segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O caso Master e o silêncio dos ‘inocentes’. Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Banco Master contou com a conivência e a leniência de empresas de auditoria, órgãos fiscalizadores e plataformas de investimento para promover a maior fraude da história

Na base de cadastro de pessoas jurídicas da Receita Federal, Daniel Bueno Vorcaro aparece como sócio de 14 empresas, além do Banco Master S/A. Seu pai, Henrique Moura Vorcaro, está ligado a 54 empreendimentos, a maioria imobiliários e de participações - muitos, porém, com capital social nulo ou muito baixo (coisa de R$ 1.000,00).

Mas a campeã é a irmã, Natália Bueno Vorcaro Zettel, que é sócia de 59 empresas. Seu marido, Fabiano Campos Zettel, responde por outros 19 CNPJs, da Moriah Asset (“o primeiro veículo de investimentos em Wellness do Brasil”) à Igreja Batista da Lagoinha Belvedere - é bom lembrar que instituições religiosas têm imunidade tributária no Brasil. Outro integrante da família, também investigado, o primo Felipe Cançado Vorcaro é sócio de outras 17 pessoas jurídicas.

Além disso, os cinco integrantes da família são representantes legais de outras 42 empresas, de cemitérios a restaurantes. Esse conjunto de pessoas jurídicas, porém, aparece como sócio de mais 153 empresas. E, certamente, novas rodadas de pesquisas na base da Receita vão gerar novas relações, pois criar várias camadas de participação de empresas era uma das estratégias do grupo para desviar recursos e ocultar os beneficiários finais.

Isso é o que revela uma pesquisa simples, feita em menos de duas horas por um cidadão comum (no caso, eu mesmo), com um mínimo de conhecimento em bases de dados públicas e um pouco de paciência para o ChatGPT gerar os scripts corretos que extraem essas informações.

Analistas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e do Banco Central, auditores de gigantes como Ernst & Young (E&Y) e Pricewaterhouse Coopers (PwC), além de gestores de investimentos de plataformas como XP e BTG, têm condições de descobrir muito mais. Afinal, possuem formação técnica, prática profissional e acesso a informações sobre os fluxos financeiros dessas empresas.

Muita atenção tem sido dada para a blindagem que os ministros Dias Toffoli e Alexandre Moraes vêm promovendo para evitar que o escândalo do Banco Master chegue na classe política brasileira.

Porém, precisamos falar também de uma cadeia de irresponsabilidade de empresas, órgãos fiscalizadores e profissionais qualificados que silenciaram ou foram no mínimo coniventes para o Master chegar aonde chegou.

Na edição de sábado (17) da Folha de S.Paulo, os repórteres André Borges, Adriana Fernandes e Lucas Marchesini fizeram um cruzamento de dados entre duas empresas investidas pelo grupo Master - Golden Green e Global Carbon - com informações do Incra e mostraram que os supostos R$ 45,5 bilhões em créditos de carbono do ativo dessas empresas vinham, na verdade, de terras da União no meio da Amazônia. Aliás, o alerta já havia sido dado por Izabel Gimenez e Camila Souza Ramos em matéria da Globo Rural em dezembro de 2024.

Ainda assim, o inventário bilionário dos créditos de carbono das empresas do Master contou com verificação da metodologia de cálculo pela E&Y e por avaliação de demonstrações financeiras pela PwC e ainda laudo de valorização dos ativos pelo economista Marco Aurélio Hardt, da Horbia Partners.

É impressionante como nenhum desses profissionais e empresas de auditoria procurou verificar se aquilo que eles atestaram existia de fato. Um cruzamento mínimo de dados, como feito pelos repórteres, já seria o bastante.

Em outra matéria, Diego Felix mostra que nos relatórios disponíveis no site da CVM há ressalvas importantes feitas por outras firmas de auditoria (Taticca, YPC, Next e Conatus) em seis fundos ligados ao Master e custodiados ou geridos pela Reag.

Nesse caso, o que chama a atenção é a inação da CVM: será que não existe naquele órgão um sistema de alerta que leva os analistas a se debruçarem sobre fundos cujos balanços não foram aprovados por auditorias independentes? Ou será que essas apurações não foram para frente por ordens superiores da diretoria do órgão?

É preciso destacar ainda a irresponsabilidade de plataformas como XP e BTG na promoção dos CDBs do Master. Parece claro que essas instituições, que contratam a nata dos analistas da Faria Lima, deveriam ter se debruçado sobre a qualidade dos ativos que supostamente lastreavam um banco que oferecia papéis com rentabilidade tão elevada antes de recomendá-los ostensivamente a seus clientes.

Quais providências tomarão Cofecon, CFC e Anbima em relação aos profissionais por eles habilitados que falharam ao atestar demonstrações fake?

Que reformas do sistema financeiro e do Fundo Garantidor de Créditos serão necessárias para evitar a repetição do comportamento irresponsável das plataformas na promoção dos CDBs do Master?

Quais melhorias institucionais precisam ser feitas para que os órgãos de fiscalização (CVM, Banco Central, Receita Federal) trabalhem em conjunto e atuem preventivamente, e não a reboque dos acontecimentos?

Todo esse escândalo do Banco Master revela, até o momento, que apenas a imprensa tem exercido o papel mínimo de cruzar os dados e conectar os pontos para apontar as falhas que levaram à maior fraude da história do Brasil.

 

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