Financial Times / Valor Econômico
É tentador dizer que a aliança transatlântica chegou ao fundo do poço. Infelizmente, ela ainda pode cair muito mais.
A ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump,
de anexar a Groenlândia levantou a possibilidade, antes impensável, de que os
EUA possam usar suas forças armadas para tomar o território da Dinamarca - um
aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Vários países
europeus responderam com o envio de tropas para a ilha - com o pretexto
declarado de que isso fazia parte de um exercício para reforçar a segurança no
Ártico.
A reação de Trump foi acusar esses países - entre eles França, Alemanha e Reino Unido - de fazerem um “jogo muito perigoso”. E afirmou que todos eles serão atingidos por tarifas de importação de 10% no começo de fevereiro, que subirão para 25% em junho.
Então, o que acontece agora? Um amplo leque
de desfechos é concebível. Na ponta mais benigna, é possível que as ameaças de
tarifas de Trump simplesmente acabem por desaparecer nas brumas. Ele já fez
ameaças vazias sobre tarifas antes - inclusive a promessa de impor taxas de
100% sobre filmes produzidos fora dos EUA e de 200% sobre o champanhe. Apenas
na semana passada, ele ameaçava aplicar uma tarifa de 25% aos produtos de
qualquer país que comercialize com o Irã. Mas até o momento essas ameaças não
tiveram nenhuma ou muito pouca continuidade que seja perceptível.
Entre os desfechos mais perigosos está a
desintegração completa da aliança ocidental, inclusive da Otan. Os passos que
levam a esse resultado não são difíceis de imaginar: Trump segue adiante com as
tarifas por causa da Groenlândia, a Europa impõe tarifas retaliatórias, Trump
responde, mais uma vez, com a ameaça de se retirar da Otan ou diz que não está
mais comprometido com a garantia de defesa mútua prevista no Artigo 5 da
aliança militar. Os EUA também poderiam interromper todo o apoio à Ucrânia e
adotar uma posição resoluta a favor da Rússia sobre como a guerra deve
terminar.
No cenário mais extremo - se os EUA decidirem
usar a força - é possível que tropas americanas e europeias entrem em confronto
de fato na Groenlândia. Essa, afinal de contas, parece ter sido uma mensagem
implícita do envio de tropas europeias para a ilha.
Diante de uma gama tão desconcertante de
desenlaces possíveis, o que os líderes europeus deveriam fazer? A resposta é
que, para evitar os piores desfechos, os líderes europeus precisam reagir
agora. Ao longo do último ano, eles tentaram o apaziguamento e a bajulação. E
foi nisso que deu. Eles precisam mudar de rumo imediatamente.
A União Europeia chegou ao ponto mais baixo
no verão passado, quando seus líderes concordaram da maneira mais submissa em
aceitar uma tarifa de importação dos EUA de 15% - sem retaliar. Hoje o acordo
comercial UE-EUA firmado naquela época está suspenso pelo Parlamento Europeu.
Em vez disso, os europeus deviam impor
tarifas compensatórias direcionadas aos EUA - e que estendam seus alvos para
além dos clichês do uísque bourbon e dos jeans da Levi’s. Novos alvos poderiam
incluir as grandes empresas de tecnologia americanas e as empresas de
criptomoedas que são parte fundamental do mundo de Trump.
O Reino Unido é um dos países ameaçados pelas
novas tarifas que Trump quer impor por conta da Groenlândia. Por causa do
Brexit, o Reino Unido não fará parte de nenhuma resposta coletiva da UE em
questão de comércio. Mas, se as novas tarifas entrarem em vigor e persistirem,
o primeiro-ministro Keir Starmer poderia tomar medidas ousadas - na direção de
reintegrar o país ao mercado único da UE. Em um ambiente geopolítico alterado
radicalmente, tanto o público britânico quanto a Comissão Europeia poderiam
decidir que já é hora de deixar de lado desavenças antigas e unir forças
rapidamente.
Os líderes europeus ainda hesitarão em
confrontar Trump, temerosos de que o papel dos EUA na segurança mundial
signifique que o país sempre poderá infligir mais sofrimento à Europa do que a
Europa a ele. Mas os fatos do último ano mostram que é mais perigoso se
submeter diante da pressão de Trump do que resistir a ela.
Aqueles países que enfrentaram a Casa Branca
- como a China e o Brasil - de modo geral viram Trump recuar. No estilo
clássico dos valentões, o presidente americano adora humilhar os fracos. Mas
ele frequentemente recua rápido de qualquer coisa que se pareça com uma briga
equilibrada.
Qualquer líder europeu que se sinta tentado a
dizer que não vale a pena pôr em risco a aliança transatlântica em benefício de
uma região autônoma e pouco povoada da Dinamarca precisa repensar essa ideia.
As questões que estão em jogo na Groenlândia são as da integridade territorial
e do direito à autodeterminação - princípios que são fundamentais para o
direito internacional e para o projeto europeu. Abandonar esses princípios
prejudicaria de maneira grave a UE, a ordem internacional e o que resta da
aliança transatlântica.
Os europeus também devem estar conscientes de
que o mundo inteiro acompanha os desdobramentos dessa situação - e tirará
conclusões sobre a capacidade da UE de sobreviver na nova e brutal ordem
mundial que Trump está se esforçando para criar.
Ao ceder na questão da Groenlândia, a Europa
confirmaria que hoje nós estamos, irrevogavelmente, em um mundo onde a força é
que decide o que é correto. Para a China, essa é uma perspectiva que pode ser
muito sedutora.
Os russos também estarão observando com
entusiasmo o desenrolar da crise atual e tirarão lições sobre a determinação e
a força europeias. Se o Kremlin concluir que a Europa é fraca e fácil de
conquistar, o continente todo poderá pagar o preço.
Por seu próprio bem - e pelo bem do mundo em
geral -, a Europa precisa se manter firme na questão da Groenlândia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.