domingo, 18 de janeiro de 2026

Tarcísio ameaça decolagem de Flávio, um avião já bem vagabundo. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Se o governador anda conspirando com Michelle, não é para ser candidato em São Paulo

Ele só se destacou porque, para os bolsonaristas, CEO quer dizer Carluxo, Eduardo e Olavo

última pesquisa Quaest mostrou que a candidatura de Flávio Bolsonaro vem se tornando um fato consumado dentro do eleitorado de direita. Seus números ainda são piores que os de Tarcísio, mas melhoraram. O número de eleitores que acha que Jair errou em indicá-lo ainda é alto, mas caiu.

Ainda é pouco para ganhar de Lula, mas Flávio tem esperança de que a tendência de crescimento continue. É uma aposta arriscada.

Em primeiro lugar, porque Tarcísio continua candidato.

Na semana passada, a primeira-dama de São Paulo postou uma mensagem dizendo que o Brasil (e não São Paulo) precisa de "um novo CEO, meu marido". Michelle Bolsonaro "curtiu" a mensagem. Bolsonaristas suspeitam que Tarcísio mandou a primeira-dama postar e combinou com Michelle a demonstração de apoio.

Se Tarcísio anda conspirando com Michelle, não é para ser candidato ao Governo de São Paulo. Conta, inclusive, com um séquito de formadores de opinião que não terão qualquer escrúpulo em dizer que a candidatura de Flávio prova que Tarcísio nunca foi um bolsonarista de verdade. Vão fingir que não viram que foi Jair que rejeitou Tarcísio, e não o contrário. E tentarão um rebranding de Michelle como moderada mesmo se ela continuar casada com o novo hóspede da Papuda. Não me surpreenderei se algum colunista insinuar que o casamento dos dois é aberto, vejam só, Jair e Michelle até estão morando em lugares separados.

Em segundo lugar, Flávio Bolsonaro precisa lidar com o fato de ser um candidato muito ruim.

Até hoje não sabemos direito por que a denúncia da rachadinha com a família do chefe do Escritório do Crime, um escândalo que envolvia Flávio, Jair e Michelle, só apareceu depois da eleição presidencial de 2018. Agora imaginem o que teria sido a campanha daquele ano se soubéssemos disso ou se tivéssemos descoberto que Jair Bolsonaro tinha comprado uma mansão com dinheiro vivo, como Flávio comprou.

E se a população descobrir, além disso, que Flávio se livrou das acusações graças a Dias Toffoli, esse aí que anda no noticiário? E que, em agradecimento ao STF, Flávio escreveu nesta Folha que o STF não teve alternativa, diante da incompetência jurídica de Sergio Moro, a não ser soltar Lula ("Moro Soltou Lula", 21 de fevereiro de 2022)?

Aqui já imagino Flávio se defendendo: "OK, eu sou um idiota que desmaia em debate, mas, até aí, o Tarcísio também é uma porcaria". Nada tenho eu a objetar ao senador.

O atual governador paulista só se destacou pela competência no governo Bolsonaro porque, para os bolsonaristas, CEO quer dizer Carluxo, Eduardo e Olavo: nesse meio aí, qualquer um se destaca. Tarcísio poderia, sim, ter construído uma imagem de moderado que correspondesse à realidade, mas foi covarde e submisso ao Jair nos últimos anos. Não deve adquirir mais coragem se passar a depender politicamente do apoio da mulher do sujeito.

Resumindo, a sombra de Tarcísio dificulta a decolagem de Flávio, que, de qualquer forma, já é um avião bem vagabundo.

Estamos nessa porque a direita brasileira ainda não conseguiu sair do buraco em que se meteu em 2018. Agora é esperar para saber qual dos dois a turma de sempre vai mentir que é moderado no final do ano.

 

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