Folha de S. Paulo
Alcance de inteligência artificial para a
escolha de candidatos deve ser relativizado
Não serão ChatGPTs e Geminis que converterão votantes em receptáculos passivos e manipuláveis
Conforme veiculou recentemente o alemão Deutsche Welle, "estudos mostram que eleitores de vários países perguntam a chatbots como ChatGPT e Gemini em quem deveriam votar, uma questão que preocupa especialistas e desafia reguladores eleitorais".
Publicado nesta Folha, o ótimo artigo "A escolha de candidatos por IA e os riscos de confiar nas respostas" (7/2) versa sobre a necessidade de regulação de sistemas de inteligência artificial. Traz a informação de que 9,7% dos brasileiros já utilizam chatbots como fonte de informação. Na faixa etária de 25 a 34 anos, esse percentual sobe para 13,3%.
Em que pese a necessidade primordial de
debatermos formas de regulação das
redes digitais, creio que, neste caso, estamos diante de mais um
pânico social causado por nossa tendência histórica de temer supostas
consequências danosas a cada novo advento e popularização de alguma tecnologia de
comunicação e informação. Não foi diferente com o gibi, o cinema, o rádio, a
televisão, o videogame ou mesmo com aquela coisa que costumávamos chamar
de internet.
Todas essas tecnologias, a seu modo, foram alçadas ao posto das invenções que,
enfim, nos tornariam mais estúpidos, ignorantes e, o principal, mais isolados
socialmente. Não aconteceu.
A vasta bibliografia sobre comunicação
política e comportamento eleitoral vaticina: eleitores nunca decidiram sobre
seu voto num vácuo social. Votos são como outras escolhas da vida. São baseados
em um contexto social e influenciados por normas sociais, percepções e
expectativas sobre o comportamento e a opinião alheias. Assim como dependem de
múltiplas fontes de informação.
Qual seria a diferença substancial entre
informações políticas oferecidas pelo ChatGPT e aquelas compartilhadas pelo tio
do churrasco, o dono da padaria, o motorista do Uber, o instrutor da academia
de crossfit ou o militante do seu DCE (Diretório Central dos Estudantes) mais
próximo que, muito provavelmente, tem um ou mais perfis em diferentes
plataformas digitais? A rigor, nenhuma.
Talvez o risco de desinformação seja até
muito menor. Na verdade, tendo a crer que, diante desse ecossistema de
comunicação política e social, os chatbots têm um peso muito menor para o voto
do que aqueles indivíduos que nós alçamos à condição de lideranças de opinião.
Há ainda o argumento de que os indivíduos
tenderiam a conceder às inteligências artificiais o status de detentoras da
verdade, ou seja, de fornecedoras da informação verdadeira. Parece-me um
equívoco bastante ingênuo. Se os indivíduos jamais se ajoelharam aos pés da
grande imprensa ou mesmo das evidências científicas como um fiel o faz diante
de seus livros sagrados e lideranças religiosas, não serão ChatGPTs e Geminis
que os converterão em receptáculos passivos e manipuláveis. O mesmo vale para a
ideia de que essas consultas possuem um caráter terminal.
Dificilmente um eleitor resumirá suas
expedições cognitivas aos resultados oferecidos por uma inteligência
artificial.
As IAs são apenas mais uma das fontes de
informação de que o eleitor se vale e se valerá para votar. E certamente não
serão mais determinantes do que o influenciador digital de sua preferência.
*Professor, pesquisador e chefe do
Departamento de Comunicação Social da UFMG; professor associado do Instituto
Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD)

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