donald Trump impõe o seu
desejo pelo uso ou ameaça da força militar, o simples fato de 31 países de dois
continentes chegarem a um acordo sobre novas normas que regem suas relações é
uma mensagem para o mundo. Questões politicamente sensíveis, como o
protecionismo agrícola da Europa e industrial do Brasil e da Argentina, foram
superadas, ainda que com grandes concessões para os europeus.
Outra lição foi o papel exercido por Giorgia
Meloni. A Itália foi o fiel da balança: sem ela, o acordo teria sido sepultado.
A líder nacionalista tem as credenciais necessárias para superar as
resistências do poderoso setor agroindustrial italiano, diferentemente de Emmanuel
Macron, um liberal que não apoiou esse acordo para não reduzir ainda mais as
chances do centro político francês perante a esquerda e a ultradireita, nas
eleições do ano que vem.
Algo semelhante pode ser dito de Friedrich Merz, embora a Alemanha tenha um interesse muito mais claro de abrir mercados industriais e maior facilidade de ignorar os pleitos dos agricultores. Mas há um ano Merz, antes mesmo de assumir o governo, era condenado por ter recebido apoio da ultranacionalista Alternativa para a Alemanha (AfD), na votação de uma lei que restringiu a imigração.
A lição é que alienar a direita por suas
ligações com grupos mais radicais pode, em alguns cenários, impedir o exercício
corajoso de liderança e abrir espaço para o tipo de extremismo que se quer
combater.
O acordo possibilita a inserção das fontes
renováveis de energia do Brasil, como o etanol e, futuramente, o hidrogênio
verde, nos transportes aéreo, marítimo e terrestre europeus. Em contrapartida,
os consumidores e a própria indústria brasileira terão acesso a produtos de
alto valor agregado a preços mais baixos.
Isso pode dificultar a vida de alguns setores
menos competitivos, mas no prazo mais longo, trará investimentos em inovação –
como ocorreu com o setor agropecuário há mais de 30 anos – e incentivos para
melhorar o ambiente de negócios brasileiro.
O próprio Mercosul sai fortalecido e, com ele, o peso específico do Brasil no mundo. É preciso agora usar esse ímpeto para um pivô nos grandes mercados da Ásia-Pacífico.

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