Correio Braziliense
Trump decidiu elevar o já fabuloso orçamento
de defesa dos Estados Unidos. Ou seja, ele quer mais: Groenlândia, Panamá e até
Canadá o aguardam.
No artigo publicado após o Natal, afirmei que o governo brasileiro previa a invasão da Venezuela pelos norte-americanos logo depois da virada do ano. A previsão foi absolutamente correta. Os brasileiros reforçaram os mecanismos de acolhida na fronteira com o país vizinho na expectativa de que haveria uma explosão de migração em Roraima. Não aconteceu. A operação norte-americana foi auxiliada de dentro. Alguém, com poder, decidiu entregar o ditador todo poderoso à custa da morte de seus guarda-costas cubanos e alguns venezuelanos. Tudo correu com o menor derramamento de sangue possível numa situação extrema, como foi o ocorrido nos céus de Caracas e arredores. Maduro perdeu o poder, mas curiosa e estranhamente, seus principais auxiliares continuam a dar as ordens, respaldados pelo governo de Washington.
A população, que conhece as manias do pessoal
que está no poder, decidiu ficar em casa. Ninguém correu as ruas para comemorar
ou lamentar. É muito cedo. As milícias, organizadas pelo homem forte do regime,
Diosdado Cabello, estão armadas e disponíveis para baixar o cacete em quem se
meter a comemorar a vitória dos ianques. Os jornalistas naturalmente são
perseguidos e proibidos de atuar no país. Quem insistir vai preso. Ou
simplesmente desaparece. Em Washington, ao contrário, há um clima de vitória na
transformação da Venezuela de país independente em protetorado norte-americano,
conduzido pelo comércio do petróleo. É uma vitória complicada. A ação militar
foi sensacional e bem-sucedida. Mas está longe de garantir a manutenção da
ordem no país.
As operações militares dos Estados Unidos
caracterizam-se pela capacidade de criar uma situação definitiva no primeiro
momento. Foi assim no Iraque, na Líbia e no Afeganistão. Mas, diferentemente da
primeira batalha, dominar um país exige competência política, objetivos
definidos e muita interação com os locais. Nos três casos, o exército
norte-americano destruiu o país, saqueou o que havia de valor, mas desmontou as
forças políticas internas. A Líbia hoje não tem governo. O Iraque perdeu sua
identidade. Nos dois casos, o petróleo passou a ser dominado por empresas
norte-americanas. No Afeganistão, depois de dezenas de anos de dominação, os
soldados foram embora e deixaram o poder nas mãos daqueles contra quem haviam
lutado. Sem falar no Vietnã. Americanos lutaram ao lado do Vietnã do Sul, país
que não existe mais. O Vietnã do Norte invadiu o Sul e consagrou a existência
de um único país, comunista à maneira chinesa.
A operação Venezuela teve como justificativa
a acusação de que Maduro era controlador do grupo Cartel de Los Soles. Depois,
descobriu-se que esse cartel não existe. Na invasão do Iraque, o governo
alegava que o país tinha armas de destruição em massa. Tudo mentira. Os iraquianos
possuíam alguns rifles antigos, tanques enferrujados e nada mais além de
bazófias do antigo regime. O presidente, antes como hoje, agiu ao arrepio da
própria lei norte-americana. Fez guerra sem consultar o Congresso. Nem declarar
a agressão ao agredido. Ação fulminante. Cirúrgica. O xerife norte-americano
tem licença para matar, sequestrar e atacar navios em pleno mar. Desde a época
dos piratas ingleses, no século 19, não acontecia algo semelhante no Oceano
Atlântico.
A situação na Venezuela é curiosa. A
presidente Delcy Rodríguez precisa fazer um discurso vigoroso para seu público
interno. E, com a outra mão, deve negociar com os norte-americanos. Ela já
tinha feito acordo com a Chevron, grande petroleira norte-americana. Agora,
ampliou para outras empresas com a promessa de fornecer 50 milhões de barris de
petróleo para os norte-americanos e se comprometer com a compra de bens e
serviços no mercado daquele país. O protetorado tem clara preocupação
econômica, situação que remonta ao tempo das navegações portuguesas. Os
representantes de El Rey de Portugal bombardeavam portos na Índia até que os
locais concordassem em negociar prioritariamente com eles, portugueses. A
lógica de Trump é a mesma. Vale a lei do mais forte.
Tudo isso terá consequência na política
internacional. Se a teoria das zonas de influência prevalecer, a China poderá
tomar Taiwan, sem receio de retaliações. E a Rússia, que tenta há quatro anos
subjugar a pequena Ucrânia, poderá efetivar sua dominação para desespero dos
governos da Europa, que estão revendo o perigo russo nas vizinhanças. Isso é
apenas uma suposição. Os norte-americanos poderão se sentir tão empoderados a
ponto de defender a Ucrânia e Taiwan e se proclamarem o grande xerife
internacional. Trump decidiu elevar o já fabuloso orçamento de defesa dos
Estados Unidos. Ou seja, ele quer mais: Groenlândia, Panamá e até Canadá o
aguardam. E o Brasil, nas eleições de outubro, pode ter algumas surpresas por
meio de candidatos muito endinheirados, escoltados por poderosos profissionais
de relações públicas. Nada é impossível para o grande irmão do norte.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.