terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Entrevista: ‘Trump é a maior ameaça à democracia dos EUA desde a Guerra Civil’

Por Daniela Chiaretti e Roberto Lameirinha / Valor Econômico

América Latina é ‘irrelevante’ no contexto global, diz ex-ministro Rubens Ricupero

“Donald Trump é a maior ameaça que a democracia americana enfrenta desde a Guerra Civil Americana, em 1865. Representa em ideias tudo que é anti-iluminismo, antiprogresso, anticiência, anti-problema climático. Ele é um retrocesso de valores.”

As frases acima são de Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente, que dirigiu por dez anos o braço das Nações Unidas sobre comércio e desenvolvimento, a Unctad, e é um dos maiores diplomatas brasileiros. “Não sei se as pessoas se dão conta de que estamos vivendo uma época de destruição do mundo em que vivemos”, teme. “A situação é muito grave e perigosa.”

Prestes a completar 89 anos - 68 deles atuando em relações internacionais -, Ricupero diz que o mundo que conheceu está acabando. Nesta entrevista ao Valor explica por que considera que está se voltando a um mundo pré-guerras. Diz que a América Latina é irrelevante, a Europa, enfraquecida e desunida, também, e que é a China quem hoje dá estabilidade ao cenário global. As eleições do Congresso americano em novembro serão importantes para sinalizar como serão os três últimos anos do governo Trump. 

A seguir, trechos da entrevista:

Valor: Como vê o momento atual no mundo, um ano depois do primeiro dia do governo Trump?

Rubens Ricupero: Não sei se as pessoas se dão conta de que estamos vivendo uma época de destruição do mundo em que vivemos há 80 anos. O atual governo americano representa a negação do mundo que foi criado pelos Estados Unidos de Franklin Roosevelt - com os valores do New Deal, de direitos humanos, combate ao desemprego, do estado de bem-estar social. Estamos assistindo a um retrocesso sistemático de todas as ideias que marcaram o avanço da consciência moral da humanidade em 80 anos. Eram ideias que tomávamos como irreversíveis. Achávamos que dali ia se avançar, agora estamos indo para trás.

Valor: O senhor já viveu algum momento assim?

Ricupero: Nunca vi uma coisa igual em toda a minha vida. Vou completar 89 anos. Nasci em 1937, antes da Segunda Guerra Mundial. Desde que comecei a atuar nas relações internacionais, nunca vi algo assim. Entrei no Instituto Rio Branco em 1958, um dos meus examinadores foi Guimarães Rosa. O mundo que conheci está acabando. Só não terminou inteiramente porque Trump não saiu do Conselho de Segurança, porque ali ele tem poder.

"Líder é quem mostra o caminho, que tem seguidores. Quem é que segue o Brasil? Ninguém” Rubens Ricupero

Valor: É uma ação sistemática?

Ricupero: Sim. Em 7 de janeiro, ele assinou a decisão de sair de 66 organizações internacionais, das quais 31 vinculadas à ONU. Estamos assistindo à destruição sistemática do mundo. Não é só a volta dos conflitos, é a anulação do sistema multilateral que foi criado para evitar conflitos. A Carta da ONU está sendo gradualmente destruída.

Valor: Pode explicar?

Ricupero: No final da Segunda Guerra Mundial, a ideia da criação da ONU era de substituir a segurança unilateral, que cada país garantia com as suas próprias forças, pela coletiva. O conceito de segurança coletiva é o seguinte: os conflitos seriam resolvidos por uma entidade internacional como uma espécie de poder judiciário, e o Conselho de Segurança teria a última palavra. Pela Carta da ONU, o uso da força é ilegal a não ser em legítima defesa ou pela decisão do Conselho de Segurança.

Hoje são 40 conflitos no mundo, e conflitos em violação da Carta da ONU. Voltamos a um mundo de antes de 1914. Agora ele tem a ideia de substituir o sistema multilateral pela vontade de uma só pessoa, o presidente dos Estados Unidos.

Valor: O senhor se refere ao Conselho de Paz, o organismo que Trump pretende criar?

Ricupero: Esse conselho, se entrasse em vigor, seria uma complicação enorme. Imagino que muitos dos países que ele convidou, a não ser os que fazem o jogo dele, vão hesitar. Duvido que o Brasil possa entrar até porque tem esse esquema de pagar US$ 1 bilhão para ser permanente. É uma tentativa realmente, como os antigos diziam, de criar um império universal. Ele quer ditar regras para todos. Nos deparamos com uma situação em que o sistema multilateral está sendo posto de lado e as ações são unilaterais. É uma situação nova, grave e perigosa.

Valor: Com as instituições multilaterais dilaceradas como estão sendo hoje, o que pode evitar que este processo seja interrompido antes que venha a alcançar o grau que o mundo viveu nos anos 30 e 40?

Ricupero: Vejo como única esperança o fato de que temos o efeito de dissuasão das armas nucleares - o grande fator que evitou uma Terceira Guerra Mundial foi, sobretudo, o poder destrutivo das armas nucleares. O poder destrutivo das armas nucleares é tão grande que é uma questão de autopreservação. Todo mundo sabe que uma guerra nuclear não terá vencedores nem vencidos, todos serão perdedores.

Em segundo lugar, diria que a ONU forneceu o que antes da Guerra de 1914 não existia e que antes da Guerra de 1939 tinha deixado de existir: um fórum. Embora esse fórum não tenha capacidade de resolver os conflitos - porque quando existe desacordo entre os membros permanentes do Conselho de Segurança, a ONU fica paralisada -, permite uma coisa que não existia antes de 1914: que os países ganhem tempo e que possam conversar. Essa é a grande vantagem da ONU: os países conversam, coisa que não existia antes de 1914, e antes de 1939 não adiantava, porque Hitler estava deliberado, queria provocar uma guerra.

Valor: Existe algum paralelo entre o que a estamos vendo hoje?

Ricupero: Eu não me atrevo a fazer uma previsão porque Trump só completou um ano de governo, ainda tem três anos pela frente. O que é grave no momento atual é que os Estados Unidos eram um bastião. Não se opuseram pela força à invasão da Ucrânia, mas não imitavam o comportamento da Rússia. Agora os EUA são uma força desestabilizadora. Das três potências nucleares importantes, a única que teve um comportamento até agora inatacável é a China. A China tem sido um fator de estabilização. Os EUA desestabilizam o mundo, a Rússia desestabiliza a Europa. Só a China, na sua área de influência, talvez porque não precise e não por virtude, não invadiu ninguém. Mas esse é um mundo perigoso. Esse mundo é o mundo que levou à Primeira e à Segunda Guerra Mundial.

Valor: Como o senhor vê a América Latina neste contexto?

Ricupero: Mal. Vejo a América Latina como um continente quase irrelevante nas relações internacionais, pouco melhor do que a África, mas não muito. É um continente que não conta, não tem força, não pesa. Os países não tem uma unidade de propósito, as diferenças ideológicas são graves.

Valor: E o Brasil?

Ricupero: O Brasil não tem capacidade de liderança. Não por culpa de Lula, não é culpa da política externa, são as circunstâncias. Qualquer que fosse o presidente seria o mesmo. É um continente tão dividido que nenhum país pode dizer que lidera. Líder é quem mostra o caminho, que tem seguidores. Quem é que segue o Brasil? Ninguém. Como ninguém segue o México, o Peru, a Argentina.

O mundo antes de Trump, o mundo do multilateralismo, embora enfraquecido, é o mundo dos países sem poder, que são a maioria, 150 a 160 nações. Agora, dos 193, quem tem arma nuclear e é realmente importante são os Estados Unidos, a China e a Rússia.

O multilateralismo, cada vez mais declinante, é o único espaço para um país como o Brasil. Como não temos poder militar, para nós a única coisa que conta é o chamado “soft power”, o poder do diálogo, das organizações internacionais. Um episódio como esse do sequestro de Maduro: o Brasil protestou, a nota do Itamaraty é impecável. Trump nem acusou recebimento. Mas o que se vai fazer? Atacar os Estados Unidos? Não, né.

Valor: Temos visto o presidente americano agir baseado em sua visão simplista sobre como o mundo deve ser governado por ele mesmo. Existe alguma esperança de sairmos desse ciclo? É o homem que tem o maior poder militar do planeta de todos os tempos, ameaça a todos e não encontra resistência em nenhum fórum, em nenhum nível.

Ricupero: É uma situação sem precedentes. Em entrevista recente ao New York Times, Trump disse que não reconhece nada, nem organizações internacionais, nem direito internacional. Que o único limite à ação dele é a sua própria moralidade. Mas ele não deixa de ter uma certa prudência, porque o seu eleitorado, o Maga, deixou claro que votou nele para acabar com as guerras em que os americanos estavam implicados, não para começar uma nova.

Vamos ver o que vai acontecer em novembro. Trump espera ser alvo de impeachment. Não há quase nenhuma dúvida que os democratas vão ganhar a eleição na Câmara e irão abrir um processo de impeachment que não vai passar porque precisa de dois terços. Essas futuras eleições vão ser importantes para sinalizar como serão seus três últimos anos.

Valor: E a Europa?

Ricupero: A Europa, infelizmente, é uma entidade que não tem unidade nem de política externa, nem de política de defesa. Conseguiram um mercado comum, incompleto, mas um grande feito. Mas a visão deles do mundo é muito diferente. Países como a Polônia são alinhados com os Estados Unidos, já a França é mais crítica. A Europa não tem unidade. A situação é um pouco melhor do que a da América Latina e da África, mas não muito. Porque ela não tem poder. Esse caso da Groenlândia será um teste crítico.

Valor: Trump tem uma estratégia de energia, de petróleo na Venezuela e minerais na Groenlândia?

Ricupero: Acho que o básico, a motivação básica dele é mesmo de poder, por causa da personalidade. A sociedade americana de psiquiatria publicou na última eleição que ele tinha características de doença mental. É um megalomaníaco, um egocêntrico visível. É uma situação muito perigosa, porque é a primeira vez que temos uma superpotência como os Estados Unidos governada por um desequilibrado. Agora, Trump tem um lado de fanfarrão, grita mais do que morde. Não quer dizer que amanhã não venha a morder.

Sobre essa nova crise, com a Groenlândia no epicentro?

Ricupero: Ele é inacreditável. Mandou uma mensagem ao primeiro-ministro da Noruega dizendo que porque não deram a ele o Nobel da Paz, não se sente obrigado a pensar na paz e quer a Groenlândia. A Groenlândia não é nem da Noruega, é da Dinamarca. Parece criança que diz, “ó, se você não me der isso, eu não brinco mais.”

Os Estados Unidos não jogam mais de acordo com as regras. E o pior é que são a maior potência do mundo. Vejo como uma situação muito perigosa porque Trump é uma personalidade psicologicamente desequilibrada. As reações não são racionais e ele não tem freios. Talvez no mês de novembro, com as eleições no Congresso, mude o panorama. Mas até lá, não tem nada que o segure.

Como disse, e repito, as pessoas não se dão conta, ele é o anti-Roosevelt. É o fim do mundo, dos valores do mundo. Roosevelt representava tudo que havia de progressista na época. Trump representa o anticlima, o anti-igualdade de mulheres e homens, o antiação afirmativa pela igualdade racial. É a encarnação de todos os antivalores. Tudo aquilo que durante 80 anos considerávamos o rumo da evolução da consciência moral da humanidade, está sendo posto em questão por esse homem.

Valor: A própria democracia americana está hoje em risco?

Ricupero: Ele é a maior ameaça que a democracia americana enfrenta desde a Guerra Civil Americana, em 1865. Representa em ideias tudo que é anti-iluminismo, antiprogresso, anticiência.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.