Folha de S. Paulo
Depois de apanhar como ministro, o petista é
bajulado como salvador da lavoura do partido em São Paulo
Se aceitar ser candidato, precisará deixar a
má vontade de lado; do contrário, será difícil entusiasmar o eleitorado
Foi revelador da urgência do PT em ter
candidaturas fortes nos estados assistir ao chamado da ministra Gleisi
Hoffmann para que todos vistam
a camisa do partido na eleição de outubro. Em particular, Fernando
Haddad, segundo ela qualificado para encarar o desafio em São Paulo.
Mais sintomático foi ver o sorriso de banda do ministro da Fazenda ao ser instado a comentar a declaração. "Comemoro ser elogiado por Gleisi", disse, para em seguida se desvencilhar dos microfones e entrar na portaria do ministério, deixando no ar a ironia.
A cena aconteceu na quinta-feira (29) e deu a
Haddad a chance de revidar as críticas que a então presidente do PT fazia a ele
antes de assumir a pasta da articulação política. Na mais ácida delas, Gleisi
qualificou a política conduzida pelo ministro como "austericídio
fiscal".
A pregação por mudança de rumo significava
que Fernando Haddad traía as ideias do partido. Portanto, natural que ele se
questione se compensa atender ao apelo de quem o considerou um traidor. Pois
então, não servia para comandar a economia, mas serve para defender as
bandeiras do petismo naquela que deve ser a mais difícil das disputas estaduais
de 2026?
A situação impõe um dilema ao ministro já em
ritual de despedida do cargo. Sofre pressão poderosa para se engajar na luta
mesmo contra vontade, mas se não ceder pode ser responsabilizado por não ter
contribuído para ajudar a
campanha de Lula no maior colégio eleitoral do país.
Numa eleição apertada como a que se
desenha, uma boa votação em São Paulo pode fazer a diferença entre o
êxito e o fracasso. A despeito de haver razões adicionais para a hesitação, ele
pode não querer correr o risco de incluir no currículo a quarta derrota em dez
anos.
Mas, se resolver arriscar —inclusive porque
eleição não se decide de véspera—, Haddad vai precisar deixar o desagrado de
lado. Desanimado e indo ao pleito forçado, não conseguirá convencer o
eleitorado de que, mais uma vez, vale a pena tentar.

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