O Estado de S. Paulo
A gana presidencial de Lula e a pavorosa entressafra de políticos que governa atualmente o País aumentam as chances de nos mantermos num eterno buraco
Raras vezes em nossa história um candidato à Presidência traçou seu plano político de uma forma tão cristalinamente clara. É de todos sabido que Lula, o atual presidente, está há um bom tempo em campanha. Quer a reeleição. Para tanto, gasta o que pode e o que não pode. Dado que nossa classe política não se entende para identificar um candidato de maior estatura, Lula tem chances de ser reeleito. E se não for? Aí entra a segunda parte do plano. Se não for, quem o suceder já começará o mandato com um buraco fiscal sem tamanho. Péssimo para o Brasil, mas, outra vez, bom para Lula.
Trafegando sobre os escombros que terá
deixado, ele se candidata outra vez. Busca um quarto mandato, com chances,
porque terá deixado para trás um pobre diabo que terá ascendido ao Planalto
apenas para manter a poltrona aquecida para a volta triunfal do nosso mais
brilhante desocupado. O efeito de tudo isso: mais uma ou duas décadas de
desastre.
Desde a Proclamação da República, nossos
sucessivos constituintes não se lembraram de copiar uma das (poucas) boas
coisas que os norteamericanos adotaram: um presidente exerce dois mandatos,
sucessivos ou não, e pronto, acabou. Vai para casa. Com o que tiver aprendido
na suprema magistratura (o que é sempre uma incógnita), poderá pôr em prática
boas coisas na área internacional ou na doméstica, como fizeram Bill Clinton e
Jimmy Carter, ou simplesmente sair de cena. Outra alternativa seria agir como
fez Truman, que permaneceu quieto em sua residência no Missouri.
No caso de Lula, alguma atenção deve ser dada
à idade. Por enquanto, com 79 anos, candidato ou não, torço para que esteja
bem.
Afirmo sem medo de errar que no máximo 30%
dos eleitores brasileiros têm alguma noção dos desastres que podem se abater
sobre nós nos próximos anos, se não levarmos a cabo uma reforma política séria.
E que no máximo 20% ou talvez 10% tentam entender as causas da grave situação
em que nos encontramos. Relembro o que aqui já afirmei em diversas ocasiões.
Com o Produto Interno Bruto (PIB) por habitante – que hoje beira os US$ 8 mil
anuais – crescendo em média, no máximo, a 2,5%, levaremos cerca de 25 anos, uma
geração inteira, para dobrar aqueles pífios US$ 8 mil. Atingindo US$ 16 mil
anuais por habitante, seremos ainda bem mais pobres do que o Mississippi, o
Estado mais pobre da união norte-americana.
Outro problema a considerar é que, pelo andar
da carruagem, não teremos um candidato plausível e muito menos partidos
políticos consistentes no futuro que anteriormente esbocei. Partidos sérios e
confiáveis praticamente nunca tivemos – o Partido Social Democrático (PSD) do
segundo pósguerra, liderado por Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e Juscelino
Kubitschek, foi a exceção que confirma a regra.
Sabemos todos que ter um único partido de
nada nos serve, porque isso seria uma ditadura. Ter dois, ainda que pilotados
por alguns bons políticos, de nada adianta, se eles descambarem para uma
espaventada hostilidade entre si, como aconteceu nos anos 50 com Getúlio
Vargas, eleito de forma normal, mas sofrendo a odienta oposição do outrora comunista
Carlos Lacerda, agora convertido em jornalista, proprietário da Tribuna da
Imprensa e conspirando sem parar com a oficialidade da Aeronáutica. O desfecho
não necessariamente seria a tragédia do suicídio, mas foi devido a uma semente
que o próprio Getúlio plantara: o tiro dado por Gregório Fortunato, um jagunço
que ele trouxera do Rio Grande do Sul, atingindo a perna de Carlos Lacerda e
matando o major Vaz, oficial da Aeronáutica, que dava proteção a Lacerda
durante a campanha eleitoral. Assim, o embrião de estrutura partidária que
parecia se configurar foi para o vinagre, uma vez que os ministros militares
vetaram a posse de João Goulart, vice-presidente legitimamente eleito, e o País
chegou a ver no céu as nuvens escuras de uma guerra civil. Aqui, é imperativo
lembrar a asneira perpetrada pelos constituintes de 1946: permitir a
candidatura à Presidência por um candidato de um partido e à vice por um
candidato de outro; no caso, o tresloucado Jânio Quadros, vergonhosamente
apoiado pela União Democrática Nacional (UDN) de Lacerda, e João Goulart,
afilhado político de Getúlio, configurando-se, dessa forma, o pior cenário que
poderíamos então conceber: o acirramento da antinomia getulismo versus
antigetulismo, a contrafação “parlamentarista” e, finalmente, a radicalização
induzida pela ideia das “reformas de base” alvitrada por então ministrochefe da
Casa Civil e, finalmente, o golpe militar de 1964.
Não estou afirmando sequer remotamente que
loucuras como as que venho de relembrar estejam nas cartas. Não creio no mito
do eterno retorno. Digo apenas que a gana presidencial de Lula e a pavorosa
entressafra de políticos que governa atualmente o País aumentam as chances de
nos mantermos num eterno buraco.
Concluir discorrendo sobre nossa desigualdade
social seria chover no molhado; trabalhando sobre os dados do Imposto de Renda
de 2023, uma equipe do Ministério da Fazenda informou recentemente que 1% da
população detém 37% da renda e da riqueza.

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