domingo, 18 de janeiro de 2026

Vergonha alheia. Por Dorrit Harazim

O Globo

María Corina Machado jogou pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro

Somente um paspalho vaidoso e inseguro em relação à própria estatura pensaria em chantagear alguém para receber um Nobel de segunda mão, resumiu Paul Krugman, ganhador de um Nobel de Economia legítimo em 2008. A cena da semana passada, que teve a Casa Branca por testemunha, é quase o registro histórico de um apogeu — a era do cinismo político agudo, desmesurado, sem vestígio de culpa ou vergonha. Na foto que rodou mundo, vê-se o presidente americano Donald Trump, sorridente, agarrado à imensa moldura dourada que, entre placas de agradecimento, continha a cobiçada medalha-símbolo do Nobel da Paz de 2025. A seu lado, sorriso também fixo, a líder oposicionista venezuelana María Corina Machado, sacramentando o inédito revezamento da honraria que recebera do Instituto Nobel em Oslo no mês passado. Sobre o bolão de 11 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões) que acompanharam a outorga do prêmio, nada se ouviu. À época a agraciada o dedicou ao povo venezuelano,

— Que gesto maravilhoso de respeito mútuo. Obrigado, María — postou Trump, sem corar, no dia seguinte.

Duas semanas antes, ele descartara apoiar a mesma “María” como futura presidente da Venezuela pós-sequestro de Nicolás Maduro, porque “ela é uma mulher muito simpática, mas não tem o apoio ou o respeito dentro do país”. Balela. Trump sabe que o partido da oposicionista proibida de participar da vida nacional obteve maioria ampla em 2024, e o resultado foi atropelado por imposição de Maduro. Trump queria dizer, e não disse, que Machado não conta nem com o apoio, ainda menos com o respeito, das Forças Armadas forjadas no chavismo, até agora leais a Maduro. Sem esse apoio, os planos atuais da Casa Branca para a Venezuela sob sua tutela teriam menos chances de fluir. Preferiu aliar-se à força decapitada da presidente interina Delcy Rodríguez, militante raiz do regime, com décadas de serviços prestados ao chavismo. A incongruência é explicável. Trump entende melhor cabeças e regimes autoritários, por congenialidade. Reserva seu colossal desprezo aos meandros e complexidades do pensamento democrático, para o qual se sabe despreparado. Mas é justo na esfera democrática, e só ali, que se consegue um Nobel não fajuto.

María Corina Machado, por seu lado, jogou pela janela um sólido currículo de combate às práticas ditatoriais do regime Maduro. Dedicou boa parte de sua vida pública, que incluiu um ano na clandestinidade, à defesa de liberdades fundamentais. Até revelar-se trumpista a ponto de aplaudir o golpe de força militar dos Estados Unidos contra seu país. Também silenciou sobre os bombardeios em série ordenados por Trump contra embarcações em águas internacionais e compactuou com a versão criada na Casa Branca de que Maduro era o chefe de uma gangue de narcotraficantes. Dedicou a Trump a medalhinha de 200 gramas de ouro de 18 quilates “em reconhecimento por seu compromisso único com nossa liberdade” e nada ganhou em troca. Vida que segue.

Anos atrás o historiador italiano Carlo Ginzburg publicou um ensaio sobre a vergonha — coletiva e individual —, já citado em coluna anterior. Ginzburg sustenta que sabemos a que país pertencemos não pelo amor que a ele dedicamos, mas pelo sentimento de vergonha que ele é capaz de gerar em nós. Também esclarece que não sentimos vergonha por opção ou escolha:

— Ela recai sobre nós, invade nossos corpos, sentimentos, pensamentos como uma doença súbita.

São muitos os pensadores que diferenciam a vergonha, como trauma relacional, da culpa, como agência moral. Primo Levi, em “Os afogados e os sobreviventes”, descreve a vergonha dos sobreviventes de Auschwitz não por atos cometidos, mas por pertencerem a uma espécie cujos membros cometeram atos atrozes — uma culpa difusa pela humanidade compartilhada. Annie Ernaux, em “A vergonha”, explora o conceito como marca social de classe e falha familiar, um peso público que isola o indivíduo, enquanto James Baldwin, em “Da próxima vez, o fogo” trata da vergonha como fardo racial e social imposto ao oprimido.

Quando canalizada em energia transformadora, ou até mesmo revolucionária, como sustenta o filósofo Frédéric Gros, professor de pensamento político na Sciences Po de Paris, a vergonha é sinal inconfundível de nossa responsabilidade em relação ao mundo que habitamos. Compartilhada, ela serve de tábua de transformação e ação. Quando vivenciada de forma solitária, é capaz de paralisar personalidades das mais fortes, garante Gros.

Na cena da medalhinha, nem Donald Trump nem María Corina Machado parecem alcançáveis por qualquer vergonha. Recai sobre nós senti-la.

 

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