Valor Econômico
Cresce o interesse externo pelo Brasil, mas o
país só poderá aproveitar plenamente essa oportunidade se enfrentar o seu
déficit fiscal
A ação militar dos EUA na Venezuela serviu como um despertar para lideranças na América Latina. A bem-sucedida derrubada de Nicolás Maduro do poder representou uma ilustração dramática das prioridades estratégicas de Washington no Hemisfério Ocidental, consolidando um debate global sobre como os países terão que se adaptar a um mundo marcado pelo conflito entre grandes potências e pelo declínio da ordem multilateral baseada em regras.
Como muitas nações do Sul Global, o Brasil
perde com a deterioração da ordem multilateral. Durante décadas, o Itamaraty
construiu uma tradição diplomática de não-alinhamento, e o Brasil se beneficiou
de instituições como a Organização Mundial do Comércio para defender seus
interesses comerciais e econômicos. A Pax Americana trouxe benefícios tangíveis
em segurança e comércio — que agora se dissipam gradualmente.
País está mais bem posicionado do que
Brasília avalia e muito melhor que muitos de seus pares no Sul Global
A boa notícia, entretanto, é que o Brasil
detém ativos valiosos que o colocam em uma posição privilegiada nesse novo
mundo. O país é uma potência agrícola e energética em ascensão, com energia
limpa abundante e ricos depósitos de terras raras. Dois eventos recentes
ilustram como esses ativos se traduzem em resultados concretos: o recuo da Casa
Branca em sua estratégia de impor sanções punitivas ao país e o empenho de
Bruxelas em viabilizar o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.
E olhando para a frente, esses ativos só
devem se valorizar. O Brasil já é uma potência agrícola. Mas o país também tem
a maior área arável para cultivo sem necessidade de desmatamento em todo o
mundo. O país também é uma potência energética em crescimento. Cerca de 90% da
energia vem de fontes limpas (hidrelétrica, eólica e solar) e o Brasil tem
recursos hídricos em abundância. Isso faz dele um destino atraente para
investimentos em data centers e indústrias que buscam reduzir sua pegada de
carbono. Ao mesmo tempo, a produção de petróleo está prestes a crescer em 34%
nos próximos cinco anos, de 3,8 milhões de barris por dia para aproximadamente
5,1 milhões no início da década de 2030.
Além disso, o Brasil tem uma das maiores
reservas conhecidas de terras raras. Após a China restringir exportações de
minerais críticos e terras raras, o que gerou um terremoto político em
Washington, dada a necessidade desses minerais para tantos setores
estratégicos, a prioridade tem sido cada vez mais reduzir a dependência do
fornecimento chinês. A Casa Branca tem, lentamente, buscado estabelecer
parcerias com países amigos — e, no topo da lista de prioridades do governo
Trump, estão Austrália e Brasil, sendo que este último tem potencial para
desenvolver terras raras pesadas.
Com risco geopolítico em alta, esses ativos
já estão se traduzindo em resultados concretos para o Brasil. O acordo
comercial UE-Mercosul, o mais significativo assinado pelo bloco comercial do
Cone Sul desde sua criação, por exemplo, foi viabilizado por dois eventos
geopolíticos. O primeiro foi a invasão da Ucrânia pela Rússia, que gerou maior
senso de urgência em Bruxelas para aprofundar laços comerciais com o Mercosul
com vistas à segurança energética e alimentar. O segundo foi a ruptura na
relação transatlântica com a volta de Donald Trump à Casa Branca em 2025, que
ajudou a impulsionar o acordo até a linha de chegada no início de 2026. Embora
o impacto econômico esperado seja modesto (pouco menos de 0,5% de crescimento
do PIB ao longo da transição de 14 anos), o acordo criará uma estrutura para
mais investimentos entre os dois blocos. A Eurasia Group já registra maior
interesse de empresas europeias em investir no Brasil.
O segundo exemplo veio com a guinada de
Washington em relação às tarifas proibitivas e às sanções contra o Brasil,
impostas em julho. O governo Trump implementou tarifas de 40% sobre o Brasil e
sancionou o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, alegando
que os tribunais estavam minando a liberdade de expressão. Trump recuou dessa
estratégia após as sanções não aliviarem os problemas legais do ex-presidente
Jair Bolsonaro e após empresas norte-americanas com interesses comerciais no
Brasil pressionarem a Casa Branca.
Mas, nos últimos meses, Washington tem
demonstrado crescente interesse em chegar a um acordo de cooperação para o
desenvolvimento de terras raras do Brasil. A atenção está voltada para a mina
de Serra Verde, que recebeu financiamento norte-americano de cerca de US$ 465
milhões para expandir sua produção. A Casa Branca reconheceu que a melhor
estratégia com o Brasil é aprofundar laços e evitar que o país se aproxime lentamente
da China. Logo, a reviravolta dos EUA tem muito menos a ver com a diplomacia
brasileira e com a capacidade de negociação de Lula — que merecem elogios — e
muito mais com a falta de dependência brasileira dos EUA, os laços com a China
e os ativos valiosos do país.
O conflito geopolítico já está levando países
e blocos regionais a priorizar cadeias de suprimento mais resilientes. Isso
inclui uma maior preocupação com segurança energética e alimentar, minerais
críticos e energia limpa para alimentar data centers. E, a cada crise, isso se
torna mais intenso. Nessa semana, em Davos, por exemplo, a crise em relação à
Groelândia aumentou o senso de urgência na Europa para depender menos dos EUA e
intensificou a necessidade do setor privado de diversificar seus investimentos.
A riqueza brasileira em energia, agricultura e minerais torna o país um destino
atrativo para essa reconfiguração. A China continuará a apostar no
aprofundamento dos laços com o Sul Global, e o Brasil é o mercado mais
importante na América do Sul. Além disso, o interesse de países do Oriente
Médio no Brasil também vem crescendo.
O Brasil não poderá plenamente aproveitar essa oportunidade sem fazer seu dever de casa e tratar do déficit fiscal, que deixa as taxas de juros e o custo do capital altos demais. Mas o país está mais bem posicionado globalmente do que Brasília avalia — e muito melhor que muitos de seus pares no Sul Global. Em um mundo cada vez mais fragmentado, com a ordem multilateral ruindo e conflitos geopolíticos crescendo, construir uma política externa que aproveita esses ativos parece uma tarefa cada vez mais essencial.

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