Folha de S. Paulo
O preconceito que transparece na fala do prefeito
do Rio atende uma população em ascensão eleitoral: os pentecostais
Irritado com os questionamentos sobre
favorecimento a palcos evangélicos no réveillon, saiu-se com 'que gente
preconceituosa é essa?'
Diz um aforismo afro que "se as palavras
lhe queimam a boca, a cura é o silêncio". Aplica-se bem à intemperança
verbal do prefeito do Rio de
Janeiro, reincidente em ditos trêfegos. No mais recente, irritado com os
questionamentos sobre seu favorecimento
a palcos evangélicos no réveillon da praia de Copacabana, saiu-se com
"que gente preconceituosa é essa?"
Referia-se precisamente à "gente" da qual provém a criação da festa de praia na virada do ano, uma transposição da homenagem a Iemanjá no dia 2 de fevereiro para o réveillon do Rio. Entretanto, aspirante a governador, com a mesma inconsistência com que escorrega de Bolsonaro a Lula, já prometeu estátua para o Tata Tancredo, líder umbandista, promotor da festa nos anos 1950.
O incidente espelha coisas piores. Por um
lado, o último território livre do povo, a praia, vem sendo apropriada por
elites, governos e desordeiros: a luta desclassificada é um aspecto da luta de
classes no país. Milicianiza-se até a beira do mar. Por outro lado, a
"boca queimada" do político pauta-se pelo velho discurso
discriminatório de intelectuais orgânicos do poder. Como escrevia o incensado
Roberto Campos: "Boa parte do nosso subdesenvolvimento se explica em
termos culturais. Ao contrário dos anglo-saxões, que pregam a racionalidade e a
competição, nossos componentes culturais são a cultura ibérica do privilégio, a
cultura indígena da indolência e a cultura negra da magia" (Folha,
25.ago.96).
Senão, o jornalista Fernando Pedreira:
"Vem do Norte uma crescente e irresistível onda que vai lambendo o país, tomando
de assalto sua cultura, sua política (...) Estaria nascendo, enfim, um novo
Brasil mais brasileiro, vale dizer, mais latrino-americano, cucaracho,
caliente, orgulhosa e assumidamente negroide, cubano" (JB, 12.mai.96). No
governo FHC, Pedreira tornou-se embaixador do que considerava
"latrina" na Unesco, órgão cultural da ONU.
Em duas décadas de ações afirmativas, essas
janelas escancaradas do preconceito se fecharam, à espera da hora de rasgar as
fantasias. Com o rebaixamento moral da onda protofascista, retornou o racismo represado.
Na Hebraica do Rio, um salão lotado de gente abastada e educada em bons
colégios esbaldou-se de rir quando Bolsonaro disse que quilombolas pesavam
arrobas. Os filhos do então candidato jamais se casariam com mulheres negras,
porque "foram bem-educados".
O preconceito que transparece no faniquito do
prefeito atende a um tipo de "gente" em ascensão eleitoral: os
pentecostais. Aliás, hoje mais preocupados com suas contas no Banco Master.
Mas é estratégico desenhar um perfil identitário valorizado e ao mesmo tempo
conter formas autóctones de subjetivação. Daí a negação racista de
possibilidades concretas de povo ou de qualquer outra historicidade.
Surdez neocolonial à parte, ainda ressoa,
entretanto, a frase do abolicionista Joaquim Nabuco: "Os negros deram um
povo ao Brasil". Não uma "gente", indeterminada, mas povo com
outro padrão civilizatório, que aqui chegou como um múltiplo de nações na
diáspora africana. Nação, dizia o francês Ernest Renan, é um "princípio
espiritual". É assim que o princípio das águas maternais recebe o nome de
Iemanjá, patrona da praia do povo.

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