domingo, 1 de fevereiro de 2026

O vinho do senhor e o bordeaux. Por Ivan Alves Filho

“É preciso estar sempre bêbado”, vaticinou certa vez o poeta Baudelaire. Mas nada de precipitações, pois o autor de As flores do mal, que muitos consideram o maior livro de poesia moderna da França, acrescentou imediatamente: “De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis”.  

Caso opte por ficar bêbado pelo vinho – o que pode conter, vá lá, a sua dose de poesia, ainda que não implique forçosamente atitude virtuosa – deve o leitor fazê-lo com o máximo de prazer possível. E isso não é muito difícil em se tratando de vinho, a bebida predileta dos deuses, segundo alguns, e também de meros mortais, como os franceses, italianos, espanhóis, portugueses, gregos e afins.

A popularidade do vinho era tamanha na França que mesmo o regulamento de São Bento de Núrcia, que organizava a dura vida monástica do Ocidente no século VI, permitia que os monges ingerissem, diariamente, um quarto de litro de vinho.

Nada substitui um bom petit vin camponês, desses que se adquire diretamente do pequeno produtor, nos numerosíssimos vilarejos vinícolas da França e da Itália. Porém, é preciso reconhecer também que existem excelentes vinhos comerciais nesses países, a preços bem razoáveis. No caso das marcas mais conhecidas da França, como bordeaux, beaujolais e bourgogne, há quem aconselhe a não privilegiar, na hora da compra, as garrafas de vinho que trazem gravada a palavra négociant no invólucro de papel laminado que cobre a rolha. Isso significa que o produtor não é diretamente responsável pela colocação do vinho no mercado, a cargo do négociant ou comerciante, justamente. Manipulado por várias pessoas, o vinho corre mais riscos de adulteração do seu sabor original. O melhor é verificar se está marcado producteur no alto da rolha – sempre uma garantia a mais, só isso. E aqui vai um lembrete: essa prática de classificação do vinho remonta ao Egito antigo, onde os recipientes da bebida traziam dados como local e ano da colheita, além do nome do vinicultor. Ramsés e companhia não tinham muito do que se queixar nessa vida, convenhamos.  

No mais, saúde. Afinal, Cristo, que era Cristo, transformou água em vinho – e não o contrário. E para quem tem lá suas dúvidas sobre esta transformação, há quem garanta que pelo menos em Paris o milagre de fato se concretizou: na Rue des Eaux, isto é, Rua das Águas, fica o Museu do Vinho. Se o leitor, um bom discípulo de São Tomé, quiser constatar isso de perto, pode visitar o local, com direito a degustação a preços módicos. É ver para crer. Ou mais agradável até: beber. Mas, nada de abusos – um dos provérbios da Bíblia aconselha: "o vinho é zombador, e a bebida forte provoca brigas; ninguém que se deixa dominar por eles é sábio”.

Devo dizer ainda que, quando Dionísio decidiu ensinar a técnica de fabricação de vinho a Deucalião, na velha Grécia, ele jamais poderia imaginar o bem que estaria me proporcionando, muitos séculos, mas muitos séculos depois mesmo.

Melhor explicar logo. Durante meu tempo de dureza na França, no início da década de 70, trabalhei um período como engarrafador de vinho, na bonita Gare de Austerlitz. Eu descarregava tonéis de 600 litros de bordeaux de enormes caminhões encostados desde a madrugada à saída da mais famosa estação de trens de Paris. Trabalhava comigo Djalma Ferreira, grande companheiro e filho do célebre compositor e instrumentista da Bossa Nova Djalma Neves Ferreira.

Um vinho já conhecido dos gauleses e romanos, o bordeaux parecia confirmar a máxima de Lope de la Vega de que “só duas coisas melhoram com o tempo: o vinho e uma amante”. Detalhe: Lope de la Vega, além de apreciador de bons vinhos e excepcional escritor, era padre. Ao que tudo indica, Lope de la Vega deixara a ortodoxia de lado. Embriagou-se de vida, pelo visto.

Estive duas vezes em Bordeaux ou Bordéus, a Burdigala dos romanos, um reduto aristocrático, antigo porto de entrada de escravos africanos na França. Como sempre me submeto aos hábitos locais, seguindo os ensinamentos do filósofo Michel de Montaigne, não pude deixar de provar algumas boas taças de bordeaux. Não convém contrariar os sábios. Acredito que com esse gesto eu tenha contribuído, se bem que modestamente, para estreitar ainda mais os laços tradicionais que nos unem à França. Em tempo; Montaigne, também um homem de ação, presidiu por quatro anos a Câmara de Bordéus. Sua mãe seria descendente de portugueses de fé judaica, daí o interesse do pensador por tudo que se passava no Brasil, em particular no tocante ao mundo dos índios. Outro pensador, Montesquieu, o autor da obra Do espírito das leis, que propõe a separação dos poderes do Estado, era um ardoroso produtor de vinho em Brède, na Nova-Aquitânia. Certamente o vinho manteve seu espírito sempre alerta, fazendo com que se interessasse por tudo que dizia respeito à qualidade de suas cepas e, também, à sua comercialização com países como a Inglaterra. A vida é bela, decididamente, e, com vinho, mais ainda.

Voltando ao assunto principal. A nosso favor, tínhamos o fato de o bordeaux existir desde o século I antes de Cristo. Um vinho com toda essa idade merece a máxima consideração. Eu fazia um trabalho duro e até mesmo um pouco arriscado na Gare de Austerlitz. Mas havia uma compensação: cada ouvrier ou operário podia tomar pelo menos uma garrafa de excelente bordeaux por refeição, fora umas provinhas eventuais, que ninguém era mesmo de ferro. E muito menos Djalma e eu, garanto.

Difícil trabalhar sóbrio, já se pode imaginar. Era quase impossível manter a linha. Tinha dias de a turma sair de lá catando corrimão no vento, como se diz por aí. De imediato, esquecemos que Bordéus fora o principal porto escravista da França. Éramos só simpatia para com a cidade. Só enxergávamos – se é que este é o termo exato – o seu maravilhoso vinho, àquela altura. Alguns trabalhadores deixaram a estação mais parecendo uma garrafa ambulante de bordeaux. A perfeição ainda não foi constatada por ninguém e isso é realmente lamentável.

Não fosse pelo horário e alguns riscos físicos (a labuta começava às 5h30min e terminava às 14h), eu diria que era realmente um trabalho que todo mundo pediria a Deus. Ou a Baco, possivelmente. Engarrafar o vinho nosso de cada dia – estou cada vez mais convencido disso – é a única maneira de a classe operária ir para o Paraíso. Eu pelo menos fui. 

Ainda que, na velha Grécia, segundo Homero, o vinho não era uma bebida dos Deuses e, sim, dos pobres mortais como nós. 

*Ivan Alves Filho, historiador 

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