Folha de S. Paulo
É com o esforço de ministros que o Supremo
vem demolindo seu patrimônio de confiança junto à população
A recuperação é obra que leva tempo, requer
autocrítica e, sobretudo, grau elevado de espírito público
O Supremo Tribunal Federal não veio parar
onde está de repente, por acaso ou sem o esforço de seus integrantes. Foi
um trabalho
meticuloso ao longo dos últimos anos de corrosão de um dos
preceitos constitucionais que norteiam a administração pública: a
impessoalidade.
Ministros adotaram atitudes de estrelas e, em alguns casos, com um traço de empáfia mais comum nas subcelebridades que nos astros de verdade. Atrairiam apenas antipatia se não ultrapassassem outros mandamentos daquele definidor artigo 37 da Constituição de 1988 que exige do servidor respeito à legalidade, à moralidade, à publicidade e à eficiência.
Os casos de nariz arrebitado, língua afiada e
circulação indevida em convescotes
jurídico-festivos pelo mundo não precisam ser revisitados, pois
estão inscritos no passivo da corte. Além disso, o problema já não é desse ou
daquele ministro, é da instituição Supremo Tribunal Federal, representação
máxima do Judiciário.
Executivo e Legislativo são frequentadores
habituais do noticiário sobre eventos negativos, mas as malfeitorias cometidas
por seus integrantes têm a Justiça como instância de correção. É a ela que se
recorre e é nela que a sociedade deposita sua confiança.
Ou melhor, depositava até que o STF começasse
a erodir esse capital sem dar atenção aos alertas. Um país desconfiado da
Justiça é um país que não confia no porto seguro da legalidade.
Para dar um jeito nisso não bastam um código de
ética ou ações pontuais como as cruzadas do ministro Flávio Dino contra
o uso indevido de emendas
parlamentares e as transgressões
ao teto salarial do funcionalismo. São boas causas, mas, no caso
dos penduricalhos,
tardia.
Não foi de repente, por acaso ou sem a
conivência dos juízes que determinados salários chegaram ao grau superlativo de
hoje e que as distorções de pagamentos indevidos fossem mais escandalosas no
Judiciário.
Recuperação de confiança é obra que leva
tempo, requer esforço, autocrítica e, sobretudo, espírito público. Passou da
hora de começar.

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