O Globo
O vírus biológico já não atemoriza. O que
assusta é o vírus político
Cinco anos atrás, no réveillon de 2021, sob a pandemia, milhões desceram ao litoral paulista, depois de meses intermináveis de congelamento da vida social. A peregrinação foi acompanhada de sombrias admoestações de especialistas e jornalistas. Mas a maior onda de infecções e óbitos chegou um ano depois, no verão de 2022, pelas artimanhas da biologia, com a variante ômicron. Já quase esquecemos aquilo, exilando a Covid-19 para o rodapé da História. O pesadelo passou, sem deixar os rastros previstos —exceto um, que ninguém profetizou.
Profetas garantiram que as máscaras faciais
ficariam. Disseram, também, que o trabalho on-line se transformaria em regra.
Que, portanto, as cidades mudariam para sempre, com a conversão extensiva de
edifícios comerciais para uso residencial e a redução sustentada dos
congestionamentos de tráfego. E, ainda, como fruto dos novos padrões de
trabalho e consumo, que as metrópoles entrariam em longo crepúsculo, dando
lugar a redes de pequenos núcleos urbanos.
Nada disso aconteceu. O vírus inscreveu-se em
nós, como parte da natureza da espécie humana, repetindo o percurso seguido
pelo influenza A, causador da “gripe espanhola” (1918-1920). Aparentemente, a
pandemia de Covid-19 reduziu-se a uma memória ruim, algo como uma história que
contaremos aos netos. Errado: o pesadelo deixou como heranças entrelaçadas uma
arraigada desconfiança social na palavra dos cientistas e uma plataforma
invisível para a ascensão da direita radical.
A ciência não falhou, mas os cientistas fracassaram.
Incensados pela arrogância, embriagados por um poder inédito, passaram a
enunciar certezas absolutas sem sustentação na evidência empírica disponível.
No curso da pandemia, disseminando conjecturas efêmeras, coagularam
superstições como a transmissão do vírus pelo tato, que nos legou os embrulhos
plásticos de talheres e o ubíquo álcool em gel.
Diante das telas de computadores, cientistas
formularam hipóteses alheias às dinâmicas sociais, ignorando as mudanças
individuais de comportamento impulsionadas pela emergência. Os modelos
estatísticos do Imperial College previram pilhas de óbitos um dígito além das
verificadas. Depois, com ar maroto, os autores descreveram seu erro como acerto
genial, atribuindo o resultado às políticas oficiais restritivas inspiradas
pelos gráficos apocalípticos que desenharam.
Os conselheiros científicos dos governos
preconizaram lockdowns extremos, dignos de Estados policiais, destinados à
utopia da supressão total do vírus. No Brasil, tais políticas atingiram as
vítimas mais indefesas: os alunos de escolas públicas, sujeitos ao virtual
cancelamento das aulas presenciais por quase 18 meses. Hoje, diversos estudos
oscilam entre as conclusões de que a paralisação da vida social obteve reduções
mínimas nas infecções ou apenas modificou a configuração da curva de óbitos.
Os “progressistas” enxergaram na pandemia a
oportunidade de exercitar, por meio do “Estado científico”, uma engenharia
social redentora. Tornaram-se arautos de lockdowns sempre mais rigorosos.
Subitamente, porém, cessaram o clamor pelo “isolamento social” quando policiais
de Minneapolis assassinaram o negro George Floyd, deflagrando amplos protestos
populares nas ruas dos Estados Unidos. As aglomerações humanas eram letais —
exceto no caso benigno de manifestações progressistas.
Trump e Bolsonaro, negacionistas sanitários,
perderam as eleições de 2020 e 2022. Os episódios singulares mascararam as
tendências de fundo. A pandemia desencadeou o ápice da febre política
identitária e assinalou o início de seu declínio. No período pós-pandemia, a
direita radical engatou a quinta marcha, sitiando ou tomando de assalto as
fortalezas das democracias ocidentais. O retorno triunfal de Trump ilumina o
vagalhão dos nacionalismos populistas que se ergue na Europa e na América
Latina.
O vírus biológico já não atemoriza. O que assusta é o vírus político engendrado sob a pandemia, que se infiltrou nas democracias através da fenda aberta pela folia identitária. A persistência do bolsonarismo explica-se pelos gráficos alarmantes do declínio da vacinação infantil

Nenhum comentário:
Postar um comentário