Folha de S. Paulo
Projeto de tirano dos EUA foi contido apenas
quando foi peitado ou por causa de risco doméstico
China, a Rússia de Putin, começo de pânico
financeiro e impopularidade maior limitaram Trump
Donald Trump 2
foi contido até agora apenas por retaliações comerciais e armas nucleares
chinesas, por um início de pânico no mercado financeiro americano (no tarifaço
de abril de 2025), pela indiferença cínica e pelas armas nucleares de Vladimir
Putin e pelo receio de que o mau humor do eleitorado aumentasse
ainda mais, por causa de preços elevados por impostos de importação desmedidos.
Por falar nisso, Trump 2 é ora menos impopular que no final do primeiro ano de
Trump 1.
Trump foi parcialmente contido, de resto. A cada vitória sentiu-se mais à vontade para começar outro ataque bárbaro, contra outros países ou contra os próprios cidadãos e a Constituição dos Estados Unidos.
Tem mais três anos de mandato. Haverá ainda
tempo e oportunidade para que o projeto de tirano use negócios como armas e
armas como negócios. Qualquer um pode estar na mira, do indivíduo que pode
levar tiro das SA de Trump (ICE, "la migra", polícia de imigração e
fronteiras) até um país qualquer, como também o Brasil.
Quem não peitou Trump não levou. Se Trump
levar mais essa, em alguma medida, vai partir para a próxima. Mas a retaliação
terá custos sérios para os europeus.
Centros de estudos militares, de relações
internacionais, de economia e a mídia europeia dão relatos imprecisos a
respeito de como a União
Europeia pretende reagir à ofensiva da Groenlândia.
No que parece menos incerto, os europeus outra vez negociariam a fim de reduzir
danos. Mas haveria danos.
Por exemplo, a concessão de poderes militares
e econômicos grandes sobre a ilha. No ano passado, a União Europeia se rendeu
ao ataque comercial trumpiano, fazendo concessões enormes, porque não tem armas
bastantes para enfrentar Putin.
A negociação é na verdade um modo de tentar
empurrar o problema com a barriga. Enquanto "negociam", os europeus
esperam alguma reação doméstica americana. Isto é, que sobrevenha alguma
contenção dos poderes de Trump, quase milagre: o poder de fazer guerra quente
(depende de uma dúzia de parlamentares republicanos) ou de fazer guerra
comercial (depende da submissa Suprema Corte).
Europeus e mais gente com fé no milagre
esperam também que possam evitar conflito decisivo ou rendição maior até o
final do ano, quando Trump pode perder o controle do Congresso.
No curto prazo, a União Europeia não quer
recorrer a retaliação econômica que faça efeito prático. Poderia acertar tiros
em Trump, mas sofreria
danos também, sendo de resto mais frágil. Para começar, recorde-se
que a UE cresce pouco (perto de 1,3% em 2025, quase metade do crescimento
americano), muitos países estão com as contas públicas estouradas, governo
depois de governo perde eleições, a hiena da extrema direita espreita o
apodrecimento político etc.
Suponha-se que Trump não reaja agora, que não
passe da guerra comercial para guerra econômica maior ou não faça pressão
militar direta. Ainda assim, a União Europeia corre o risco de ficar
militarmente nua com a mão no bolso furado caso os EUA esvaziem de vez a Otan e
parem de oferecer apoio de "inteligência" militar ou armas.
A UE começou um programa de rearmamento, mas
levará tempo para ter mísseis de longo alcance, aviões de ponta etc. Para
piorar, compram parte de seu equipamento justamente dos EUA. Putin já está
na Ucrânia e
faz arreganhos de guerra híbrida no leste europeu.
A UE está entre o caldeirão do inferno do leste e o do oeste.
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