sábado, 10 de janeiro de 2026

Ladrões, marinheiros e galinhas. Por Eduardo Affonso

O Globo

Há os que conseguem festejar a queda do ditador Nicolás Maduro e condenar a ação absurda do protoditador Donald Trump

Reelaborando a sabedoria popular, Machado de Assis escreveu que não é a ocasião que faz o ladrão:

— A ocasião faz o furto; o ladrão já nasce feito.

As tias do zap seriam golpistas latentes, à espera de uma oportunidade para atacar as instituições, os edifícios públicos e os fatos. Sem um catalisador, passariam a menopausa e a “melhor idade” entretidas com hidroginástica e receitas de remédios caseiros — que provocariam, no máximo, ataques de riso na Anvisa.

Idem para os militares saudosos de regimes de exceção. Na ausência de algum aventureiro que lhes abrisse caminho, chegariam à reserva entediados com a missão de pintar de verde aquilo que anda (tanque, jipe) e de branco o que fica parado (tronco de árvore, meio-fio). Seu maior desafio na ativa teria sido a dúvida bizantina sobre que cor usar nos velhos tanques estacionados, como monumentos, na entrada dos quartéis.

Há outro ditado que corrobora a reflexão machadiana:

— É na tempestade que se conhece o marinheiro.

Defender o protagonismo e o empoderamento de mulheres, afrodescendentes, LGBTQIAP+ e pessoas em situação de vulnerabilidade social é fácil quando se compartilha a mesma ideologia. Caso contrário, estes serão alvo de desprezo similar ao que lhes dedicam os assumidamente misóginos, racistas, homotransfóbicos e aporofóbicos. A empatia e a opção preferencial pelos desprivilegiados não sobrevivem ao menor sintoma de pluralidade de opinião. A tolerância naufraga na primeira onda.

O ditado sobre o marinheiro e a procela vale também para o episódio da invasão da Venezuela. Ali se evidenciou ainda mais quem preza democracia, direitos humanos e Direito Internacional e quem topa tudo por um déspota para chamar de seu. Há os que conseguem comemorar a queda do ditador Nicolás Maduro e, ao mesmo tempo, condenar a absurda ação do protoditador Donald Trump. E os que condenam em Trump o que relevam em Putin (e vice-versa), ou só veem em Maduro uma vítima do imperialismo ianque, não o algoz de uma nação inteira. A tiranoafetividade é um vírus oportunista. Basta uma baixa imunológica, e ela mostra do que é capaz.

Um último ditado diz que quem mata a galinha dos ovos de ouro fica sem ouro, sem ovo e sem galinha. E o exemplo rematado disso é... Porto de Galinhas, onde o turista é quem paga o pato da incompetência nacional em explorar o turismo.

A ganância e a truculência observadas ali se repetem país afora, impunemente. Não espanta que algumas cidades (como Istambul, Londres, Dubai e Bangkok) recebam, sozinhas, mais visitantes que o Brasil inteiro. E nem precisamos ir tão longe. Somos quase 50 vezes maiores que o Uruguai e temos apenas o triplo de turistas que preferem o país vizinho, mais civilizado.

Uma Justiça eficiente, que coibisse a corrupção e punisse os corruptos, talvez evitasse que tanta gente ansiasse por um regime de força, à direita ou à esquerda, com a desculpa de moralizar o país. Uma organização supranacional que se encarregasse de prevenir conflitos, garantir a paz e não se deixasse manipular ideologicamente nem se tornasse refém das grandes potências talvez conseguisse evitar certos arroubos belicistas. E quem sabe algum órgão, comandado por quem entendesse do assunto, nos permitisse explorar a riqueza natural e cultural do país sem achacar o turista.

Sonhar não custa.


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