domingo, 18 de janeiro de 2026

Que gente é mesmo essa? Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo  

O preconceito que transparece na fala do prefeito do Rio atende uma população em ascensão eleitoral: os pentecostais

Irritado com os questionamentos sobre favorecimento a palcos evangélicos no réveillon, saiu-se com 'que gente preconceituosa é essa?'

Diz um aforismo afro que "se as palavras lhe queimam a boca, a cura é o silêncio". Aplica-se bem à intemperança verbal do prefeito do Rio de Janeiro, reincidente em ditos trêfegos. No mais recente, irritado com os questionamentos sobre seu favorecimento a palcos evangélicos no réveillon da praia de Copacabana, saiu-se com "que gente preconceituosa é essa?"

Referia-se precisamente à "gente" da qual provém a criação da festa de praia na virada do ano, uma transposição da homenagem a Iemanjá no dia 2 de fevereiro para o réveillon do Rio. Entretanto, aspirante a governador, com a mesma inconsistência com que escorrega de Bolsonaro Lula, já prometeu estátua para o Tata Tancredo, líder umbandista, promotor da festa nos anos 1950.

O incidente espelha coisas piores. Por um lado, o último território livre do povo, a praia, vem sendo apropriada por elites, governos e desordeiros: a luta desclassificada é um aspecto da luta de classes no país. Milicianiza-se até a beira do mar. Por outro lado, a "boca queimada" do político pauta-se pelo velho discurso discriminatório de intelectuais orgânicos do poder. Como escrevia o incensado Roberto Campos: "Boa parte do nosso subdesenvolvimento se explica em termos culturais. Ao contrário dos anglo-saxões, que pregam a racionalidade e a competição, nossos componentes culturais são a cultura ibérica do privilégio, a cultura indígena da indolência e a cultura negra da magia" (Folha, 25.ago.96).

Senão, o jornalista Fernando Pedreira: "Vem do Norte uma crescente e irresistível onda que vai lambendo o país, tomando de assalto sua cultura, sua política (...) Estaria nascendo, enfim, um novo Brasil mais brasileiro, vale dizer, mais latrino-americano, cucaracho, caliente, orgulhosa e assumidamente negroide, cubano" (JB, 12.mai.96). No governo FHC, Pedreira tornou-se embaixador do que considerava "latrina" na Unesco, órgão cultural da ONU.

Em duas décadas de ações afirmativas, essas janelas escancaradas do preconceito se fecharam, à espera da hora de rasgar as fantasias. Com o rebaixamento moral da onda protofascista, retornou o racismo represado. Na Hebraica do Rio, um salão lotado de gente abastada e educada em bons colégios esbaldou-se de rir quando Bolsonaro disse que quilombolas pesavam arrobas. Os filhos do então candidato jamais se casariam com mulheres negras, porque "foram bem-educados".

O preconceito que transparece no faniquito do prefeito atende a um tipo de "gente" em ascensão eleitoral: os pentecostais. Aliás, hoje mais preocupados com suas contas no Banco Master. Mas é estratégico desenhar um perfil identitário valorizado e ao mesmo tempo conter formas autóctones de subjetivação. Daí a negação racista de possibilidades concretas de povo ou de qualquer outra historicidade.

Surdez neocolonial à parte, ainda ressoa, entretanto, a frase do abolicionista Joaquim Nabuco: "Os negros deram um povo ao Brasil". Não uma "gente", indeterminada, mas povo com outro padrão civilizatório, que aqui chegou como um múltiplo de nações na diáspora africana. Nação, dizia o francês Ernest Renan, é um "princípio espiritual". É assim que o princípio das águas maternais recebe o nome de Iemanjá, patrona da praia do povo.

 

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