quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A meia furada e a orgia do Master, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Presidente da CVM diz no Senado que banco superavaliava ativos com ajuda de cúmplices

Fundos secretos, de laranjas e empresários amigos, facilitavam a fraude

Banco Master não existia. Era um zumbi podre que seria comprado pelo BRB, o banco estatal do Distrito Federal, o final de um crime perfeito: ganhar dinheiro com a desova de um cadáver no colo do que, no fim das contas, é o governo, o público em geral. Basicamente, era um esquema para pegar dinheiro emprestado, que sabia não ter como pagar, e sumir com o tutu.

Provas e indícios desse esquema aparecem faz meses. Só piora. Nesta terça, João Accioly, o presidente interino da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), disse no Senado que haveres do Master eram "meia furada" que diziam valer "R$ 500 milhões" em fundos misteriosos. Era, claro, metáfora.

Accioly estava afirmando de modo derrisório que os haveres do Master em fundos eram superestimados. Note-se que quase um terço dos ativos declarados do banco estavam em fundos. Ou, pior, que bilhões em créditos do Master eram ficção, não existiam, segundo denúncia do Banco Central para o Ministério Público e indícios recolhidos pela Polícia Federal. Créditos: empréstimos que teriam sido feitos, dinheiro a receber no futuro, um ativo de banco.

Os ativos do Master que não moravam totalmente no mundo da fantasia, como precatórios, eram superavaliados. No mínimo, eram "pouco líquidos": isto é, dificilmente conversíveis em dinheiro pelo valor de face, em tempo curto o bastante.

Nas palavras de Accioly: "Não são os gestores que estão dizendo para ele que a meia furada que ele botou no ativo do fundo vale R$ 500 milhões. Ele [Master] foi, em larga medida, ao que tudo tem indicado, o promotor ativo desses superdimensionamentos dos ativos dos fundos em que ele investiu". Ou: "Porque o prejudicado, considerando o Master como cotista, não foi uma vítima de fraude, na qual os gestores o enganaram ... foi, em larga medida, promotor ativo do superdimensionamento".

Além do mais, Accioly disse que havia "alinhamento perverso de incentivos entre os gestores e os investidores para manter essa ficção contábil" —estavam mancomunados.

Grosso modo, seria um esquema de pegar dinheiro emprestado (por meio de CDBs) à vontade, com garantia exagerada de FGC, e a depender da credulidade do freguês, com base na ficção de que teria ativos para pagar essa conta. Não tinha. O dinheiro dos CDBs escorreu para fundos de propriedade misteriosa e empresas de fachada, entre outras mumunhas ainda pouco esclarecidas. Quem ficou com o dinheiro? Parte da conta ficou com o FGC, mais de R$ 50 bilhões, dinheiro recolhido pelos bancos, mas custo repassado a clientes.

Quem era dono ou sócio desses fundos? Não se sabe, por causa de segredo, caso dos fundos exclusivos, e porque havia laranjas e mais empresários ajudando a esconder a bandalheira. Porque fundos eram donos de fundos, escondendo donos, movimentações e valorização fantasista dos haveres desses fundos.

Como disse o senador Eduardo Braga (MDB-AM), sobre o Master e imundícies como a da Americanas: "Uma orgia no mercado financeiro e no mercado bancário brasileiro que precisa acabar". Acabaria com "...novas legislações que imponham mais transparência, mais rigor na fiscalização". E também investigando parlamentares e governadores que participaram da bacanal, né, senador?

Quem mandou o BRB comprar o Master? Que parlamentar fazia projeto para o Master poder pegar mais dinheiro emprestado e fugir com ele? Que governador ou senador mandava fundo de previdência investir no Master?

 

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