domingo, 1 de fevereiro de 2026

Qual é o nosso problema? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro tenta explicar o que deu errado na política norte-americana

Autor traz conceitos úteis, mas superestima estrago causado pelo identitarismo

"What´s Our Problem?", de Tim Urban, é um livro ambicioso. Tenta explicar o que há de errado com a sociedade americana e, a meu ver, acerta na mensagem central, que é a de que é preciso restaurar o liberalismo que já a caracterizou. Receio, porém, que Urban erre na dose dos ingredientes com os quais opera.

Gostei bastante dos capítulos iniciais, em que o autor faz uma espécie de faxina conceitual. Para ele, não podemos considerar a política só seu eixo tradicional de esquerda e direita, que ele chama de horizontal. Além da ideologia, há a questão dos métodos, que ele chama de eixo vertical. Nos degraus mais altos, estão esquerdistas e direitistas que debatem em cima de fatos, aceitam a ciência e respeitam instituições.

Nos degraus mais baixos, temos os zelotes, que defendem suas ideias com máxima convicção e usam todos os meios para derrotar os oponentes. No meio da escada temos um bom número de pessoas que se comportam como torcedores de futebol. Têm uma visão enviesada em favor de sua própria tribo, mas ainda reconhecem fatos básicos.

O esquema de Urban gera bons insights. No eixo horizontal, Trump é mais moderado, por exemplo, do que Ronald Reagan. O atual presidente nem parece se opor genuinamente ao aborto. E se Reagan estava ideologicamente muito à direita de Trump, no eixo vertical o ex-ator se punha nos degraus superiores. Ao menos em discursos, Reagan pregava a união de todos os americanos e defendia as instituições.

Acho que Urban perde a mão na segunda parte do livro, em que se põe a criticar o identitarismo, ao qual ele atribui, se não todos, a maior parte dos problemas políticos dos EUA. O fundamentalismo trumpista não seria mais do que uma reação de eleitores ao fundamentalismo da esquerda identitária. Até acho que esse movimento apresenta fragilidades teóricas e é uma das muitas causas do crescimento da direita, mas não na proporção sugerida pelo autor. Basta ver que a Europa, onde o identitarismo avançou bem menos, também tem problemas com a ultradireita.

 

 

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