quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Eleitores nunca decidem seu voto em um vácuo social, por Camilo Aggio

Folha de S. Paulo

Alcance de inteligência artificial para a escolha de candidatos deve ser relativizado

Não serão ChatGPTs e Geminis que converterão votantes em receptáculos passivos e manipuláveis

Conforme veiculou recentemente o alemão Deutsche Welle, "estudos mostram que eleitores de vários países perguntam a chatbots como ChatGPT e Gemini em quem deveriam votar, uma questão que preocupa especialistas e desafia reguladores eleitorais".

Publicado nesta Folha, o ótimo artigo "A escolha de candidatos por IA e os riscos de confiar nas respostas" (7/2) versa sobre a necessidade de regulação de sistemas de inteligência artificial. Traz a informação de que 9,7% dos brasileiros já utilizam chatbots como fonte de informação. Na faixa etária de 25 a 34 anos, esse percentual sobe para 13,3%.

Em que pese a necessidade primordial de debatermos formas de regulação das redes digitais, creio que, neste caso, estamos diante de mais um pânico social causado por nossa tendência histórica de temer supostas consequências danosas a cada novo advento e popularização de alguma tecnologia de comunicação e informação. Não foi diferente com o gibi, o cinema, o rádio, a televisão, o videogame ou mesmo com aquela coisa que costumávamos chamar de internet. Todas essas tecnologias, a seu modo, foram alçadas ao posto das invenções que, enfim, nos tornariam mais estúpidos, ignorantes e, o principal, mais isolados socialmente. Não aconteceu.

A vasta bibliografia sobre comunicação política e comportamento eleitoral vaticina: eleitores nunca decidiram sobre seu voto num vácuo social. Votos são como outras escolhas da vida. São baseados em um contexto social e influenciados por normas sociais, percepções e expectativas sobre o comportamento e a opinião alheias. Assim como dependem de múltiplas fontes de informação.

Qual seria a diferença substancial entre informações políticas oferecidas pelo ChatGPT e aquelas compartilhadas pelo tio do churrasco, o dono da padaria, o motorista do Uber, o instrutor da academia de crossfit ou o militante do seu DCE (Diretório Central dos Estudantes) mais próximo que, muito provavelmente, tem um ou mais perfis em diferentes plataformas digitais? A rigor, nenhuma.

Talvez o risco de desinformação seja até muito menor. Na verdade, tendo a crer que, diante desse ecossistema de comunicação política e social, os chatbots têm um peso muito menor para o voto do que aqueles indivíduos que nós alçamos à condição de lideranças de opinião.

Há ainda o argumento de que os indivíduos tenderiam a conceder às inteligências artificiais o status de detentoras da verdade, ou seja, de fornecedoras da informação verdadeira. Parece-me um equívoco bastante ingênuo. Se os indivíduos jamais se ajoelharam aos pés da grande imprensa ou mesmo das evidências científicas como um fiel o faz diante de seus livros sagrados e lideranças religiosas, não serão ChatGPTs e Geminis que os converterão em receptáculos passivos e manipuláveis. O mesmo vale para a ideia de que essas consultas possuem um caráter terminal.

Dificilmente um eleitor resumirá suas expedições cognitivas aos resultados oferecidos por uma inteligência artificial.

As IAs são apenas mais uma das fontes de informação de que o eleitor se vale e se valerá para votar. E certamente não serão mais determinantes do que o influenciador digital de sua preferência.

*Professor, pesquisador e chefe do Departamento de Comunicação Social da UFMG; professor associado do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD)

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