O Globo
Mantega e Lewandowski, estrategistas de
Vorcaro
O Planalto tem feito o possível para se
afastar do escândalo do Banco Master. Como bem lembra o ministro Fernando
Haddad, em 2024, quando Lula recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro (fora da
agenda) as malfeitorias eram apenas murmuradas.
Vorcaro foi levado a Lula pelo ex-ministro Guido Mantega. Até aí, o doutor é amigo do banqueiro e levou-o ao chefe. Lula acautelou-se, chamando Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central, e mais duas testemunhas.
Fora do governo, Mantega borboleteia por
Brasília. Lula tentou colocá-lo numa diretoria da Vale, mas ambos
contentaram-se com uma vaga no conselho da Eletrobras (R$ 12,6 mil mensais). No
banco Master, Mantega exercia a função de “consultor estratégico”. Seu salário
teria chegado a R$ 1 milhão por mês, durante 18 meses. A última gestão pública
de Mantega foi a tentativa fracassada de detonar a candidatura de Ilan Goldfajn
à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Outro estrategista de Vorcaro foi o
ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski. Ele ligou-se ao banqueiro em agosto de
2023 e seu contrato rendeu R$ 6,5 milhões por 12 meses de consultoria. Quando o
contrato de Lewandowski foi para a luz do Sol, esse precioso detergente, a
charanga palaciana apressou-se a esclarecer: ministro aposentado do STF,
Lewandowski afastou-se da consultoria de Vorcaro ao assumir o Ministério da
Justiça. Beleza, e quem ficou com o contrato? O filho e a mulher de
Lewandowski, cuidando de assuntos tributários.
A repórter Malu Gaspar estimou o valor da hora
cobrada a Vorcaro. Depois da saída do ministro da Justiça, sua parentela cobrou
R$ 5 milhões a Vorcaro. Os tributaristas de renome cobram pelo tempo dedicado
ao cliente, cerca de R$ 2.500/hora. Sua conclusão: “O contrato do Master com o
filho do ministro pagaria o equivalente a 100 horas/homem por mês — ou 4,5
horas de trabalho por dia, em todos os dias úteis do mês”.
Com estrategistas desse calibre, Vorcaro não
precisava de inimigos.
A sinuca de Vorcaro
Ninguém pode prever se Daniel Vorcaro
colaborará com as investigações, mas uma coisa é certa, do jeito que vão as
coisas, a culpa sobrará para ele, e só para ele.
Lula e Roosevelt
Lula não tem sorte quando faz paralelos
históricos. Outro dia ele foi ao Panamá e disse o seguinte:
“O presidente Franklin Roosevelt implementou
uma política de boa vizinhança que tinha como objetivo substituir a intervenção
militar pela diplomacia em sua política externa para a América Latina e
Caribe”.
Roosevelt preferia as gestões diplomáticas.
Mas quando elas não bastavam sabia usar a força.
No caso da entrada do Brasil na Segunda
Guerra, ele levou a diplomacia ao seu limite e bastou, mas em 1941 os Estados
Unidos estavam preparados para ocupar o Saliente Nordestino. Afinal, o caminho
mais curto e seguro para que os aviões americanos atravessassem o Atlântico,
precisavam de uma pista que ligasse o Rio Grande do Norte à África.
Em março de 1945, com a guerra já decidida,
Roosevelt “esperava que o general Vargas fosse reeleito presidente, mas que não
ia procurar dar uma mão, por medo de prejudicar mais do que ajudar”.
À época, os admiradores de Vargas (que nunca
foi general) criaram o mito segundo o qual o ditador foi derrubado pelo
embaixador americano. O economista Adolfo Berle.
Segundo turno
Flávio Bolsonaro está convencido de que irá
para o segundo turno com Lula.
Depois do carnaval ele começará a calibrar os
faróis.
Lula e suas surpresas
Em 2022, Lula surpreendeu a política nacional
colocando Geraldo Alckmin na sua chapa. Afinal, em 2006 ele havia disputado a
Presidência contra Lula.
Os sinais de fumaça vindos da taba de Lula
sugerem que ele prepara uma nova surpresa. A vice continuará com Alckmin, mas a
surpresa virá antes do segundo turno.
Desta vez, a novidade passará pelo cacique
Gilberto Kassab.
A China e Trump
Enquanto Donald Trump aterroriza os
estrangeiros, a China anunciou que não pedirá vistos para visitantes por um
período máximo de 30 dias.
A China deixou de ser a nação mais fechada do
mundo, e os Estados Unidos deixaram de ser o país mais aberto do mundo.
Erro
No domingo passado, tratando da quebra do
banco Nacional, em 1995, mencionou-se “um de seus diretores, José Luiz de
Magalhães Lins (1929-2023), foi um arquivo vivo do poder em Pindorama”.
José Luiz havia sido a alma da fase de
esplendor do Nacional, mas deixou o banco em 1972. Ele nada teve a ver com a
quebra do Nacional, muito menos com as malfeitorias lá praticadas.
Zé Luiz, como era conhecido, inovou as
práticas do mercado, emprestando dinheiro para artistas com muitas ideias e
pouco crédito, de Grande Otelo a Glauber Rocha. Se Deus é brasileiro, alguém
escreverá sua biografia.
Agia na sombra e era mais conhecido por suas
manias.
Crise do capitalismo
Num sinal de que algo está acontecendo com o
capitalismo, a Saks Global, controladora das lojas de departamento Saks Fifth
Avenue, Bergdorf Goodman e Neiman Marcus, foi à garra.
As três atendiam uma clientela que cobria
aquela parte da humanidade que vai às compras disposta a torrar mil dólares
numa tarde.
A Bergdorf é chique e a Saks é um templo do
consumo. As causas do declínio podem ter várias explicações, mas um sinal é
indiscutível: uma holding controlando empresas tão diferentes é uma aposta no
fracasso.
A Saks encantou o mundo colocando aquecedores
debaixo de suas calçadas.
Nenhuma das três teve o charme da Tiffany nem
Audrey Hepburn contemplando sua vitrine. Ela hoje é parte do conglomerado Louis
Vuitton. No século XIX, quando os vidros de Charles Tiffany eram o sonho do
consumo dos ricaços, Louis Vuitton era um talentoso maleiro francês, encarregado
de arrumar as roupas da mulher de Napoleão III nas bagagens imperiais.
Hoje, a marca Louis Vuitton é controlada por outro conglomerado.

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