O Globo
María Corina Machado jogou pela janela um
sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro
Somente um paspalho vaidoso e inseguro em
relação à própria estatura pensaria em chantagear alguém para receber um Nobel
de segunda mão, resumiu Paul Krugman, ganhador de um Nobel de Economia legítimo
em 2008. A cena da semana passada, que teve a Casa Branca por testemunha, é
quase o registro histórico de um apogeu — a era do cinismo político agudo,
desmesurado, sem vestígio de culpa ou vergonha. Na foto que rodou mundo, vê-se
o presidente americano Donald Trump, sorridente, agarrado à imensa moldura dourada
que, entre placas de agradecimento, continha a cobiçada medalha-símbolo do
Nobel da Paz de 2025. A seu lado, sorriso também fixo, a líder oposicionista
venezuelana María Corina Machado, sacramentando o inédito revezamento da
honraria que recebera do Instituto Nobel em Oslo no mês passado. Sobre o bolão
de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões) que acompanharam a
outorga do prêmio, nada se ouviu. À época a agraciada o dedicou ao povo
venezuelano,
— Que gesto maravilhoso de respeito mútuo. Obrigado, María — postou Trump, sem corar, no dia seguinte.
Duas semanas antes, ele descartara apoiar a
mesma “María” como futura presidente da Venezuela pós-sequestro de Nicolás
Maduro, porque “ela é uma mulher muito simpática, mas não tem o apoio ou o respeito
dentro do país”. Balela. Trump sabe que o partido da oposicionista proibida de
participar da vida nacional obteve maioria ampla em 2024, e o resultado foi
atropelado por imposição de Maduro. Trump queria dizer, e não disse, que
Machado não conta nem com o apoio, ainda menos com o respeito, das Forças
Armadas forjadas no chavismo, até agora leais a Maduro. Sem esse apoio, os
planos atuais da Casa Branca para a Venezuela sob sua tutela teriam menos
chances de fluir. Preferiu aliar-se à força decapitada da presidente interina
Delcy Rodríguez, militante raiz do regime, com décadas de serviços prestados ao
chavismo. A incongruência é explicável. Trump entende melhor cabeças e regimes
autoritários, por congenialidade. Reserva seu colossal desprezo aos meandros e
complexidades do pensamento democrático, para o qual se sabe despreparado. Mas
é justo na esfera democrática, e só ali, que se consegue um Nobel não fajuto.
María Corina Machado, por seu lado, jogou
pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime
Maduro. Dedicou boa parte de sua vida pública, que incluiu um ano na
clandestinidade, à defesa de liberdades fundamentais. Até revelar-se trumpista
a ponto de aplaudir o golpe de força militar dos Estados Unidos contra seu
país. Também silenciou sobre os bombardeios em série ordenados por Trump contra
embarcações em águas internacionais e compactuou com a versão criada na Casa
Branca de que Maduro era o chefe de uma gangue de narcotraficantes. Dedicou a
Trump a medalhinha de 200 gramas de ouro de 18 quilates “em reconhecimento por
seu compromisso único com nossa liberdade” e nada ganhou em troca. Vida que
segue.
Anos atrás o historiador italiano Carlo
Ginzburg publicou um ensaio sobre a vergonha — coletiva e individual —, já
citado em coluna anterior. Ginzburg sustenta que sabemos a que país pertencemos
não pelo amor que a ele dedicamos, mas pelo sentimento de vergonha que ele é
capaz de gerar em nós. Também esclarece que não sentimos vergonha por opção ou
escolha:
— Ela recai sobre nós, invade nossos corpos,
sentimentos, pensamentos como uma doença súbita.
São muitos os pensadores que diferenciam a
vergonha, como trauma relacional, da culpa, como agência moral. Primo Levi, em
“Os afogados e os sobreviventes”, descreve a vergonha dos sobreviventes de
Auschwitz não por atos cometidos, mas por pertencerem a uma espécie cujos
membros cometeram atos atrozes — uma culpa difusa pela humanidade
compartilhada. Annie Ernaux, em “A vergonha”, explora o conceito como marca
social de classe e falha familiar, um peso público que isola o indivíduo,
enquanto James Baldwin, em “Da próxima vez, o fogo” trata da vergonha como
fardo racial e social imposto ao oprimido.
Quando canalizada em energia transformadora,
ou até mesmo revolucionária, como sustenta o filósofo Frédéric Gros, professor
de pensamento político na Sciences Po de Paris, a vergonha é sinal
inconfundível de nossa responsabilidade em relação ao mundo que habitamos.
Compartilhada, ela serve de tábua de transformação e ação. Quando vivenciada de
forma solitária, é capaz de paralisar personalidades das mais fortes, garante
Gros.
Na cena da medalhinha, nem Donald Trump nem
María Corina Machado parecem alcançáveis por qualquer vergonha. Recai sobre nós
senti-la.

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