quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A arte de pisar em cascas de banana, por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A folia do presidente e Janja foi um desastre de comunicação contratado e evitável

Mesmo com estrategista, Lula dispensou o cálculo e se entregou ao conforto da adulação

Lula, Janja, Toffoli e Moraes —para ficar em figuras centrais da República no debate público da última semana— provavelmente estão convencidos de que controlam a própria comunicação. Quer dizer, que sabem preservar sua imagem, proteger o próprio capital reputacional, compreender os códigos pelos quais são julgados e evitar as armadilhas narrativas que os adversários produzem. À luz do modo como foram pautados na mídia e na conversação pública, entretanto, não são exemplo de sucesso.

É possível que Toffoli e Moraes considerem que, no fundo, são pouco vulneráveis à opinião pública, já que seus mandatos não dependem do voto. O mesmo cálculo não deveria ser plausível para Lula e Janja, a poucos meses do primeiro turno da próxima eleição presidencial. Nada indica que 2026 não repetirá o padrão dos dois ciclos anteriores: um país literalmente dividido ao meio, em que a vitória dependerá de uma fração mínima de eleitores sem compromisso de lealdade com nenhum dos lados.

Por isso, foi ainda mais surpreendente o episódio em que Lula e Janja incentivaram e desfrutaram do espetáculo de culto à personalidade do presidente no Carnaval do Rio. O erro é ainda mais notável porque Lula dispõe hoje, como estrategista de comunicação, de um dos mais experientes profissionais de comunicação eleitoral do país. De fato, desde que sua comunicação passou aos cuidados de Sidônio Palmeira, este foi o primeiro grande desastre de imagem do casal presidencial.

Uma estratégia de comunicação é coisa séria demais para ser deixada por conta de políticos. Fazer política já é tarefa suficiente; dominar a comunicação exige competências que muitas gerações não adquiriram. Há, aliás, algumas regras elementares que quem atua nesse campo tem em conta, mas que muitas vezes escapam a quem resolve improvisar, embriagado pelos aplausos fáceis.

Primeiro, a política é uma atividade competitiva que frequentemente assume a forma de um jogo de soma zero: o ganho de um é, necessariamente, a perda do outro. Não é como no futebol, em que um gol perdido é apenas um gol não feito; é como no tênis, em que, se o ponto não for seu, será do adversário.

Segundo, o adversário tratará de extrair o máximo proveito de cada vacilo. Pequenos erros serão ampliados; tropeços mais graves serão convertidos em escândalos e apresentados como provas de incompetência ou indignidade.

Terceiro, no mundo digital, nada se perde e nada se esquece. Tudo é registrado, editado, arquivado e permanece disponível, ainda que adormecido, até que alguém o recupere e o devolva à circulação. O passado não desaparece; ele apenas aguarda o momento em que poderá ser reativado para produzir dano político.

Na política contemporânea, cada agente público existe como imagem. Não importa o que pensa de si o presidente ou o ministro do STF, nem o que dizem aqueles que o conhecem, nem mesmo o que ele é de fato. O que realmente importa é a representação predominante sobre ele, formada pela mídia e pelo debate público que atravessa plataformas e aplicativos e acaba alimentando a conversa social mais ampla.

No caso da folia de Lula e Janja, tratou-se de um desastre previsível e contratado. Teve de tudo: a insistência em comparecer a um desfile em homenagem ao presidente em plena pré-campanha eleitoral; a disposição da primeira-dama de desfilar; alegorias que transformaram adversários em vilões e reforçaram antagonismos políticos desnecessários. Não apareceu o Lulinha Paz e Amor nem o Lula da Frente Ampla, mas o Lula de ego inflado e salto alto, tão encantado com o afago à própria autoestima que não percebeu que pisava na ponta dos pés de grupos de cujo apoio desesperadamente precisa.

Se representantes da escola não tivessem sido recebidos no Planalto, se Janja e ministros não tivessem visitado a agremiação em aeronaves oficiais, se Lula não tivesse comparecido ao desfile em sua homenagem, apesar dos conselhos em contrário, o roteiro poderia ter sido lido como criação autônoma do carnavalesco. Não foi assim. Sua presença foi interpretada como endosso; o desfile, como propaganda; as alegorias irreverentes e afrontosas, tão normais no Carnaval, como um tapa na cara dos conservadores deliberadamente desferido pelo próprio Lula.

Mais uma vez, Lula atravessou a rua para pisar em uma casca de banana. Não escorregou por falta de estratégia ou de conselho, mas porque ele e Janja acreditaram que sua própria intuição bastaria —que poderiam, por uma noite, dispensar o cálculo, ignorar os riscos e entregar-se ao conforto da adulação.

 

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