sábado, 10 de janeiro de 2026

Sinais de resistência. Por Flávia Oliveira

O Globo

Dos Estados Unidos também surgem os primeiros sinais de corajosa insatisfação popular

Um bem-vindo soluço do multilateralismo se deu quando, após um quarto de século de vaivém, a maioria dos países da União Europeia se posicionou a favor do acordo com o Mercosul. Em tempos do protecionismo galopante instituído por Donald Trump, o tratado só foi possível graças a um generoso pacote de salvaguardas e desbloqueio de € 45 bilhões para a política agrícola dos europeus, numa prova de que bancada do boi não é exclusividade dos trópicos. A ratificação do que se configura como a maior zona de livre-comércio do mundo, com cerca de 700 milhões de habitantes, foi ponto positivo de uma semana em que a América do Sul flertou com o apocalipse.

O amanhecer do primeiro sábado de 2026 se apresentou como virada de século, início de novo capítulo da História. O ataque à Venezuela e o sequestro, pelos Estados Unidos, do presidente-ditador Nicolás Maduro e da então primeira-dama, Cilia Flores, materializaram a mudança de paradigma nas relações da maior potência econômica e bélica do planeta com a região. O presidente dos Estados Unidos ainda foi capaz de anunciar, sem constrangimento, controle do território e apropriação de reservas de petróleo do país que partilha com o Brasil uma fronteira de 2,2 mil quilômetros.

Minha mãe, Dona Anna, definia a boa vida como combinação de “sombra, água fresca, sapato folgado, roupa nova (de vez em quando), sono tranquilo”. Num mundo que ainda sofre com insegurança alimentar, eu poderia adicionar mesa farta ao rol. Mas vou me ater à privação de sono que Trump nos impôs — aí incluídos os que, radicalizados à direita, festejaram em público a violação à soberania de uma nação vizinha, à Carta da ONU, ao Direito Internacional.

Ele ainda ordenou a saída dos Estados Unidos de seis dezenas de organizações internacionais, 31 delas vinculadas à ONU, incluindo ONU Mulheres, IPCC, Unctad e Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima. Ameaçou México, Colômbia, Cuba, Irã e Groenlândia. Para ficar com o território autônomo da Dinamarca, estaria disposto a sacrificar a Otan, aliança militar firmada com a Europa para frear a expansão soviética no pós-guerra.

Na despedida de 2025, a imposição de sobretaxas pela China à carne bovina importada já sugeria que, como se diz no mundo da moda, o protecionismo é o “novo preto”. A intervenção na Venezuela selou, para a América Latina, a nova ordem. O presidente brasileiro foi elogiado em editoriais na Europa pela nota que classificou os bombardeios e a captura do presidente como ultrapassagem de “uma linha inaceitável”, ainda que não tenha mencionado diretamente nem Maduro nem Trump ou os Estados Unidos.

Nos últimos dias, os contatos de Lula com outros líderes do mundo democrático sugeriam a formação de um arco em prol da legalidade, da soberania, da paz e da segurança regionais. O brasileiro conversou por telefone com os presidentes da Colômbia, Gustavo Petro, e do México, Claudia Sheinbaum; recebeu ligação do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Com este, festejou a aprovação do acordo UE-Mercosul e agendou reunião, nos próximos meses, sobre defesa da democracia. O canadense foi convidado — e aceitou — vir ao Brasil em abril; ambos manifestaram interesse em acelerar a negociação de tratado Mercosul-Canadá.

ONU enfraquecida, OEA omissa, Europa hesitante prenunciam rendição à ordem que reduz o planeta a zonas de influência dos Estados Unidos, da Rússia e da China. Um diplomata brasileiro, no início da semana, assinalava que a posição de Lula — firme, embora cuidadosa — influencia países de nível médio de poder militar, econômico e estratégico:

— Todos têm motivos para preocupação — completou.

Qualquer aceno ao diálogo, ao respeito às normas (ainda) vigentes, ao multilateralismo é sinal de resistência. O bloco que o Mercosul está formando com a UE e o tratado que rascunha com o Canadá representam mais que oportunidades de comércio. Declarações, telefonemas e notas condenando o arbítrio comunicam e orientam. Não é aceitável deixar o neoimperalista gritar sozinho.

Dos Estados Unidos também surgem os primeiros sinais de corajosa insatisfação popular. Na primeira pesquisa de opinião após o ataque à Venezuela, um terço da população aprovou e outro terço desaprovou a ação de Trump. Entre eleitores republicanos, base do presidente, 65% aplaudiram; entre os democratas, 65% condenaram. É avaliação que obriga a oposição, em ano eleitoral, a se posicionar.

A execução por um agente da ICE (órgão de caça e deportação de imigrantes) da cidadã americana Renee Nicole Good desencadeou uma onda de manifestações em várias cidades. O crime aconteceu em Minneapolis, próximo do local onde, em maio de 2020, o negro George Floyd foi asfixiado até a morte por um policial branco. Na ocasião, os protestos contra a violência racial se multiplicaram e ajudaram a desgastar Donald Trump, que acabou derrotado por Joe Biden no projeto de reeleição.


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