O Estado de S. Paulo
Acordo em terras raras com a Índia amplia poder de barganha do Brasil com EUA e Trump
A Suprema Corte dos EUA veta o “tarifaço”,
impõe limites e inaugura uma nova fase para Donald Trump, que, mesmo anunciando
novas tarifas de 15%, entra em 2026 descendo do trono, caindo na real e
carregando o assassinato de dois americanos pelo ICE, protestos internos por
toda parte, o show de Bad Bunny e o fantasma de Epstein. Esse enredo confirma o
acerto da estratégia de morde e assopra do presidente Lula.
O acordo de cooperação entre Brasil e Índia na área de minerais críticos, justamente neste momento, é um ótimo exemplo de reação a quem se considera “dono do mundo” e, preventivamente, a uma nova guerra fria, agora entre EUA e China, com alto potencial para transformar todos os demais em reféns de seus interesses e suas disputas.
O acordo cai como uma luva para os dois
países. O Brasil, que tem a segunda maior reserva de minerais críticos, só
atrás da China, amplia parceiros em um setor estratégico e ganha maior poder de
barganha com os EUA, pois as terras raras estão no centro da aproximação de
Lula e Trump. Já a Índia dinamiza seu leque de fornecedores e dribla a
dependência da China, principal produtora e dona da maior reserva.
Mesmo nos momentos mais agressivos e insanos de Trump, o Itamaraty manteve a cabeça fria, sob a avaliação, praticamente uma certeza, de que Trump não conseguiria confrontar o mundo inteiro e enganar todos, o tempo todo, nos EUA, e o freio de arrumação viria do próprio país. Lula agiu e se manifestou dentro dessa expectativa.
Não foi (só) por instinto e estilo, mas
(também) por pragmatismo, orientação da diplomacia e os ventos a favor, que
Lula criou a tal “química” com Trump, resgatou-o do bolsonarismo, foi
importante para amenizar as tarifas e passou a negociar a cooperação na
sensível área das terras raras. Mas…
Apesar de sorrisos e tapinhas nas costas,
Lula nunca deixou de falar umas verdades daqui, dar um cutucão em Trump dali,
delimitando o território das negociações: amplo, civilizado, mas sem submissão
nem medo, na mesma linha de Cláudia Sheinbaum no México. Assim, alternou
encontros e elogios com críticas a “cara feia”, “gritos”, “governar por redes
sociais”, transformar a ONU em “clube do Trump”. E avisando: “O Brasil não
aceita imposições”.
Foram vários os momentos e, em cada um deles,
respiração suspensa: Lula está cutucando o leão com vara curta… sim, o leão
continua sendo leão, a potência continua sendo potência e não é prudente
imaginar que o Brasil tenha tamanho para enfrentar EUA e Trump. Porém, tem
liderança regional, aliados decisivos, riquezas, uma diplomacia forte. Trump
está em baixa, Brasil caminha com segurança.

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