terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O Brasil na nova ordem geopolítica. Por Christopher Garman

Valor Econômico

Cresce o interesse externo pelo Brasil, mas o país só poderá aproveitar plenamente essa oportunidade se enfrentar o seu déficit fiscal

A ação militar dos EUA na Venezuela serviu como um despertar para lideranças na América Latina. A bem-sucedida derrubada de Nicolás Maduro do poder representou uma ilustração dramática das prioridades estratégicas de Washington no Hemisfério Ocidental, consolidando um debate global sobre como os países terão que se adaptar a um mundo marcado pelo conflito entre grandes potências e pelo declínio da ordem multilateral baseada em regras.

Como muitas nações do Sul Global, o Brasil perde com a deterioração da ordem multilateral. Durante décadas, o Itamaraty construiu uma tradição diplomática de não-alinhamento, e o Brasil se beneficiou de instituições como a Organização Mundial do Comércio para defender seus interesses comerciais e econômicos. A Pax Americana trouxe benefícios tangíveis em segurança e comércio — que agora se dissipam gradualmente.

País está mais bem posicionado do que Brasília avalia e muito melhor que muitos de seus pares no Sul Global

A boa notícia, entretanto, é que o Brasil detém ativos valiosos que o colocam em uma posição privilegiada nesse novo mundo. O país é uma potência agrícola e energética em ascensão, com energia limpa abundante e ricos depósitos de terras raras. Dois eventos recentes ilustram como esses ativos se traduzem em resultados concretos: o recuo da Casa Branca em sua estratégia de impor sanções punitivas ao país e o empenho de Bruxelas em viabilizar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

E olhando para a frente, esses ativos só devem se valorizar. O Brasil já é uma potência agrícola. Mas o país também tem a maior área arável para cultivo sem necessidade de desmatamento em todo o mundo. O país também é uma potência energética em crescimento. Cerca de 90% da energia vem de fontes limpas (hidrelétrica, eólica e solar) e o Brasil tem recursos hídricos em abundância. Isso faz dele um destino atraente para investimentos em data centers e indústrias que buscam reduzir sua pegada de carbono. Ao mesmo tempo, a produção de petróleo está prestes a crescer em 34% nos próximos cinco anos, de 3,8 milhões de barris por dia para aproximadamente 5,1 milhões no início da década de 2030.

Além disso, o Brasil tem uma das maiores reservas conhecidas de terras raras. Após a China restringir exportações de minerais críticos e terras raras, o que gerou um terremoto político em Washington, dada a necessidade desses minerais para tantos setores estratégicos, a prioridade tem sido cada vez mais reduzir a dependência do fornecimento chinês. A Casa Branca tem, lentamente, buscado estabelecer parcerias com países amigos — e, no topo da lista de prioridades do governo Trump, estão Austrália e Brasil, sendo que este último tem potencial para desenvolver terras raras pesadas.

Com risco geopolítico em alta, esses ativos já estão se traduzindo em resultados concretos para o Brasil. O acordo comercial UE-Mercosul, o mais significativo assinado pelo bloco comercial do Cone Sul desde sua criação, por exemplo, foi viabilizado por dois eventos geopolíticos. O primeiro foi a invasão da Ucrânia pela Rússia, que gerou maior senso de urgência em Bruxelas para aprofundar laços comerciais com o Mercosul com vistas à segurança energética e alimentar. O segundo foi a ruptura na relação transatlântica com a volta de Donald Trump à Casa Branca em 2025, que ajudou a impulsionar o acordo até a linha de chegada no início de 2026. Embora o impacto econômico esperado seja modesto (pouco menos de 0,5% de crescimento do PIB ao longo da transição de 14 anos), o acordo criará uma estrutura para mais investimentos entre os dois blocos. A Eurasia Group já registra maior interesse de empresas europeias em investir no Brasil.

O segundo exemplo veio com a guinada de Washington em relação às tarifas proibitivas e às sanções contra o Brasil, impostas em julho. O governo Trump implementou tarifas de 40% sobre o Brasil e sancionou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, alegando que os tribunais estavam minando a liberdade de expressão. Trump recuou dessa estratégia após as sanções não aliviarem os problemas legais do ex-presidente Jair Bolsonaro e após empresas norte-americanas com interesses comerciais no Brasil pressionarem a Casa Branca.

Mas, nos últimos meses, Washington tem demonstrado crescente interesse em chegar a um acordo de cooperação para o desenvolvimento de terras raras do Brasil. A atenção está voltada para a mina de Serra Verde, que recebeu financiamento norte-americano de cerca de US$ 465 milhões para expandir sua produção. A Casa Branca reconheceu que a melhor estratégia com o Brasil é aprofundar laços e evitar que o país se aproxime lentamente da China. Logo, a reviravolta dos EUA tem muito menos a ver com a diplomacia brasileira e com a capacidade de negociação de Lula — que merecem elogios — e muito mais com a falta de dependência brasileira dos EUA, os laços com a China e os ativos valiosos do país.

O conflito geopolítico já está levando países e blocos regionais a priorizar cadeias de suprimento mais resilientes. Isso inclui uma maior preocupação com segurança energética e alimentar, minerais críticos e energia limpa para alimentar data centers. E, a cada crise, isso se torna mais intenso. Nessa semana, em Davos, por exemplo, a crise em relação à Groelândia aumentou o senso de urgência na Europa para depender menos dos EUA e intensificou a necessidade do setor privado de diversificar seus investimentos. A riqueza brasileira em energia, agricultura e minerais torna o país um destino atrativo para essa reconfiguração. A China continuará a apostar no aprofundamento dos laços com o Sul Global, e o Brasil é o mercado mais importante na América do Sul. Além disso, o interesse de países do Oriente Médio no Brasil também vem crescendo.

O Brasil não poderá plenamente aproveitar essa oportunidade sem fazer seu dever de casa e tratar do déficit fiscal, que deixa as taxas de juros e o custo do capital altos demais. Mas o país está mais bem posicionado globalmente do que Brasília avalia — e muito melhor que muitos de seus pares no Sul Global. Em um mundo cada vez mais fragmentado, com a ordem multilateral ruindo e conflitos geopolíticos crescendo, construir uma política externa que aproveita esses ativos parece uma tarefa cada vez mais essencial.

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