Folha de S. Paulo
A folia do presidente e Janja foi um desastre
de comunicação contratado e evitável
Mesmo com estrategista, Lula dispensou o
cálculo e se entregou ao conforto da adulação
Lula, Janja, Toffoli e Moraes —para ficar em figuras centrais da República no debate público da última semana— provavelmente estão convencidos de que controlam a própria comunicação. Quer dizer, que sabem preservar sua imagem, proteger o próprio capital reputacional, compreender os códigos pelos quais são julgados e evitar as armadilhas narrativas que os adversários produzem. À luz do modo como foram pautados na mídia e na conversação pública, entretanto, não são exemplo de sucesso.
É possível que Toffoli e Moraes considerem
que, no fundo, são pouco vulneráveis à opinião pública, já que seus mandatos
não dependem do voto. O mesmo cálculo não deveria ser plausível para Lula e
Janja, a poucos meses do primeiro turno da próxima eleição presidencial. Nada
indica que 2026 não repetirá o padrão dos dois ciclos anteriores: um país
literalmente dividido ao meio, em que a vitória dependerá de uma fração mínima
de eleitores sem compromisso de lealdade com nenhum dos lados.
Por isso, foi ainda mais surpreendente o
episódio em que Lula e Janja incentivaram e desfrutaram do espetáculo de culto
à personalidade do presidente no Carnaval do
Rio. O erro é ainda mais notável porque Lula dispõe hoje, como estrategista de
comunicação, de um dos mais experientes profissionais de comunicação eleitoral
do país. De fato, desde que sua comunicação passou aos cuidados de Sidônio
Palmeira, este foi o primeiro grande desastre de imagem do casal presidencial.
Uma estratégia de comunicação é coisa séria
demais para ser deixada por conta de políticos. Fazer política já é tarefa
suficiente; dominar a comunicação exige competências que muitas gerações não
adquiriram. Há, aliás, algumas regras elementares que quem atua nesse campo tem
em conta, mas que muitas vezes escapam a quem resolve improvisar, embriagado
pelos aplausos fáceis.
Primeiro, a política é uma atividade
competitiva que frequentemente assume a forma de um jogo de soma zero: o ganho
de um é, necessariamente, a perda do outro. Não é como no futebol, em que um
gol perdido é apenas um gol não feito; é como no tênis, em que, se o ponto não
for seu, será do adversário.
Segundo, o adversário tratará de extrair o
máximo proveito de cada vacilo. Pequenos erros serão ampliados; tropeços mais
graves serão convertidos em escândalos e apresentados como provas de
incompetência ou indignidade.
Terceiro, no mundo digital, nada se perde e
nada se esquece. Tudo é registrado, editado, arquivado e permanece disponível,
ainda que adormecido, até que alguém o recupere e o devolva à circulação. O
passado não desaparece; ele apenas aguarda o momento em que poderá ser
reativado para produzir dano político.
Na política contemporânea, cada agente
público existe como imagem. Não importa o que pensa de si o presidente ou o
ministro do STF, nem o que dizem aqueles que o conhecem, nem mesmo o que ele é
de fato. O que realmente importa é a representação predominante sobre ele,
formada pela mídia e pelo debate público que atravessa plataformas e
aplicativos e acaba alimentando a conversa social mais ampla.
No caso da folia de Lula e Janja, tratou-se
de um desastre previsível e contratado. Teve de tudo: a insistência em
comparecer a um desfile em homenagem ao presidente em plena pré-campanha
eleitoral; a disposição da primeira-dama de desfilar; alegorias que
transformaram adversários em vilões e reforçaram antagonismos políticos
desnecessários. Não apareceu o Lulinha Paz e Amor nem o Lula da Frente Ampla,
mas o Lula de ego inflado e salto alto, tão encantado com o afago à própria
autoestima que não percebeu que pisava na ponta dos pés de grupos de cujo apoio
desesperadamente precisa.
Se representantes da escola não tivessem sido
recebidos no Planalto, se Janja e ministros não tivessem visitado a agremiação
em aeronaves oficiais, se Lula não tivesse comparecido ao desfile em sua
homenagem, apesar dos conselhos em contrário, o roteiro poderia ter sido lido
como criação autônoma do carnavalesco. Não foi assim. Sua presença foi
interpretada como endosso; o desfile, como propaganda; as alegorias
irreverentes e afrontosas, tão normais no Carnaval, como um tapa na cara dos
conservadores deliberadamente desferido pelo próprio Lula.
Mais uma vez, Lula atravessou a rua para
pisar em uma casca de banana. Não escorregou por falta de estratégia ou de
conselho, mas porque ele e Janja acreditaram que sua própria intuição bastaria
—que poderiam, por uma noite, dispensar o cálculo, ignorar os riscos e
entregar-se ao conforto da adulação.

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