segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A favela sonha, o Brasil não apoia, por Preto Zezé

O Globo

Falta coragem política para reconhecer que a desigualdade no país não é um acidente histórico, mas um projeto

Os dados da pesquisa Sonhos da Favela 2026, do Data Favela, desmontam uma das narrativas mais convenientes do país: a ideia de que a favela não tem projeto de futuro. Tem, sim. Ele é claro, objetivo e profundamente democrático.

A favela sonha com casa digna, saúde que funcione, escola capaz de preparar os filhos para a vida, renda estável e o direito básico de circular sem medo. Não há fantasia de luxo nem consumo desenfreado. O desejo é por estabilidade, normalidade, uma vida possível dentro das regras do jogo. O problema é que esses sonhos não encontram sustentação nas estruturas do Brasil.

Mais de seis em cada dez moradores de favela não têm renda fixa. Ainda assim, a vida acontece. O “corre” não é improviso, é método de sobrevivência. A favela aprendeu a funcionar apesar do Estado, não em parceria com ele. Quando tantos dizem querer organizar a vida financeira ou limpar o nome, o que aparece não é irresponsabilidade, mas maturidade econômica sem acesso aos instrumentos necessários.

A distância entre aspiração e política pública é evidente. A educação aparece como principal caminho de ascensão social, mas a infraestrutura educacional segue avaliada como regular ou ruim. A internet, condição básica para estudo e trabalho, ainda é instável para milhões. Esporte, cultura e lazer continuam escassos, apesar de seu papel central na formação, no pertencimento e na prevenção da violência. O discurso da meritocracia segue firme, mas o ponto de partida permanece desigual.

Na segurança pública, o abismo é ainda mais sensível. A favela não pede mais repressão. Pede respeito. A maioria dos moradores não confia na polícia para protegê-los, e uma parcela expressiva não confia em nenhuma instituição do Estado. O sonho não é a violência legitimada, é poder andar na própria rua com tranquilidade. Isso deveria incomodar qualquer democracia que se leve a sério.

Quando o recorte é de gênero, a realidade se aprofunda. Violência doméstica, feminicídio e dificuldade de acesso a emprego e renda aparecem como desafios centrais. A favela é sustentada, em grande parte, por mulheres, muitas mães solo, que mantêm famílias inteiras com pouco ou nenhum apoio institucional. Ignorar esse dado é condenar qualquer política pública ao fracasso.

O crescimento do sonho de empreender, que já supera o desejo pelo concurso público, não é romantização do empreendedorismo. É resposta prática à ausência de emprego formal, de proteção social e de presença consistente do Estado. Empreender, na favela, raramente é escolha ideal. É necessidade.

A conclusão é simples e incômoda. A favela sabe aonde quer chegar. O Brasil é que ainda não decidiu se quer caminhar junto. Não faltam dados, diagnósticos ou alertas. Falta coragem política para reconhecer que a desigualdade no país não é um acidente histórico, mas um projeto que se renova sempre que o Estado se ausenta, quando políticas são desenhadas sem escuta e quando a favela é tratada como problema, e não como parte da solução.

A favela sonha. O Brasil precisa parar de atrapalhar e começar, de fato, a apoiar.

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