Magistrado que proferiu sentença do caso
Vladimir Herzog ensina o que decência significa
STF poderia contribuir para punir
torturadores com entendimento sobre a Lei de Anistia
É urgente apontar a integridade judicial onde
ela apareça. A integridade praticada, não recitada. Integridade despretensiosa
e anti-heróica que revela compreensão inteligente e sincera do papel do bom
juiz no estado democrático de direito.
O aniversário de 50 anos da morte de Vladimir Herzog, em 2025, teve dois momentos marcantes. Primeiro, em culto ecumênico na Catedral da Sé, a ministra presidente do STM, Maria Elisabeth Rocha, pediu desculpas por mortes e torturas no regime militar.
Segundo, na Faculdade de Direito da
USP, o
desembargador aposentado Márcio José Moraes contou a experiência, poucos
meses após ingressar na magistratura, de proferir a sentença condenatória do
Estado brasileiro pelo assassinato de Herzog.
No clima de terror do AI-5, um jovem juiz,
mais que dizer a verdade ao poder, disse o direito constitucional à ditadura.
"Evitei falar dessa sentença por quase
40 anos. Não sou adepto do juiz midiático. O juiz, não é que só fala nos autos,
ele fala de preferência nos autos. Os fundamentos das decisões falam por si.
Não falei por medo de que pudesse sofrer um atentado."
"Acho que tive a clarividência, e
desculpe falar na primeira pessoa do singular, aquela sentença tinha que falar
sozinha. Era a voz do Poder Judiciário. Era o juiz representando o Poder
Judiciário. Colocar aquela sentença na voz do Judiciário era fundamental. A
sentença teria que ser um brado de independência do Poder Judiciário."
Lembrou como era ser juiz na ditadura.
"A justiça federal de primeira instância foi criada para ser a justiça da
ditadura. Eu percebia o clima vigente dentro do fórum. Agentes do SNI conferiam
sentenças. O clima era de abuso de autoridade."
Afirmou que a sentença não era só sua, mas
escrita em coautoria com nova escola do direito público sobre responsabilidade
do Estado e liberdade individual. "Eu quis ser cirúrgico, eu não ia ficar
jogando pedrinha no regime, eu ia dar uma tijolada."
A sentença virou marco não só de resistência
à ditadura, mas ponto de partida para uma nova noção de risco administrativo e
dos deveres na proteção de direitos elementares. Mas foi cumprida só
parcialmente.
Até hoje, torturadores e executores de Herzog
não foram sequer investigados.
O
STF poderia ter contribuído para uma história diferente se entendesse
que crimes continuados e crimes contra a humanidade não foram alcançados pela
Lei de Anistia. Se não apelasse ao mais cínico símbolo da
"pacificação", à mais covarde ideia de prevenir o
"revanchismo".
Moraes ainda destacou o papel de mulheres na
Justiça a partir da imagem de Penélope, esposa de Ulisses na mitologia grega,
símbolo de resistência e perspicácia: "Qual a voz que repercute a
tragédia? A voz de Penélope, voz do feminino, que repercute sua própria
tragédia. Como pode ter uma
corte suprema em que não há olhar feminino igualitariamente? Uma corte
suprema assim, é perneta e é caolha".
Pode-se enxergar, na sentença de Moraes, pelo
menos três
virtudes que um código de ética, sozinho, não realizaria: a consciência
institucional, ao perceber a fraqueza do Judiciário que fala na primeira pessoa
do singular; o vigor intelectual de quem se propõe a inovar no pensamento
jurídico com pesquisa e suor argumentativo, não com figuras de linguagem; a
coragem política, por não ceder ao risco que sua decisão lhe causa.
O ano de 2026 faz nova reivindicação de
decência nas cortes superiores. Decência elementar. Moraes ensina o que isso
significa.

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