O Estado de S. Paulo
Assim como fez na Venezuela, Trump também precisa ajustar seus objetivos no Irã
Donald Trump e sua equipe exibiram criatividade e habilidade na Venezuela, considerando seus anunciados objetivos econômicos. No Irã, sejam quais forem os objetivos, é difícil vislumbrar como poderão ter êxito. Antes de capturar Nicolás Maduro e Cilia Flores, Trump colocara ênfase no combate ao narcotráfico, para justificar a campanha contra o regime bolivariano. Depois da captura, a ênfase se deslocou para o ganho econômico decorrente do controle do petróleo venezuelano.
Outros integrantes do regime também foram
acusados pelos EUA de envolvimento com o narcotráfico, como o ministro do
Interior e Justiça, Diosdado Cabello. Daí a necessidade de rever o objetivo
para declarar a operação um sucesso. Trump obteve a captura de Maduro e a
colaboração de sua vice, Delcy Rodríguez, para o plano de controlar o petróleo,
em troca de manter o restante do regime intacto. Então, mudou seu objetivo
declarado, para ajustá-lo ao que foi possível fazer sem intervenção armada de
grande escala, que os americanos não aceitam.
Assim como na Venezuela, Trump precisa
ajustar seus objetivos no Irã a essa limitação. Ele definiu como objetivo
inicial parar a repressão contra os manifestantes. Diante dos maiores protestos
desde a Revolução Islâmica de 1979, a teocracia não tem como parar a repressão,
sob pena de cair.
Trump deu a impressão de que seria esse o
caminho, ao publicar na sua rede social, na terçafeira: “Patriotas iranianos,
continuem protestando. Tomem suas instituições. A ajuda está a caminho”.
Segundo fontes, Trump chegou a ordenar a
preparação de um ataque, provavelmente, envolvendo mísseis e bombardeiros, mas
recuou depois que seus assessores não lhe garantiram que bombardeios levariam à
queda do regime.
O premiê Binyamin Netanyahu alegou que a
teocracia não cairia com ataques pontuais, mas só com uma longa guerra. Israel
não repôs a munição despendida nos ataques iranianos de junho e se sente
vulnerável. Arábia Saudita e Catar pediram que Trump não atacasse, também
temendo retaliações.
Para justificar o recuo, ele alegou que a
morte de manifestantes tinha estancado. O regime lhe comunicou que suspendera
as execuções anunciadas. Mas a repressão, que já matou milhares de pessoas,
continua. O grupo de ataque do portaaviões Abraham Lincoln está sendo deslocado
do Mar do Sul da China para o Oriente Médio, para dar mais opções ao
presidente. Mas não há evidências de que ele saiba como honrar sua promessa aos
manifestantes, que estão pagando com o próprio sangue.

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