domingo, 11 de janeiro de 2026

Muita coisa está fora da ordem. Por Míriam Leitão

O Globo

Acordo Mercosul-União Europeia dá sinal de que o mundo pode escapar do destino que Trump aponta com diplomacia, comércio e cooperação

No meio da tensa reunião em Brasília no sábado, dia 2, para discutir a invasão da Venezuela por Donald Trump, alguém perguntou: “E o Putin?.” Outra autoridade respondeu: “Ah, foi sequestrar o Zelensky.” Era uma tentativa de descontrair, mas também apontava para um dos efeitos colaterais da operação de Trump, a ideia de que, se um país é mais forte, não precisa respeitar a integridade territorial de outros estados nacionais. A liberdade de invadir países alegando a própria segurança libera Putin de condenação, e dá um salvo conduto para a China em relação a Taiwan. A investida, por enquanto apenas retórica, de Trump sobre a Groenlândia traz de volta lembranças sombrias da guerra dos mundos, que terminou em 1945.

Na sexta-feira, em Bruxelaso Conselho Europeu aprovou o fechamento do acordo com o Mercosul. O que tem isso a ver com Trump e seu expansionismo? Tudo. A barbárie comercial integra a terra sem lei que o presidente americano quer instalar no planeta. Ele mostrou isso, no ano passado, quando declarou guerra tarifária contra o mundo, e nós envolvidos. Muito envolvidos, na verdade, porque recebemos umas das maiores tarifas e a exigência mais descabida de todas. Ao fim venceu a diplomacia brasileira. Nem todas as sobretaxas foram retiradas, mas o Brasil terminou o ano com recorde de exportação e recuos importantes de Trump. O acordo Mercosul-União Europeia vai no sentido oposto ao unilateralismo americano.

A união dos dois blocos precisará da ratificação do Parlamento Europeu e dos Congressos nacionais do Mercosul. A França promete continuar o combate. Nenhuma surpresa. A presidência enfraquecida de Emmanuel Macron precisa dar uma satisfação aos agricultores que estão nas ruas com seus tratores. A França sempre foi contra a abertura do comércio agrícola, mas muitas concessões foram feitas a ela e nada foi considerado suficiente. Votaram contra além da França, HungriaPolôniaÁustria e Irlanda. A Bélgica se absteve. Tudo somado não foi voto bastante para interromper o acordo. A Alemanha, mais liberal dos europeus, comemorou. Se ratificado pelo Parlamento Europeu entra em vigor no país que também o aprovar no Mercosul. No Brasil, a oposição quando governava negociou o acordo e era a favor. Se agora for contra será deslavado oportunismo eleitoral.

É esclarecedora a afirmação de Trump ao jornal "The New York Times” de que não precisa de direito internacional e que o único limite para ele é sua própria moral. Mostra o quão nefasto ele é. Não apenas é um mau governante, mas um perigo para a ordem internacional. A Casa Branca, na semana passada, usou a palavra “vital” para se referir à importância de os Estados Unidos terem a Groenlândia. “Espaço vital” era a definição de Adolf Hitler para justificar suas invasões de países e anexação de territórios.

A era Trump é a do imperialismo nu e cru. Ele nem tenta dourar a pílula. É tão caricato que tem sido farto material para os humoristas. Jon Stewart, do “The Daily Show”, proporcionou muitas risadas, na semana passada, com sua desesperada tentativa de levar Trump a dizer que havia um motivo nobre para invadir a Venezuela. O presidente americano sempre responde que é pelo petróleo. Não alega que é por algum dos grandes valores — liberdade, autodeterminação dos povos — que os Estados Unidos diziam encarnar. Os presidentes LulaClaudia Sheinbaum e Gustavo Petro andaram conversando. O que eles podem contra o poder do “império”? Em termos de força militar, nada. Mas não se desiste da diplomacia, mesmo diante do pior dos brutamontes.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou na sexta que estava embarcando para o Paraguai para assinar o acordo União Europeia-Mercosul, criando a maior zona de livre comércio do mundo, e completou: “A Europa está dando um sinal forte.”

Com diplomacia, comércio e cooperação o mundo poderá remar na direção contrária da barbárie que Trump nos aponta como destino. Diferentemente do que disse, ele não é o único que pode detê-lo. O povo americano pode, nas eleições de meio de mandato, as instituições americanas, a união entre países que queiram defender uma nova ordem mais cooperativa. Ao poderio bélico americano, nada se contrapõe, mas a civilização nunca avançou a partir da força bruta. O mundo vai encontrar a forma de superar a insensata decisão do eleitor americano.

 

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