O Globo
Ao contrário dos influenciadores da internet,
jornalistas trabalham com um sistema de regras, com revisão e checagem
A jornalista Malu Gaspar, do GLOBO, revelou que influenciadores da internet receberam ofertas de até R$ 2 milhões para fazer um servicinho em favor do encrencado banqueiro Daniel Vorcaro. O job consistia em divulgar nas redes sociais, como quem nada quer, que a liquidação do Banco Master havia sido uma precipitação do Banco Central — e não resultado de uma sequência de fraudes financeiras que lesaram mais de um 1,5 milhão de investidores. No dia seguinte à publicação da reportagem do GLOBO, a Folha de S.Paulo mostrou que ao menos 42 perfis nas redes sociais passaram a atacar investigadores envolvidos na liquidação do Master. Os ataques foram simultâneos, e a grande maioria dos perfis não era especialista em assuntos financeiros, como revelam seus nomes prosaicos — Futrikei, Divas do Humor e Festa da Firma. Assim, é de supor que, se uns poucos influenciadores optaram por denunciar a proposta, feita por agências de marketing, de alugar seus teclados para lustrar a emporcalhada imagem de Vorcaro, muitos outros a aceitaram.
A maioria dos brasileiros se informa pelas
redes sociais — 51,8%, segundo pesquisa do instituto Ipespe. “Informar-se pelas
redes sociais” significa, basicamente, saber o que acontece no mundo lendo
reportagens (ou, quase sempre, seus títulos) feitas pela imprensa profissional
e repostadas no WhatsApp e afins. Ou, então, assistir no YouTube, TikTok e
Instagram a resumos e comentários de notícias, feitos por jornalistas
independentes, políticos, militantes, diletantes e franco-atiradores de toda
sorte — chamados de “influenciadores”. Trata-se de uma categoria que, pela
natureza diversa e propósitos idem, já há algum tempo vem despertando o
interesse de setores do poder. O governo Dilma Rousseff fez largo uso dessa mão
de obra. Em 2014, ano de eleição presidencial, só Petrobras, Caixa Econômica
Federal e Banco do Brasil gastaram quase R$ 10 milhões em patrocínios para
sites amigos e comentaristas dispostos a elogiar o governo ou difamar seus
inimigos. Dos “blogueiros progressistas”, como eram chamados à época, aos
influenciadores de aluguel, a distância é curta — nada de novo sob o sol.
“Mas é o roto falando do rasgado” — dá para
ouvir daqui os comentários de leitores. É fato que a própria imprensa ajudou a
construir a percepção de que também ela mente, também ela manipula e também ela
é parcial. Quando parte do jornalismo profissional opta pelo moralismo
militante em detrimento dos fatos, a corrosão da confiança pública é uma
consequência previsível. Daí não decorre que roto e rasgado se igualem no erro.
Ao contrário dos influenciadores da internet,
jornalistas trabalham com um sistema de regras, em que a lógica da redundância
impõe camadas de supervisão, edição, revisão e checagem do texto. Esse circuito
reduz não só as chances de equívocos, como as de desonestidades individuais.
Aos que se deixam levar por um ou outro, as consequências vão do dano
reputacional à responsabilização jurídica, ou ainda o olho da rua.
Da mesma forma, é menos a virtude do que
outro pilar da imprensa profissional — sua independência financeira — aquilo
que lhe permite ser autossuficiente e, portanto, livre para fiscalizar o
governo. E também para escavar alianças subterrâneas entre o poder público e
ricos representantes do setor privado, quando se juntam para repartir benesses,
dividendos e blindagens. Injusto exigir os mesmos padrões de produção de
influenciadores avulsos da internet.
Quem estiver interessado em saber até onde vai a cumplicidade entre o poder público e Vorcaro terá de continuar contando com a imprensa — do tipo profissional, não a de fundo de quintal. Mesmo porque, da parte de outras instituições, segue indisfarçável o desejo de enterrar o assunto quanto antes.

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