sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O realismo e as voltas que o mundo dá. Por Paulo César Nascimento*

“Fora dos muros da pólis, os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que devem”, assinalou Tucídides (c.460-400 a.C.), o famoso historiador ateniense da Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta. Com essa frase, ele revelou a especificidade das relações entre as cidades-estados gregas: se a política doméstica de cada uma delas obedece a suas próprias leis, no plano externo – “fora dos muros da pólis” – prevalece a lei do mais forte. Seguindo essa ótica, Tucídides argumentou que a origem da guerra do Peloponeso deveria ser buscada não em um ou outro acontecimento fortuito, mas no crescente poderio de Esparta, que acabaria por enfraquecer a hegemonia de Atenas, a qual, por sua vez, se viu obrigada a recorrer à guerra antes que a correlação de forças entre as duas cidades pendesse definitivamente para o lado de Esparta.

É impossível, para o historiador contemporâneo, não se remeter a Tucídides ao acompanhar a política exterior do atual presidente norte-americano Donald Trump, baseada explicitamente na lei do mais forte. As semelhanças são tão grandes que assim como Atenas sitiou com sua força naval a ilha de Mélos, para obrigar seus habitantes a abandonar a neutralidade e aderir à guerra contra Esparta, também Trump realizou um bloqueio naval à Venezuela, seguida de intervenção armada e sequestro do ditador Maduro para conter a influência chinesa. Parece dessa forma que, passados 2500 anos desde a guerra que abalou o mundo helênico, a mesma lógica segue regendo os assuntos mundiais contemporâneos: os fortes seguem fazendo o que podem e os fracos continuam sofrendo o que devem.

Aspirações de solidariedade entre os povos baseada em uma suposta tendência internacionalista dos trabalhadores, ou um mundo pacífico de estados republicanos federados, tal como imaginado no ensaio “A Paz Perpétua”, de Immanuel Kant, revelaram-se incapazes de explicar uma ordem internacional baseada na dominação de alguns países sobre outros, conflitos armados e disputas entre diversas potências pela hegemonia mundial.

 Será então que o que nos restou, como instrumento de análise das relações internacionais, é a própria visão de Tucídides, ponto de partida para uma das correntes mais influentes no estudo das relações internacionais, a chamada escola realista?  Segundo os realistas, na ausência de um leviatã mundial que molde o comportamento dos países – e nem a ONU nem qualquer outra organização internacional detêm esse poder – cada estado-nação tem que buscar seu lugar ao sol em um mundo hobbesiano potencialmente hostil, através do fortalecimento de seu poder, principalmente econômico e militar.

Se essa visão reflete a realidade mundial, como explicar então que o planeta ainda não tenha degenerado em barbárie generalizada? Isso não ocorreu porque, reza o realismo, os países tendem a formar alianças para contrabalançar seus adversários mais poderosos, formando dessa forma um “equilíbrio de poder” que acaba por nivelar as partes antagônicas, evitando assim que o sistema internacional entre em colapso.

Para os realistas, o que ocorre no plano doméstico dos países – se são democracias ou autocracias, comunistas ou capitalistas – tem pouca influência na ordem internacional. O decisivo é a pressão que um mundo sem governo central exerce sobre os países, obrigando-os a adotar a realpolitik. Foi o que aconteceu na segunda guerra mundial, quando um líder político reacionário e anticomunista como Winston Churchill selou uma aliança com Stalin porque a Inglaterra e a União Soviética estavam enfrentando a mesma ameaça de um novo desafiante da ordem mundial, a Alemanha nazista. Da mesma forma, o secretário de Estado norte-americano durante o governo Nixon, Henry Kissinger, aproximou os Estados Unidos da China maoísta, em 1972, porque ambos países, de ideologias radicalmente diferentes, naquele então estavam interessados em conter a União Soviética. Em todos esses casos e muitos outros, não houve traição de ideais, mas simplesmente a necessidade de recorrer à realpolitik para defender a soberania e os interesses de cada país.

Mas se a ausência de um governo mundial força os países a deixar de lado suas ideologias e valores, e agir conforme a realpolitik, como explicar as mudanças sofridas no equilíbrio de poder ao longo do tempo?  Houve um período de equilíbrio de poder multipolar até fins da segunda guerra mundial, com algumas potências europeias exercendo a hegemonia mundial, seguido pelo equilíbrio bipolar entre Estados Unidos e União Soviética até o colapso desta última em 1991, o que desencadeou um novo rearranjo ainda em curso no equilíbrio de poder atual.

Alguém já disse que toda política exterior se inicia em casa, e pode estar aí a explicação para as mudanças no sistema internacional: a dimensão doméstica, tão negligenciada pela tradição realista. É impossível compreender quando se forma uma nova configuração de poder – com novos atores exercendo papel hegemônico enquanto outros experimentam sua influência diminuir – , se não se levar em conta as opções tomadas em política exterior pelos países, já que a realpolitik e o pragmatismo podem assumir muitas formas, dependendo, para seu êxito, da habilidade dos governantes em promover os recursos que têm a seu dispor e projetá-los ao nível mundial. Diplomacia também é arte.

A China talvez seja o melhor e mais recente exemplo da importância de políticas domésticas para a projeção de um país no plano internacional.  A partir das reformas iniciadas em 1978 por Deng Xiaoping, que abarcaram desde a agricultura, indústria, ensino até o setor de tecnologia e ciência, com a gradual entrada de capital estrangeiro e privatizações, a China em poucas décadas transformou-se de um país pobre e camponês em uma superpotência mundial. A influência da China já se faz presente em todas as regiões do planeta e em todos os setores da economia, desafiando a hegemonia norte-americana.

Como na guerra do Peloponeso, os Estados Unidos reagem de forma semelhante a Atenas. Sucessivos governos republicanos e democratas constatam perplexos o declínio norte-americano – sua economia invadida por produtos chineses, seus empresários movendo os negócios para a China, e o país asiático atraindo cada vez mais antigos aliados norte-americanos, seja através de empréstimos generosos ou parceria no projeto Iniciativa Cinturão e Rota (a nova rota da seda).

Alguns analistas mostram-se perplexos com o desprezo que a administração Trump tem demonstrado em relação à arquitetura internacional e o vasto leque de alianças construído após a segunda guerra mundial, fatores que vinham garantindo até aqui a prosperidade e a hegemonia global norte-americanas. Mas é que na percepção de Trump e do seu projeto MAGA (Make America Great Again), todas essas instituições internacionais, e a própria ideia de multilateralismo, são as principais causas do declínio do país, pois obrigava os EUA a destinar enormes despesas militares para garantir a segurança da Europa, tarifas generosas de importação, ajuda econômica a países pobres, etc. Segundo essa ótica, os custos de manter o multilateralismo passaram a exceder seus ganhos.

É como se o espírito de Tucídides estivesse atormentando as mentes dos dirigentes norte-americanos, sugerindo que se a hora de reação demorar, vai ser tarde demais para deter esta nova Esparta asiática. Daí a guinada trumpista em direção a uma política imperialista agressiva do “America first”, sem disfarces retóricos. Igual a um tigre enjaulado, desfere golpes enfurecidos por todos os lados – tarifaços contra dezenas de países, abandono de antigos aliados, ameaças de invasão e tomada de território e recursos de outros países, etc. É pouco provável que uma política exterior assim traga êxitos, mas o futuro dirá. De qualquer forma, tudo indica que o atual equilíbrio de poder está se reconfigurando em áreas de influência entre China, Estados Unidos e Rússia (esta última talvez limitada à área do antigo império soviético).

Nesse contexto de instabilidade, o Brasil, que se encontra dentro da área de influência norte-americana escolhida por Trump – o “hemisfério ocidental” –, terá que navegar pelas águas turbulentas da nova doutrina Monroe: América para os americanos (do norte, excluindo o Canadá). Se é certo que o Itamaraty tem uma longa tradição de pragmatismo, esta prática algumas vezes é esquecida por interferências ideológicas. Durante o governo Bolsonaro, um anticomunismo primário levou o país a hostilizar seu maior parceiro comercial, a China, e alinhar-se de forma submissa ao governo Trump. Mesmo fora do poder, o bolsonarismo, demostrando toda sua boçalidade através de governadores e congressistas, continua atuando como uma quinta-coluna do trumpismo.

Já o presidente Lula, goste-se ou não dele, tem perfil de estadista, sabe ser pragmático, como comprovou nas negociações com Trump sobre as tarifas impostas ao Brasil, e possui larga experiência em relacionar-se com outros chefes de Estado. Ainda assim, não está isento de cometer deslizes ideológicos, principalmente quando tenta agradar seu público interno. Talvez o maior problema de sua política externa seja uma certa falta de universalidade. Acerta em condenar agressões de países como os EUA ou Israel, mas esquiva-se de criticar agressões como a invasão da Ucrânia pela Rússia, ou a repressão do governo teocrático do Irã. Teve também uma atitude tímida quando Maduro – ironia das ironias – ameaçava tomar grande parte do território e do petróleo da vizinha Guiana. Só adotou uma postura mais firme contra a ditadura bolivariana quando esta fraudou descaradamente as eleições do ano passado. Mas essas ressalvas à parte, o Brasil possui todos os elementos necessários – democracia firme, instituições sólidas, prestígio internacional e experiência diplomática para atravessar a tempestade trumpista.  

*Paulo César Nascimento, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília

 

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