domingo, 25 de janeiro de 2026

O imperador do mundo fala de Davos. Por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

O mundo não precisa de um imperador, muito menos de um imperador acima das leis e inconformado por nunca ter recebido o Prêmio Nobel da Paz

Nem o Vaticano escapou da tentativa de Trump de formalizar uma nova ordem mundial com sede em Washington, ou, mais precisamente, na Casa Branca. O presidente americano aproveitou a reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, para apresentar seu Conselho da Paz, um projeto liderado por ele, representante da maior potência econômica e militar, e destinado, inicialmente, a levar alguma ordem à Faixa de Gaza. Convidou governantes a participar do grupo. Alguns logo aceitaram o convite. Os do Brasil, e de alguns países desenvolvidos, indicaram a intenção de estudar o assunto. A diplomacia do Vaticano também foi cautelosa, mas deixou logo clara a recusa de participar da ocupação de Gaza.

Trump também recuou parcialmente. Admitiu trabalhar com a Organização das Nações Unidas (ONU), depois de haver insinuado a intenção de substituí-la pelo seu conselho, e amaciou o discurso a respeito da Groenlândia. Não renegou, no entanto, a intenção de comprá-la, nem as afirmações sobre a importância estratégica da ilha controlada pela Dinamarca. Além disso, reafirmou a superior capacidade americana de defendê-la contra potências antiocidentais. Mas prometeu evitar o uso da força e tornou-se mais diplomático em relação à Europa e à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Embora tenha tentado, em alguns momentos, ser menos agressivo, Trump jamais conseguiu disfarçar a ambição de uma liderança global acima de padrões acordados em instituições multilaterais. Converteu o Fórum Econômico Mundial em palanque de seu poder e de suas pretensões. Menosprezando a condição formal do fórum, respeitada tradicionalmente, durante décadas, por diplomatas, políticos, empresários, técnicos e autoridades de todo o mundo e de variadas colorações políticas.

Jornalistas veteranos na cobertura de Davos poderiam lembrar civilizadas entrevistas concedidas por líderes de regimes autoritários. Em algumas ocasiões, esses líderes fingiam dificuldades com a língua inglesa e recorriam a intérpretes para traduzir perguntas e respostas, ganhando tempo para formular suas declarações. Ao enfrentar entrevistas com repórteres de todo o mundo, esses líderes aceitavam um jogo típico das democracias, ajustavam-se aos padrões de Davos e ganhavam um canal de comunicação internacional.

O fórum de Davos sempre foi – e certamente continua a ser – muito mais do que um local de conferências, debates e informação técnica. É um centro importante de contatos para empresários, políticos, autoridades, economistas, especialistas de setores diversos, artistas e representantes de atividades culturais. Tem sido um lugar onde muros e fronteiras podem ser esquecidos ou minimizados por alguns dias.

Ausente este ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um veterano frequentador desse mundo, onde ganhou visibilidade internacional em seus primeiros anos como governante. Não se limitava, nesse tempo, a bater ponto nas sessões do fórum. Promovia eventos paralelos, como entrevistas e jantares, e ampliava, dessa forma, seu acesso aos debates e ao noticiário econômico e político da imprensa internacional, mesmo precisando de intérpretes.

Ir ao fórum de Davos e a outros eventos no exterior pode ser muito mais do que turismo, pausa no dia a dia ou exibição de importância. Alguns cidadãos parecem, no entanto, incapazes de entender o potencial construtivo desses encontros. Para algumas autoridades americanas, encontros multilaterais podem ser simplesmente mais uma ocasião de proclamar seu poder e a liderança de seu país. Esse parece o caso de Trump e de alguns de seus assessores. Não surpreende o presidente americano haver usado o Fórum Econômico Mundial como palanque para criticar a ONU, falar da Europa como um continente mal encaminhado e reafirmar suas pretensões de poder internacional.

Apesar de algum esforço ocasional de autocontenção, Trump é incapaz de se apresentar, regularmente, como um governante limitado pelo Direito Internacional e pelas normas de coexistência de nações soberanas. Sua referência quase desdenhosa à ONU, durante o pronunciamento em Davos, combina com o desprezo manifestado, em tantas ocasiões, a entidades e regras multilaterais. Ele já retirou seu país da Organização Mundial da Saúde, tem desprezado sem disfarce a Organização Mundial do Comércio (OMC) e renegou de forma ostensiva outros compromissos internacionais. Para que tantos compromissos custosos e nada lucrativos para os Estados Unidos ou para seu presidente?

Mas o mundo precisa de regras, de padrões civilizados de coexistência, de cooperação e de ajuda às populações menos desenvolvidas. Não precisa de um imperador, muito menos de um imperador acima das leis e inconformado por nunca ter recebido o Prêmio Nobel da Paz – frustração apresentada ao governo da Noruega –, patrocinador do prêmio, mas formalmente sem influência na escolha do ganhador. No entanto, o presidente americano tem admiradores, dentro e fora de seu país, e talvez seja homenageado, um dia desses, com um tango patrocinado por um de seus fãs.

 

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