domingo, 1 de fevereiro de 2026

Haddad revida com ironia antigas críticas do PT. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Depois de apanhar como ministro, o petista é bajulado como salvador da lavoura do partido em São Paulo

Se aceitar ser candidato, precisará deixar a má vontade de lado; do contrário, será difícil entusiasmar o eleitorado

Foi revelador da urgência do PT em ter candidaturas fortes nos estados assistir ao chamado da ministra Gleisi Hoffmann para que todos vistam a camisa do partido na eleição de outubro. Em particular, Fernando Haddad, segundo ela qualificado para encarar o desafio em São Paulo.

Mais sintomático foi ver o sorriso de banda do ministro da Fazenda ao ser instado a comentar a declaração. "Comemoro ser elogiado por Gleisi", disse, para em seguida se desvencilhar dos microfones e entrar na portaria do ministério, deixando no ar a ironia.

A cena aconteceu na quinta-feira (29) e deu a Haddad a chance de revidar as críticas que a então presidente do PT fazia a ele antes de assumir a pasta da articulação política. Na mais ácida delas, Gleisi qualificou a política conduzida pelo ministro como "austericídio fiscal".

A pregação por mudança de rumo significava que Fernando Haddad traía as ideias do partido. Portanto, natural que ele se questione se compensa atender ao apelo de quem o considerou um traidor. Pois então, não servia para comandar a economia, mas serve para defender as bandeiras do petismo naquela que deve ser a mais difícil das disputas estaduais de 2026?

A situação impõe um dilema ao ministro já em ritual de despedida do cargo. Sofre pressão poderosa para se engajar na luta mesmo contra vontade, mas se não ceder pode ser responsabilizado por não ter contribuído para ajudar a campanha de Lula no maior colégio eleitoral do país.

Numa eleição apertada como a que se desenha, uma boa votação em São Paulo pode fazer a diferença entre o êxito e o fracasso. A despeito de haver razões adicionais para a hesitação, ele pode não querer correr o risco de incluir no currículo a quarta derrota em dez anos.

Mas, se resolver arriscar —inclusive porque eleição não se decide de véspera—, Haddad vai precisar deixar o desagrado de lado. Desanimado e indo ao pleito forçado, não conseguirá convencer o eleitorado de que, mais uma vez, vale a pena tentar.

 

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