quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Em busca de um acordo entre Trump e Lula, por Assis Moreira

Valor Econômico

Dono da segunda maior reserva mundial de terras raras, Brasil não tem intenção de se aliar a ‘clube’ montado por Trump nessa área, onde perderia seu enorme poder de barganha na questão dos mineriais críticos

Ao mesmo tempo em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva realiza visitas à Índia e à Coreia do Sul nos próximos dias, a equipe presidencial prepara seu esperado encontro com Donald Trump na Casa Branca. A visita pode ocorrer em março. A data, no entanto, ainda depende do anfitrião.

Do lado brasileiro, os temas na mesa com Trump incluem a resolução do tarifaço sobre exportações brasileiras, questões de segurança (combate ao crime organizado) e temas globais, como o Conselho de Paz, pelo qual Trump busca esvaziar as Nações Unidas, e tensão no hemisfério ocidental, como a Venezuela.

Para Lula, é fundamental voltar de Washington com a eliminação - ou, ao menos, a suspensão - das tarifas unilaterais e discriminatórias ainda em vigor sobre exportações brasileiras impostas por Trump.

Boa parte das sobretaxas já foi retirada, em meio à alta da inflação americana, mas o que permanece em vigor machuca fortemente produtos brasileiros com maior valor agregado, como máquinas e equipamentos, além de calçados, confecções e madeira.

A participação nas exportações totais para os EUA dos produtos submetidos ao tarifaço de 40% caiu de 22% para 13% entre 2024 e o mês passado, ou seja, esses produtos perdem importância na balança bilateral devido à taxação adicional. A queda na venda desses itens foi de 55,3% em janeiro.

Outros produtos sujeitos a tarifas específicas aplicadas pelos EUA a todos os países pela Seção 232 (por razões alegadas de segurança nacional) atingem 29% das vendas brasileiras. Esses embarques recuaram 26%.

De outro lado, 58% das exportações brasileiras para os EUA em janeiro já não estavam mais sujeitas à sobretaxa, incluindo produtos relevantes como suco de laranja, ferro-gusa, celulose e petróleo. Ainda assim, houve queda de 23% nos embarques para os EUA de produtos como petróleo. Isso está ligado à dinâmica do mercado, mas provavelmente também às turbulências na política comercial americana que alteram a concorrência.

Para 2026, pode ocorrer retração nas vendas ao mercado estadunidense em relação ao patamar de 2025, quando já sofreu déficit de US$ 7,5 bilhões. Na medida em que Trump foi anunciando sobretaxas, houve forte antecipação de embarques, com picos em julho, o que não deverá se repetir neste ano.

Tudo isso leva o Brasil a se engajar na negociação com o governo Trump. Em Brasília, interlocutores repetem que não haverá entendimento tão desequilibrado quanto aqueles feitos por Washington com outros países, que normalmente possuem grandes superávits comerciais com os EUA. O Brasil, ao contrário, acumula 15 anos consecutivos de déficit na balança com os americanos. E para o tarifaço contra produtos brasileiros, a Casa Branca usou até o Pix para argumentos de práticas comerciais desleais.

Trump gosta de espetáculo, e os parceiros aprenderam a jogar com isso. Sabem que certas concessões prometidas não são plenamente críveis, mas entram na lógica dos grandes anúncios americanos. Apostam no tempo e cientes de que acordo com Trump não é “gravado em pedra”, pode ser revisado rapidamente conforme o humor dele.

Em Brasília, dentro dessa lógica de buscar um pacote vistoso capaz de agradar Trump, circulou uma proposta de elevar o comércio bilateral para cerca de US$ 200 bilhões nos próximos anos, um salto enorme comparado a US$ 82,8 bilhões em 2025, o que também poderia envolver, indiretamente, mais investimentos. A lógica do lado brasileiro é mais - e não menos - comércio. Mas não está claro se a ideia foi levada a Washington. De seu lado, a Índia anunciou “intenção” de comprar US$ 500 bilhões em produtos americanos em cinco anos, o que significa dobrar as importações indianas, algo que causa dor de cabeça para o primeiro-ministro Narendra Modi.

O Brasil não tem como competir com outros anúncios mirabolantes, como o da Coreia do Sul, de investir US$ 350 bilhões na economia americana. Empresas brasileiras investiram US$ 33,2 bilhões nos EUA na última década (US$ 5,3 bilhões no ano passado). Dobrar esse valor até poderia ser factível, dependendo das estratégias empresariais, mas continuaria modesto comparado à ambição trumpiana.

Mas o maior interesse de Washington está mesmo em minerais críticos. E aqui o Brasil sinaliza que não quer amarras. Com a segunda maior reserva global de terras raras, o governo Lula avalia que o país não precisa integrar o clube que os americanos tentam formar, pois tem grande poder de barganha. Na visita de Lula, a expectativa no governo é de um “ajuste de expectativas” para futura cooperação bilateral.

No campo das big techs, Washington defende os grandes grupos do setor como Google, Meta, Amazon e X contra o que chama de barreiras comerciais disfarçadas de regulação. Os EUA acompanham de perto projetos no Congresso brasileiro como o PL do “Cade digital” (que define empresas com poder de mercado desproporcional no ambiente digital), o PL que regulamenta o uso da inteligência artificial no Brasil e o PL do Redata (que cria um regime especial de tributação para empresas de serviços de tecnologia e data centers, potencialmente beneficiando a compra de equipamentos dos EUA).

Não será surpresa uma abertura maior do mercado brasileiro ao etanol americano, tema prioritário para os EUA. Já concessões como no setor automotivo parecem mais difíceis: Washington pode até querer cota para carros americanos, como conseguiu na Argentina, mas o mais provável é algo na área regulatória.

Dependendo das barganhas nos próximos dias, Trump e Lula poderão anunciar parâmetros que conduzam a um acordo mais tarde - sempre deixando espaço para Trump proclamar vitória.

 

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