O Estado de S. Paulo
Presidente e equipe certamente percebem a importância de um cuidado especial, nesta fase, com o crescimento, o emprego e a alta dos preços, um risco quase permanente no Brasil
Acorrida eleitoral começa com mercado de trabalho forte, inflação contida, juros elevados, perspectiva de crescimento medíocre e muita incerteza quanto ao controle dos gastos públicos. Com boa produção, a oferta de alimentos deve continuar satisfatória, mantendo preços moderados e deixando às famílias alguma folga para outros gastos. Mas o ano apenas começou, há uma grande insegurança internacional, reforçada pela retórica trumpista, e o quadro brasileiro poderá piorar se o governo cometer imprudências em busca de votos.
A economia nacional cresceu cerca de 2,5% no
ano passado, segundo estimativa do Banco Central (BC). O quadro inclui expansão
de 13,1% na agropecuária, 1,5% na indústria e 2,1% nos serviços. Esses dados
compõem, na linguagem do mercado financeiro, a “prévia do PIB”. Os números do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicadores principais
da atividade econômica, devem sair em 3 de março.
A economia deve crescer 1,80% neste ano, segundo
a mediana das projeções do mercado, incluída no boletim Focus divulgado depois
do carnaval. Também segundo o boletim, a inflação poderá recuar de 4,26%, em
2025, para 3,95%, em 2026. O dólar estará custando R$ 5,50 em dezembro e a taxa
básica de juros, a Selic, baixará dos atuais 15% para 12,25% e chegará a 10,50%
nos 12 meses seguintes.
Para justificar juros tão altos, bem acima
dos padrões internacionais, dirigentes do BC mencionam principalmente a
insegurança sobre as contas públicas. Quanto ao governo, tenta explicar o
excesso de gastos com a desculpa de promover um crescimento inclusivo e
indispensável a um país como o Brasil. Um eventual superávit será insuficiente
para eliminar as preocupações quanto ao resultado nos anos seguintes e ao
endividamento da União.
Essas incertezas proporcionam um sólido
suporte a juros elevados. Além de prejudicar empresas, consumidores e todo o
sistema de serviços públicos, o crédito caro dificulta o investimento
produtivo, freia o crescimento da atividade e encarece continuamente a dívida
pública. Em países com tradição de maior controle das contas públicas, déficits
moderados podem facilitar a expansão econômica e a ampliação do emprego sem
motivar insegurança.
Não é esse, por enquanto, o caso do Brasil.
Juros altos podem atrair capitais especulativos, como tem ocorrido há alguns
anos, mas investimentos financeiros desse tipo são pouco úteis – senão mesmo
inúteis – para o avanço econômico. Ao anunciar para março um corte da taxa
básica, os condutores da política monetária foram cautelosos quanto aos passos
seguintes. Um abrandamento maior de sua política dependerá de uma clara
reorientação da política fiscal, isto é, de um compromisso crível de contenção
dos gastos federais.
Arrumação das contas federais por meio de
maior tributação seria uma péssima saída, mesmo se os novos encargos afetassem
somente os contribuintes mais abonados. Se o governo estiver, de fato,
interessado em promover a justiça tributária, o melhor caminho será discutir o
assunto de modo mais claro, mais amplo e como parte de uma revisão do sistema.
Mudanças de improviso na tributação podem ser defensáveis em momentos de grave
crise, mas como soluções sujeitas a revisão ou mesmo suspensão. Tratar com
leviandade o sistema tributário pode ser muito perigoso, como já foi comprovado
no País por mais de uma experiência.
Projetos de mudança tributária podem valer
boas discussões numa disputa eleitoral, mas nenhum debate sério, sobre qualquer
assunto, apareceu até agora na corrida à Presidência da República. Embora
tenham aparecido alguns pré-candidatos ligados ao chamado Centrão, o quadro
permanece polarizado entre uma figura vinculada claramente à direita e uma
originária da esquerda, mas de posições amaciadas.
Quem esperava debates – ou, talvez, mera
exposição de projetos e programas – deve estar decepcionado diante do
espetáculo. Se houver algum confronto mais animado entre os concorrentes,
deverá resultar, quase com certeza, do esforço de alguma equipe de televisão.
Às vezes, no entanto, nem o jornalismo eletrônico, mesmo conduzido por equipes
competentes, consegue tornar mais atraente o cenário eleitoral. Mas faltam
meses para as eleições e o quadro deverá tornar-se bem mais movimentado.
Entre os políticos, o principal interessado
em tornar o cenário mais barulhento deve ser o candidato da extrema direita. As
condições poderão mudar, se as condições econômicas se tornarem mais
desfavoráveis, incomodando o eleitorado, facilitando o discurso oposicionista e
forçando o governo a proteger sua imagem.
Presidente e equipe certamente percebem a importância de um cuidado especial, nesta fase, com o crescimento, o emprego e a alta dos preços, um risco quase permanente no Brasil. Na área externa, a proximidade com o governo americano deixou de ser vantagem para o candidato oposicionista, hoje praticamente ignorado na Casa Branca, onde a figura de Lula ganhou preeminência. Mas a autoconfiança, de vez em quando exibida com algum exagero pelo presidente brasileiro, pode ser um risco importante.

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