Correio Braziliense. Por Fernanda Strickland, Vanilson Oliveira, Victor Correia e Caetano Yamamoto
De um lado, o presidente Lula galvaniza a
esquerda e, novamente, é considerado o candidato mais competitivo do campo
progressista. Do outro, a direita se divide em nomes. E, de novo, não se
vislumbra ninguém que se apresente como 3ª via
Com a chegada de mais um ano eleitoral, o cenário político se redesenha sob o signo da polarização. A disputa entre forças de esquerda e direita deve continuar a dominar o debate público, mesmo com a possível renovação de nomes, reduzindo o espaço para o surgimento de uma terceira via capaz de se firmar como alternativa competitiva.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aposta na
polarização para 2026. Ele comentou o tema na última reunião ministerial do
ano, em 17 de dezembro, na Granja do Torto. Aos ministros — muitos dos quais
deixarão o governo para disputar cargos —, ordenou que melhorem a divulgação
dos feitos do governo e culpou a divisão política pela dificuldade em
transformar resultados positivos em avaliação favorável da gestão.
"(O resultado) não aparece porque existe
uma polarização no país. É como se fosse Corinthians e Palmeiras, Ceará e
Fortaleza, Grêmio e Internacional, Atlético Mineiro e Cruzeiro, Flamengo e
Vasco", afirmou Lula.
Em outra fala recente, Lula disse que a
disputa eleitoral sempre foi marcada pela polarização, mas defendeu que o
embate político não seja baseado no ódio. "O problema é você polarizar
politicamente sem estimular o ódio", afirmou, ao citar alianças do
passado, como a com o vice-presidente Geraldo Alckmin, ex-adversário político.
Indicação
No Planalto, auxiliares do presidente avaliam
que o adversário da direita dependerá diretamente dos votos do ex-presidente
Jair Bolsonaro, mesmo que tente adotar um discurso mais moderado. A
possibilidade de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ser o candidato chegou a
ser vista com alívio por integrantes do governo, embora parte da equipe trate-o
como um "candidato-tampão".
Já o governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos), é visto como o nome mais competitivo da direita e
aquele que mais preocupa o governo. Chegou a ganhar força no mercado
financeiro, no movimento apelidado de "trade Tarcísio", embora
pesquisas recentes tenham mostrado Flávio Bolsonaro com desempenho semelhante.
Diferentemente de Lula e Flávio, Tarcísio tem
criticado publicamente o "fla-flu" político-eleitoral. Em evento
ao lado do presidente, afirmou que o país vive uma "polarização
afetiva", na qual pessoas se hostilizam apenas por pensar diferente,
defendendo a necessidade de "mudar essa chave".
Também aparecem como possíveis candidatos os
governadores Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Júnior (PR) e Romeu Zema (MG), todos
de direita e com histórico de proximidade com Bolsonaro, mas com menor
competitividade nas pesquisas.
Para enfrentar Lula, a direita aposta,
principalmente, no tema da segurança pública, considerado um ponto fraco do
governo após episódios de violência, como a megaoperação no Rio de Janeiro. O
Planalto, por sua vez, aposta nos indicadores econômicos positivos e em medidas
de apelo popular, como o programa Pé-de-Meia e a isenção do Imposto de Renda
para quem ganha até R$ 5 mil, além de explorar politicamente a tentativa de
golpe de 8 de janeiro de 2023 e as ações internacionais atribuídas a aliados de
Bolsonaro.
Roteiro prévio
A disputa presidencial de 2026 deve repetir o
roteiro de forte polarização que marcou as últimas eleições no Brasil, com Lula
galvanizando o campo da esquerda e Bolsonaro permanecendo como principal
referência da direita. A avaliação é do professor Fernando Neisser, de
direito eleitoral da FGV São Paulo, que vê pouco espaço para o surgimento de
uma terceira via competitiva no próximo pleito.
Segundo Neisser, a dinâmica política atual
indica a manutenção desse embate direto entre dois polos bem definidos.
"Eu acredito que nós seguiremos tendo uma disputa polarizada entre um
campo de direita, que vai ter a figura do Bolsonaro ainda como norte, e a
esquerda com a figura do Lula, claro, como o próprio candidato à reeleição. Não
consigo enxergar espaço para o surgimento de uma terceira via", afirma.
Para ele, a dificuldade de romper essa lógica ficou evidente em disputas
recentes, como a eleição ao governo de São Paulo, em que nem mesmo o uso da
máquina estadual foi suficiente para alterar o cenário.
"O exemplo que nós tivemos em São Paulo,
nas eleições ao governo com a campanha do Rodrigo Garcia, que, ainda assim, não
conseguiu quebrar a polarização, é um sinal desse movimento", avaliou.
No campo da direita, o professor reconhece
que ainda há um quadro de fragmentação, mas avalia que esse cenário tende a se
acomodar ao longo de 2026. "Ainda assim, é preciso que a direita organize
as suas candidaturas. Não acredito que ela vai sair tão fragmentada quanto está
neste momento. Acho que isso faz parte, ainda, desse jogo de acomodação",
diz. Para Neisser, esse processo é comum no início do calendário eleitoral e
deve ganhar contornos mais definidos com a aproximação das convenções
partidárias.
Do lado do governo, o cenário é considerado
favorável a Lula, especialmente por conta dos índices de
popularidade. Neisser observa que, em democracias com eleições periódicas, é
natural que governos concentrem entregas mais visíveis nos últimos anos de mandato.
"É natural dentro de uma democracia que tem eleições a cada quatro anos,
que as entregas principais dos governos sejam planejadas para serem feitas nos
últimos anos, para que isso seja percebido pela população como aquilo que o
governo conseguiu oferecer nos seus quatro anos", explicou.
O professor também descarta a possibilidade
de repetição de práticas que marcaram o fim do governo Bolsonaro, e que
renderam sanções na Justiça Eleitoral. "Não acredito que o governo Lula vá
incorrer em falhas e abusos como aqueles que nós vimos no final do governo
Bolsonaro", afirma, citando a liberação bilionária de recursos e o uso
irregular da máquina pública.
Segundo ele, a reação institucional observada
na última eleição deixou lições claras. "Nós tivemos uma fiscalização
forte do TCU (Tribunal de Contas da União), uma resposta dura da Justiça
Eleitoral e uma condenação de um presidente, então candidato à reeleição,
exatamente por abuso de poder", lembrou.
Inteligência artificial
Para Neisser, isso não impede que o governo
apresente seus resultados ao eleitorado, desde que dentro das regras. "O
que não significa que seja normal o governo mostrar as suas conquistas e deixar
a população decidir", pontuou.
Apesar da previsibilidade do embate político,
o maior desafio para o próximo ano eleitoral, na avaliação do professor, está
fora do campo tradicional da disputa entre candidatos. "O maior desafio
que nós temos para o ano que vem ainda diz respeito às redes sociais",
afirmou.
Neisser destacou que o avanço da inteligência
artificial (IA) torna a desinformação mais sofisticada e difícil de detectar,
ao mesmo tempo em que o Tribunal Superior Eleitoral tende a adotar uma postura
menos interventiva do que em 2022. "A inteligência artificial está ainda
mais forte, mais profissional e com mais qualidade num ambiente em que o TSE
não está em uma atuação tão firme nesse controle da desinformação",
alertou.
Na avaliação de Neisser, a combinação entre polarização política e redes sociais continua sendo um fator central do processo eleitoral brasileiro. "A gente sabe que muito do que sustenta a polarização", adverte.

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