sábado, 14 de fevereiro de 2026

E assim se passarão mais dez anos? Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

A gana presidencial de Lula e a pavorosa entressafra de políticos que governa atualmente o País aumentam as chances de nos mantermos num eterno buraco

Raras vezes em nossa história um candidato à Presidência traçou seu plano político de uma forma tão cristalinamente clara. É de todos sabido que Lula, o atual presidente, está há um bom tempo em campanha. Quer a reeleição. Para tanto, gasta o que pode e o que não pode. Dado que nossa classe política não se entende para identificar um candidato de maior estatura, Lula tem chances de ser reeleito. E se não for? Aí entra a segunda parte do plano. Se não for, quem o suceder já começará o mandato com um buraco fiscal sem tamanho. Péssimo para o Brasil, mas, outra vez, bom para Lula.

Trafegando sobre os escombros que terá deixado, ele se candidata outra vez. Busca um quarto mandato, com chances, porque terá deixado para trás um pobre diabo que terá ascendido ao Planalto apenas para manter a poltrona aquecida para a volta triunfal do nosso mais brilhante desocupado. O efeito de tudo isso: mais uma ou duas décadas de desastre.

Desde a Proclamação da República, nossos sucessivos constituintes não se lembraram de copiar uma das (poucas) boas coisas que os norteamericanos adotaram: um presidente exerce dois mandatos, sucessivos ou não, e pronto, acabou. Vai para casa. Com o que tiver aprendido na suprema magistratura (o que é sempre uma incógnita), poderá pôr em prática boas coisas na área internacional ou na doméstica, como fizeram Bill Clinton e Jimmy Carter, ou simplesmente sair de cena. Outra alternativa seria agir como fez Truman, que permaneceu quieto em sua residência no Missouri.

No caso de Lula, alguma atenção deve ser dada à idade. Por enquanto, com 79 anos, candidato ou não, torço para que esteja bem.

Afirmo sem medo de errar que no máximo 30% dos eleitores brasileiros têm alguma noção dos desastres que podem se abater sobre nós nos próximos anos, se não levarmos a cabo uma reforma política séria. E que no máximo 20% ou talvez 10% tentam entender as causas da grave situação em que nos encontramos. Relembro o que aqui já afirmei em diversas ocasiões. Com o Produto Interno Bruto (PIB) por habitante – que hoje beira os US$ 8 mil anuais – crescendo em média, no máximo, a 2,5%, levaremos cerca de 25 anos, uma geração inteira, para dobrar aqueles pífios US$ 8 mil. Atingindo US$ 16 mil anuais por habitante, seremos ainda bem mais pobres do que o Mississippi, o Estado mais pobre da união norte-americana.

Outro problema a considerar é que, pelo andar da carruagem, não teremos um candidato plausível e muito menos partidos políticos consistentes no futuro que anteriormente esbocei. Partidos sérios e confiáveis praticamente nunca tivemos – o Partido Social Democrático (PSD) do segundo pósguerra, liderado por Tancredo Neves, Ulysses Guimarães e Juscelino Kubitschek, foi a exceção que confirma a regra.

Sabemos todos que ter um único partido de nada nos serve, porque isso seria uma ditadura. Ter dois, ainda que pilotados por alguns bons políticos, de nada adianta, se eles descambarem para uma espaventada hostilidade entre si, como aconteceu nos anos 50 com Getúlio Vargas, eleito de forma normal, mas sofrendo a odienta oposição do outrora comunista Carlos Lacerda, agora convertido em jornalista, proprietário da Tribuna da Imprensa e conspirando sem parar com a oficialidade da Aeronáutica. O desfecho não necessariamente seria a tragédia do suicídio, mas foi devido a uma semente que o próprio Getúlio plantara: o tiro dado por Gregório Fortunato, um jagunço que ele trouxera do Rio Grande do Sul, atingindo a perna de Carlos Lacerda e matando o major Vaz, oficial da Aeronáutica, que dava proteção a Lacerda durante a campanha eleitoral. Assim, o embrião de estrutura partidária que parecia se configurar foi para o vinagre, uma vez que os ministros militares vetaram a posse de João Goulart, vice-presidente legitimamente eleito, e o País chegou a ver no céu as nuvens escuras de uma guerra civil. Aqui, é imperativo lembrar a asneira perpetrada pelos constituintes de 1946: permitir a candidatura à Presidência por um candidato de um partido e à vice por um candidato de outro; no caso, o tresloucado Jânio Quadros, vergonhosamente apoiado pela União Democrática Nacional (UDN) de Lacerda, e João Goulart, afilhado político de Getúlio, configurando-se, dessa forma, o pior cenário que poderíamos então conceber: o acirramento da antinomia getulismo versus antigetulismo, a contrafação “parlamentarista” e, finalmente, a radicalização induzida pela ideia das “reformas de base” alvitrada por então ministrochefe da Casa Civil e, finalmente, o golpe militar de 1964.

Não estou afirmando sequer remotamente que loucuras como as que venho de relembrar estejam nas cartas. Não creio no mito do eterno retorno. Digo apenas que a gana presidencial de Lula e a pavorosa entressafra de políticos que governa atualmente o País aumentam as chances de nos mantermos num eterno buraco.

Concluir discorrendo sobre nossa desigualdade social seria chover no molhado; trabalhando sobre os dados do Imposto de Renda de 2023, uma equipe do Ministério da Fazenda informou recentemente que 1% da população detém 37% da renda e da riqueza.

 

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