Folha de S. Paulo
No passado, pela bravura e correção, um indivíduo
conseguia se impor a uma maioria hostil
Hoje, um ferrabrás eleito democraticamente se
impõe pelo poder e hostiliza e esmaga a maioria
Em "Doze Homens e uma Sentença" (1957), filme de Sidney Lumet, um jurado (Henry Fonda) consegue reverter a decisão de seus dez colegas dispostos a condenar um jovem acusado de matar o pai. Fonda, o jurado nº 8, não está convencido da culpa do rapaz e apresenta objeções que vão dobrando, uma a uma, a certeza de cada um. No fim, todos votam pela absolvição do garoto. São 95 minutos num cenário único, a sala de reunião do júri, e uma esgrima de diálogos em busca da verdade e da justiça.
Em "Matar ou Morrer" (1952), de
Fred Zinnemann, um xerife (Will Kane, interpretado por Gary Cooper) é avisado
pelo telégrafo de que um assassino que ele prendeu anos antes foi posto em
liberdade e cavalga rumo à cidade, com mais três pistoleiros, para se vingar.
Serão quatro contra um. Kane, a quem a cidade devia a paz em que vivia, pede
ajuda aos cidadãos e todos têm motivo para recusar. Deixado sozinho, ele encara
e mata os quatro (um deles, com a ajuda de sua noiva quaker Grace Kelly),
Quando a cidade vai festejá-lo, Kane tira a estrelinha do colete, atira-a ao
chão e vai embora.
Em "O Vento Será Tua Herança"
(1960), de Stanley Kramer, um advogado (Spencer Tracy) enfrenta uma cidadezinha
maciçamente evangélica e criacionista decidida a silenciar um jovem
professor adepto da
ciência e do evolucionismo. O filme mostra o julgamento, um duelo de
argumentos entre Tracy e outro poderoso advogado (Fredric March) sobre Darwin e
a Bíblia —o darwinismo era então crime no estado. O professor acaba condenado,
mas a uma multa ridícula, que não o impedirá de lecionar.
Eram esses os EUA que, apesar de todas as
sujeiras em política internacional, éramos levados a admirar. O país em que,
pela bravura e correção, um indivíduo conseguia se impor a uma maioria hostil.
Hoje é o contrário: um ferrabrás se impõe pelo poder e hostiliza e esmaga a
maioria. Donald Trump parece
estar declarando guerra aos próprios EUA.
E os americanos já não têm um Henry Fonda, um
Gary Cooper e um Spencer Tracy que os defendam.

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