Folha de S. Paulo
STF se transformou em centro de gravidade da
política nacional
Com o protagonismo vieram os holofotes sobre
o funcionamento da corte
O STF está hoje
no centro das atenções políticas. Chegar a essa destacada – e incômoda --
posição levou tempo. Foi um longo processo, cujo resultado não se deve ao acaso
ou a algum desígnio de partidos, lideranças ou mesmo dos membros da própria
corte.
Os estudiosos indicam razões para tanto:
algumas ancoradas na Constituição de
1988; outras resultantes de características do sistema político; ou, ainda de
decisões contingentes de representantes políticos, ministros ou atores sociais.
Primeiro, o desenho institucional que concentra no tribunal a última palavra sobre a constitucionalidade das leis e sobre quase toda controvérsia relevante. Ele tornou inevitável que conflitos importantes – entre entes federativos, entre governo e oposição ou entre interesses organizados na sociedade -- fossem "judicializados" no STF. Mais ainda, quando uma Carta extensa e programática constitucionalizou garantias e um elenco extenso de direitos sociais, metas e políticas públicas para assegurá-los.
Depois, porque a própria fragmentação
partidária e a lenta operação de governos de coalizão, com decisões muitas
vezes contestadas, multiplicou as demandas à Corte, que passou a ocupar o vácuo
decisório deixado por outros poderes. Terceiro, porque o STF tomou esse espaço
com gosto, usando suas competências para moldar políticas públicas, arbitrar
disputas morais e reconfigurar regras do jogo político. Ao fazê-lo, ganhou
visibilidade e se transformou em foco de expectativas e críticas.
Por fim, vieram os julgamentos de grande
repercussão, transformados em espetáculos televisionados: o Mensalão; a
Operação Lava Jato; a sessão do Senado que aprovou o impeachment de Dilma
Rousseff, com participação do presidente da Corte; os conflitos com o Executivo
sob Bolsonaro e o processo contra os envolvidos na conspiração golpista que
culminou no 8 de janeiro. Tudo contribuiu para fazer do STF o centro de
gravidade da política nacional e transformá-lo em alvo da direita radical.
Com o protagonismo vieram os holofotes sobre seu
funcionamento; sobre o comportamento de seus ministros; e o inevitável o
julgamento da opinião pública. Pesquisa realizada pelo Instituto
Atlas/Intel-Bloomberg, em 2025, mostra grande divisão do público entre aqueles
que acham que o STF está cumprindo seu papel (43,3%) e os que acreditam que o
Brasil vive sob uma ditadura do judiciário (45,4%). Por outro lado, 51,1% dos
entrevistados pensam que a maioria dos ministros não demonstra competência e
imparcialidade ante 48% que creem no contrário.
Estudo de maior fôlego, coordenado pela
socióloga Fabiana Luci de Oliveira (UFSCar) em 2024, concluiu que a confiança
no STF resulta de uma combinação de avaliações de longo prazo (apoio difuso às
regras e à missão da corte) e de curto prazo (apoio a uma decisão específica).
As percepções de curto prazo – sobretudo o desempenho em casos politicamente
salientes – têm mais força, indicando um suporte menos enraizado e mais
vulnerável às conjunturas e à polarização política.
Esse o cenário no qual os ministros do
Supremo têm a oportunidade de definir um código de conduta que, se não é
solução milagrosa para a legitimidade contestada, pode contribuir para
reforçá-la.

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