Guerra da Ucrânia faz quatro anos sob o signo do cansaço
Por Folha de S. Paulo
Pior conflito europeu desde 1945 se arrasta e
pode ser trocado pelo Irã na lista de prioridades de Trump
Estudos indicam ao menos 500 mil óbitos
militares e 15 mil civis; gasto militar da Europa subiu de 17% em 2022 para
21,4% em 2025
A Guerra da Ucrânia,
um conflito que tanto a Rússia quanto
o Ocidente acreditavam que estaria resolvido rapidamente, entrou
nesta terça-feira (24) em seu quinto ano sob o signo da exaustão.
Cansados estão os ucranianos, submetidos a um regime de blecautes devido à degradação de seu sistema energético sob forte frio. Cansados estão os russos, isolados do Ocidente e pagando um preço altíssimo em sangue.
E cansado está o mundo com a indefinição
acerca de uma solução para a guerra, que se arrasta para mais uma rodada de
negociações, até aqui infrutíferas, mediadas pelos Estados
Unidos governado por Donald Trump.
É neste fastio que mora o maior perigo hoje.
A invasão de Vladimir
Putin pode não ter logrado seu objetivo estratégico, que era
anular a Ucrânia como um ente ocidental, mas a longa duração dos combates
favorece o russo.
Além de erodir a resistência ucraniana de
forma lenta, o chefe do Kremlin viu crescer o número de fissuras no Ocidente
que culpa pela origem do embate: na sua visão, foi a arrogância americana após
a dissolução da União Soviética em 1991 que empurrou a Rússia para o belicismo.
O argumento é disputado, mas não desprovido
de méritos. Todavia, isso não muda o fato de que quem atirou primeiro foi Putin.
Seja como for, a unidade entre Estados Unidos
e Europa,
que marcou os três primeiros anos do conflito, foi rompida. Trump zerou a ajuda
a Kiev e, em nome de uma paz ainda que precária para chamar de sua, tenta um
cessar-fogo a qualquer custo.
Para o autocrata russo, que não mudou suas
exigências territoriais e políticas desde que as expôs em junho de 2024, é o
melhor dos mundos: ele aceita negociar, desde que seja em seus termos, e isso bastou
até aqui a Trump.
Com isso, a roda da morte segue a girar, com
enorme impacto. Estudos indicam ao menos 500 mil óbitos militares e 15 mil
civis. Nas linhas de frente, a proporção entre mortos e feridos se assemelha à
da Segunda Guerra, e não a conflitos modernos.
Segundo o Banco Mundial, se os canhões
silenciassem hoje, seriam precisos até US$ 3
trilhões em uma década para reconstruir a infraestrutura ucraniana.
Do ponto de vista global, como demonstram
dados divulgados também nesta terça pelo Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos, de Londres, a guerra ajudou a alterar a geografia do gasto
militar no planeta.
Os EUA, claro, seguem líderes no campo,
respondendo por 35% dos US$ 2,63 trilhões gastos com defesa do mundo. Mas a
fatia europeia subiu de 17% em 2022 para 21,4% três anos depois, testemunho
tanto da obra de Putin como do desengajamento de Trump da defesa continental.
Adensando o enredo, há a mudança do foco para
o eventual
ataque do americano ao Irã, o que somado a impasses entre Kiev e Moscou
pode levar ao abandono de Trump das negociações —e ao prolongamento do
conflito.
Conter os efeitos nocivos da expansão das
motos
Por Folha de S. Paulo
Mortes de pedestres atropelados pelo veículo
sobem em São Paulo; é preciso endurecer fiscalização
No estado, o número de óbitos passou de 145 a
202 entre 2022 e 2025; na capital, foi de 38 em 2023 a 66 no ano passado
Levantamento realizado pelo Departamento
de Trânsito de São Paulo (Detran-SP)
a pedido da Folha aponta aumento de
mortes de pedestres atropelados por motocicletas no estado e na
capital. Tal indicador, juntamente com o de óbitos de condutores de motos,
mostra que o poder público não está dando a devida atenção aos efeitos da
ampliação do uso desses veículos.
No ano passado, foram registrados 1.376
boletins de ocorrência sobre mortes de pedestres por atropelamento no estado,
sendo que em 809 era informado o tipo de veículo; na capital, foram 410 e 230,
respectivamente.
A série, que tem início em 2019, mostra alta
de óbitos causados por motos no trânsito paulista entre 2022 e 2025, passando
de 145 a 202. Na capital, o crescimento começa com 38 mortes em 2023 até 66 em
2025.
Os automóveis responderam pela maior fatia da
letalidade no ano passado, com 420 no estado e 89 na capital, mas houve redução
ante 2024 (466 e 97).
A frota de motos cresceu mais (28,2%) do que
a de carros (10%) entre 2019 e 2025, segundo a Secretaria Nacional de Trânsito.
A alta decorre do uso do veículo de duas rodas para serviços de entrega por
aplicativos e como alternativa ao transporte coletivo.
Assim, é crucial que governos nas três
esferas atuem em várias frentes para conter consequências deletérias do
fenômeno.
A
flexibilização da obtenção CNH implementada em dezembro do ano
passado visou conter a ilegalidade —relatório do governo federal de 2024 mostra
que, dos 34,2 milhões de proprietários de motos, 17,5 milhões (53,8%) não
tinham o documento.
A velocidade precisa ser contida. Pesquisa da
Universidade Johns Hopkins (EUA) em parceria com a USP revelou que, em 2024, 43% das
motos ultrapassaram os limites, ante 33% em 2021.
Para isso, é preciso endurecer a
fiscalização. Segundo especialistas, motos podem não ser captadas por sensores
no asfalto por serem muito leves, sem contar que possuem só placas traseiras, o
que compromete o registro de fotos. É comum ver motoqueiros por São Paulo
ignorando solenemente semáforos fechados.
Ademais, a redução dos limites de velocidade
nas marginais, apesar de impopular, salva vidas. Quando foi testada na capital
entre 2015 e 2017, o número de mortes apresentou queda de 15%.
Melhorar o transporte público, redesenhar vias e investir em educação no trânsito são outras ações necessárias para lidar com a expansão, que não tende a parar com a alta demanda da sociedade por serviços de aplicativo.
Lula erra ao ceder a chantagem de grupos
indígenas
Por O Globo
Ao suspender estudo para concessão de
hidrovias em rios amazônicos, governo é conivente com atos violentos
Foi um erro o governo federal ter decidido
revogar a concessão de hidrovias na Amazônia,
cedendo à pressão descabida de lideranças indígenas que incluiu atos de
vandalismo e invasão de propriedade privada. O decreto do presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva incluía no Programa Nacional de Desestatização as hidrovias nos rios
Madeira, Tocantins e Tapajós, estratégicas para facilitar o transporte de grãos
na região. O secretário-geral da Presidência, Guilherme
Boulos, atribuiu a decisão à “escuta ativa” dos povos indígenas, que
apontaram impactos do projeto nas comunidades. Mas o recuo foi claramente uma
capitulação à chantagem, para reduzir o desgaste à imagem do Planalto na base
governista, especialmente no PSOL.
Protestos nada pacíficos contra o decreto
começaram há um mês. Na madrugada do último sábado, um grupo invadiu o terminal
da multinacional de alimentos Cargill no Porto de Santarém (PA), cuja portaria
já estava bloqueada. A operação teve de ser interrompida. A fachada do
escritório central, em São Paulo, também foi vandalizada. Antes da invasão, os
manifestantes interceptaram uma balsa de grãos atracada no porto. O Conselho
Indígena Tapajós Arapiuns, que coordenou os protestos, afirmou ter esperado
posição oficial do governo federal por 30 dias e não ter obtido resposta a
pedidos de audiência para tratar do assunto.
Foi evidentemente exagerada a reação ao
decreto. O próprio Planalto deixou claro que não se tratava de obras ou de
privatização da hidrovia do Tapajós. “O normativo trata exclusivamente da
realização de estudos técnicos sobre uma possível concessão dos serviços de
navegabilidade”, afirma nota do governo. Ora, se o objetivo do decreto era
estudar o assunto, por que então suspendê-lo? Estudos técnicos poderão fornecer
informações importantes sobre possíveis impactos e subsídios para mitigá-los,
como ocorre em tantos outros empreendimentos envolvendo concessões para a
exploração de recursos pela iniciativa privada. É injustificável recuar sem
sequer realizar uma análise técnica independente e pesando os riscos e
benefícios da iniciativa.
Representantes dos povos indígenas têm todo o
direito de se opor a um decreto governamental e a expor suas reivindicações.
Nada impede também que se discutam os termos do projeto. Isso é saudável para a
sociedade. Mas não é tolerável invadir propriedades e praticar vandalismo
contra empresas essenciais para o êxito do pujante setor do agronegócio
brasileiro. Está certa a Associação Brasileira de Terminais Portuários ao
qualificar “atos de violência contra uma empresa privada que não possui
ingerência sobre a pauta apresentada” como improdutivos e prejudiciais ao
“legítimo espaço democrático de diálogo”. A aceitação da baderna só contribui
para deteriorar o ambiente de negócios e afugentar investimentos do país.
Se a concessão de hidrovias na Amazônia é
estratégica para escoar produção de grãos e minério, o governo tem obrigação de
dar continuidade ao projeto. As comunidades indígenas merecem ser ouvidas, e
suas ponderações devem ser levadas em conta. Mas há outros setores envolvidos,
como o agronegócio, e suas reivindicações também precisam ser consideradas. Há
que buscar um equilíbrio entre as demandas. Lula dá péssimo exemplo ao revogar
o decreto sob chantagem. O recado é claro: basta partir para a violência que o
governo cede.
Enel expressa descaso por paulistanos ao se
esquivar de responsabilidade
Por O Globo
Empresa ocupa lugar vexatório em qualidade de
serviços, e seu CEO afirma que ‘só Jesus’ evitaria apagões
O primeiro passo para resolver um problema é
analisar com sobriedade sua gravidade e extensão. É exatamente o contrário do
que faz o CEO global da companhia de energia Enel, Flavio
Cattaneo, ao falar dos indefectíveis cortes de eletricidade em São Paulo nos
dias de chuva ou vendaval. Num evento para investidores em Milão, ele disse que
São Paulo é a única grande cidade em que postes são a forma predominante de
distribuição. “Se permanecer desse jeito, só tem um capaz de gerenciar, mas
este não é humano. É Jesus Cristo, porque não é possível outro jeito de evitar
o apagão”, afirmou.
Qualquer um que tenha ido a Tóquio — onde a
Região Metropolitana tem o dobro de população da congênere paulistana — sabe
que postes são componente marcante da paisagem urbana. Na capital japonesa, 90%
da distribuição de energia é aérea. Considerada uma das megacidades mais
verdes, Tóquio é assolada entre maio e outubro por tufões. Ventos costumam
ultrapassar 100km/h, e a chuva pode durar três dias. Ainda assim, o histórico
de interrupções de fornecimento de energia se mantém baixíssimo. Em São Paulo,
em contraste, milhões são afetados por tempestades — e apagões duram dias.
Por certo a distribuição subterrânea diminui
a vulnerabilidade — aumentar 10% as linhas subterrâneas reduz 14% a duração de
apagões, segundo estudo da Universidade Stanford. Durante o Furacão Irma, em
2017, na Flórida, apenas 4% dos clientes atendidos por cabos enterrados foram
afetados, ante 24% dos abastecidos por postes. Levantamentos recentes nos
estados americanos de Wisconsin e Virgínia confirmam a resistência maior. Na
Europa, capitais como Londres, Roma ou Madri investiram no fim dos postes.
Há, porém, desvantagens. Primeiro, a fiação
subterrânea não elimina apagões, como comprovaram os clientes da própria Enel
na região central de São Paulo, afetada por uma pane recente que deixou
milhares sem luz por semanas, apesar dos cabos enterrados. Segundo, enterrar
fios custa caro. Não é por outra razão que no Japão, país com uma renda per
capita três vezes superior à brasileira, eles ainda continuam expostos.
Terceiro, sujeitos a enchentes e umidade, cabos subterrâneos têm vida útil
menor, e os consertos costumam demorar mais.
Está entre os planos da Enel propor às autoridades brasileiras um projeto para implantar redes subterrâneas e trocar árvores de grande porte por menores em São Paulo. Devido ao impacto na conta de luz, é improvável que seja levado adiante. Em vez de perder tempo com propostas inexequíveis, a empresa faria melhor se explicasse por que a subsidiária responsável pelo atendimento de São Paulo se mantém há dois anos no vexatório 21º lugar do ranking de qualidade dos serviços da Agência Nacional de Energia Elétrica. As concorrentes da Enel/SP também atendem cidades arborizadas e cada vez mais assoladas por eventos climáticos extremos. Só o descaso, expresso de modo cúpido nas palavras do CEO da empresa italiana, pode explicar histórico tão sofrível.
Um governo pusilânime
Por O Estado de S. Paulo
Ao revogar decreto das hidrovias na Amazônia
após vandalismo de indígenas e ambientalistas, o governo Lula transforma
capitulação em ‘escuta’ e reforça a ideia de que gritar compensa
Bastaram a gritaria, episódios de violência e
ataques a instalações privadas para que o governo do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva decidisse revogar o decreto que abria caminho para a concessão de
hidrovias na Amazônia. A medida, publicada em agosto, incluía trechos dos Rios
Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND), com
vistas a futuras concessões. Estudos técnicos apontam essas vias como
estratégicas para o escoamento da produção e para a integração regional, com
menor impacto ambiental do que, por exemplo, alternativas rodoviárias.
O recuo foi anunciado após reunião de
lideranças indígenas e ambientalistas com os ministros Guilherme Boulos, da
Secretaria-Geral da Presidência, e Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas. Ao
comunicar a decisão, Boulos exaltou o que chamou de “escuta” e apresentou a
desistência como prova de sensibilidade democrática, tratando o recuo como
virtude republicana – um evidente disparate.
O fato é que o governo cedeu a uma chantagem
pública e à bandalheira. Instalações portuárias da empresa Cargill, no Pará,
foram ocupadas e paralisadas. A sede da empresa em São Paulo teve a fachada
vandalizada. A pressão contra os planos para futuros leilões de hidrovias
envolveu ainda diversos parlamentares da base governista, incluindo de legendas
como PSOL e PDT. A turma da gritaria vinha se referindo ao plano como
“privatização dos rios” e até “decreto da morte” – outro evidente disparate.
O Palácio do Planalto, que até então defendia
a medida com ênfase na legalidade do processo, optou por recolher-se. Durante
semanas, porta-vozes asseguraram que o decreto estava em estrita conformidade
com a Constituição, com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho
(OIT) e com as exigências de consulta e licenciamento. Garantiram que a
inclusão no PND era etapa preliminar, não autorização automática de obras. Se
era assim, por que voltar atrás? Se não era, por que editar o decreto? Entre a
convicção inicial e o recuo apressado, restam três hipóteses: erro técnico,
falha política no diálogo ou simples capitulação diante do barulho.
A cronologia enfraquece a tese de vício
jurídico descoberto de última hora. O governo não apontou qualquer ilegalidade
superveniente. Preferiu falar em necessidade de ampliar o diálogo. A versão
oficial sugere sensibilidade. Os fatos indicam que pesou a intensidade da
mobilização. Consolida-se a impressão de que políticas públicas estruturantes
podem ser revistas não à luz de novos estudos, mas conforme o volume da
pressão. E Lula, com seu peculiar DNA de presidente em estado permanente de
campanha, em vez de liderar o processo com clareza e assumir o custo político
de decisões complexas, recalibra o discurso conforme o humor de sua base
ideológica.
Também merece registro o radicalismo de parte
das organizações que lideraram os atos. Questionar impactos ambientais e exigir
consulta prévia é direito assegurado. Transformar qualquer iniciativa de
infraestrutura em sinônimo de devastação iminente é outra coisa. A denúncia
automática de “ataque aos povos originários” tornou-se atalho retórico para
interditar o debate. Que esses grupos não se queixem quando são vistos como
obstáculos permanentes ao desenvolvimento regional.
No meio do ruído, perde-se o essencial. O
transporte hidroviário é reconhecidamente o modal de menor emissão por tonelada
transportada e, em regra, o de menor impacto comparativo. Melhorar a navegação
pode significar menos estradas na floresta, menos caminhões e menor custo
logístico. Isso não elimina riscos nem dispensa estudos rigorosos, mas tampouco
autoriza o dogma de que Amazônia e desenvolvimento são inconciliáveis.
Ao revogar o decreto sob pressão, o governo
não produziu vencedores. Fragilizou sua própria autoridade e transmitiu a
mensagem de que sua convicção dura até o próximo ato ruidoso. Enquanto isso, a
Amazônia segue refém de gargalos que limitam oportunidades e alimentam a
ilegalidade. Se decisões estruturantes continuarem a ser tomadas e desfeitas ao
sabor da pressão, será melhor abandonar de vez o discurso sobre segurança
jurídica e previsibilidade. Bastará substituir o Diário Oficial pelo
decibelímetro.
EUA e Irã em rota de colisão
Por O Estado de S. Paulo
A formidável mobilização militar americana
amplia a pressão sobre Teerã, mas a degradação do regime dos aiatolás e a falta
de clareza dos objetivos de Washington tornam tudo imprevisível
Há décadas não se via tamanho poder de fogo
americano concentrado no Oriente Médio. E nem tamanha incerteza sobre o que
esse poder deve alcançar. Dois porta-aviões e um reforço substancial de
aeronaves e sistemas antimísseis – um arsenal que permite tanto ataques aéreos
quanto apoio defensivo prolongado – sugerem mais que um gesto simbólico.
Claramente Washington está em condições de promover ataques massivos. A grande
incógnita é qual seria o objetivo.
O prazo imposto pela Casa Branca, de cerca de
dez dias, é curto, e as posições são estruturalmente incompatíveis. A exigência
de enriquecimento zero de urânio por parte do Irã, para interromper de vez o
programa nuclear cujo objetivo, todos sabem, é obter a bomba, toca o núcleo da
legitimidade estratégica do regime. Do seu ponto de vista, aceitar tal condição
equivaleria a admitir derrota sob coerção externa – algo politicamente tóxico
num sistema que se define pela “resistência”. A tendência iraniana é de
diluição e procrastinação. Na perspectiva americana, contudo, aceitar um
arranjo ambíguo depois de mobilizar tamanha força militar corroeria a
credibilidade do governo. Tudo isso reduz as probabilidades de um acordo
substantivo dentro do prazo.
O regime dos aiatolás está mais fraco do que
esteve em anos, talvez mais do que nunca. Sua rede de milícias por procuração
foi severamente degradada nos confrontos com Israel, a economia cambaleia e os
protestos recentes expõem uma irritação profunda e difusa. Essa fragilidade
pode reduzir o risco de uma guerra prolongada – mas também pode ampliá-lo.
Regimes acuados nem sempre agem com prudência; às vezes apostam alto quando
percebem que o tempo joga contra eles. Tanto pior quando se trata de uma
teocracia que se crê investida de uma missão revolucionária divina.
É nesse ponto que o dilema americano se torna
evidente. Qual é o objetivo do presidente Donald Trump? Punir a repressão?
Forçar um acordo nuclear amplo? Neutralizar o arsenal balístico? Ou algo mais
ambicioso, como alterar o regime? Cada meta exigiria meios e compromissos
distintos. Sem definição política clara, a força militar, que deveria ser um
instrumento estratégico, passa a ser uma aposta. Guerras iniciadas sem um fim
definido raramente terminam nos termos imaginados.
Alguns cenários parecem administráveis. Um
ataque limitado, seguido de resposta iraniana calculada, poderia encerrar-se
rapidamente, com ambos os lados reivindicando firmeza. Há precedentes recentes.
Mas essa hipótese depende de uma leitura compartilhada das intenções. Se Teerã
interpretar a ofensiva como tentativa de decapitação ou prelúdio de
desestabilização interna, a lógica muda. Mísseis contra bases no Golfo, ataques
indiretos via aliados regionais, pressão sobre rotas energéticas – tudo entra
no cálculo. Em crises sistêmicas como essa, a percepção pesa mais que a
intenção.
A ideia de um “ataque controlado” carrega
outra limitação. Bombardeios cirúrgicos podem destruir instalações, mas
dificilmente alteram decisões estratégicas enraizadas. Ataques limitados tendem
a produzir concessões – que serão, por definição, limitadas. Ataques amplos
arriscariam envolver os EUA num conflito com duração e desfecho imprevisíveis.
A superioridade aérea é um fato; sua capacidade de produzir transformação
política é apenas uma suposição.
O risco maior nasce não exatamente do poder
de agressão americano e de retaliação iraniano, mas da combinação entre a
fragilidade estratégica de Teerã e a indefinição de Washington. Um regime sob
pressão pode reagir de forma desproporcional. Uma potência que mobiliza vastos meios
sem declarar claramente seu propósito amplia a margem para mal-entendidos e
erros de cálculo. Entre a coerção eficaz e a escalada involuntária, há uma
linha volátil.
Como observou o chanceler de Napoleão,
Talleyrand, “pode-se fazer muitas coisas com baionetas, exceto sentar sobre
elas”. Prazos curtos e pressões domésticas comprimem o espaço para o cálculo
frio. O que será decisivo nos próximos dias não é a quantidade de aeronaves
disponíveis, e sim a definição do objetivo político que orienta seu uso. A
história recente do Oriente Médio sugere cautela: destruir alvos é tarefa
militar; resolver dilemas estratégicos é um desafio muito diferente.
Menina de 12 anos não é mulher
Por O Estado de S. Paulo
Causa espanto o TJMG absolver um homem de 35
anos do crime de estupro de vulnerável
Uma decisão da 9.ª Câmara Criminal do
Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) causou profunda indignação. De
acordo com o colegiado, é plenamente aceitável uma união conjugal – ou seja,
sexual – entre um homem de 35 anos de idade e uma menina de apenas 12. O
relator do caso, desembargador Magid Nauef Láuar, não viu nenhum problema na
relação de um adulto com uma criança, e ainda foi acompanhado pelo colega
Walner Barbosa Milward de Azevedo. Única mulher do órgão, Kárin Emmerich
divergiu. Em vão: por maioria, o homem foi absolvido da condenação em primeira
instância pelo crime de estupro de vulnerável, cuja pena era de nove anos e
quatro meses de prisão.
O relator escreveu, em seu voto, que o
relacionamento “não decorreu de ato de violência, coação, fraude ou
constrangimento, mas sim de um vínculo afetivo consensual, com prévia
aquiescência dos genitores da vítima e vivenciado aos olhos de todos”. Láuar
destacou ainda que esse tipo de relação é “costume” em Indianópolis, no
Triângulo Mineiro. E, em poucas palavras, o desembargador conseguiu afrontar a
teoria das fontes do Direito, o Código Penal, a jurisprudência do Superior
Tribunal de Justiça (STJ), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a
Constituição federal.
Isso porque, embora o costume seja uma fonte
de direito, jamais se sobrepõe à lei. Assim, além de errar na aplicação de uma
fonte de direito, o desembargador errou na leitura do Código Penal: desde 2009,
por decisão do Congresso, o artigo 217-A tipificou como crime “ter conjunção
carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos”, com pena de 8 a
15 anos de prisão. O legislador, que é o representante do povo, foi claro, mas,
para sanar quaisquer dúvidas de interpretação, o STJ já decidiu que a presunção
de vulnerabilidade é absoluta. Ou seja, um vínculo afetivo ou o consentimento
jamais dissipam o crime.
O fato de a mãe e o pai concordarem com o
relacionamento e de esse convívio ter se dado “aos olhos de todos” também não
legalizam, de forma alguma, essa relação – pelo contrário. Tanto o ECA como a
Constituição federal afirmam que é dever de todos assegurar, com absoluta
prioridade, os direitos das crianças e dos adolescentes, além de protegê-los contra
negligência, exploração, violência, crueldade e opressão. Nesse relacionamento,
não há como falar em “amor” e ignorar tantas violações dos direitos da vítima.
Quem age assim é conivente, cúmplice ou coautor do crime.
Restou agora ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) tentar reverter essa barbaridade com a apresentação de um recurso. Em paralelo, um pedido de providências foi instaurado pelo corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell Marques, no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), contra o relator, o que não é pertinente: uma decisão judicial deve ser corrigida na esfera judicial, por meio de recursos, e não pela via administrativa. E, enquanto a justiça não é recobrada – ou seja, a condenação desse homem restabelecida –, a criança continuará vítima da sociedade, da família e do Estado, que, como se vê, falharam ao protegê-la.
Caminhos para um ajuste fiscal gradual e
necessário
Por Valor Econômico
Seria importante alinhar o esforço fiscal dos
entes federados ao da União, contribuindo assim para a redução do endividamento
de ambos
O próximo governo terá de fazer um ajuste
fiscal logo de saída, seja quem for o próximo presidente. Os diagnósticos sobre
as causas do crescimento do endividamento, sua rota insustentável e as medidas
para corrigi-la são conhecidos, e alguns deles contam com a concordância da
equipe econômica do governo Lula, como mostra a série "Desafio
fiscal", que o Valor vem publicando. O dado novo é que há quase um
consenso de que o novo regime fiscal precisa de reformas, não de reinvenção
total ou extinção. O ajuste fiscal necessário previsto para o equilíbrio das
contas públicas oscila entre 2% e 2,5% do PIB, mas é opinião comum que isso não
poderá ser atingido rapidamente, algo politicamente inviável, e sim deverá ser
objeto de medidas perseguidas metodicamente ao longo de mais de um mandato
presidencial. Sem mudanças na arquitetura fiscal, a dívida bruta brasileira
chegará a 100% em 2035, ampliando os riscos de solvência do Estado.
O novo regime fiscal tem falhas na calibragem
interna, mas perdeu sua eficácia e credibilidade por medidas que não têm
relação com sua lógica interna e foram tomadas pelo governo. No primeiro caso,
houve mudança das regras, com a abdicação na prática de se obter superávits
primários em todo o mandato. A existência de piso inferior de 0,25 ponto
percentual para acomodar despesas emergenciais foi assumida como um mínimo a
ser atingido para dar como cumprida a meta fiscal.
No segundo caso, o governo resolveu excluir
cada vez mais despesas da meta fiscal e indexar ao salário mínimo a maior parte
das despesas obrigatórias (Previdência, abono salarial, BPC e
seguro-desemprego), que cresceram mais do que todas as outras e comprimiram as
discricionárias, a ponto de se temer um apagão fiscal em poucos anos.
Para corrigir os desequilíbrios do novo
regime, especialistas como Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro e
economista-chefe do BTG, propõem que o ajuste fiscal seja feito predominantemente
pelo lado das despesas, pois buscar mais receitas que automaticamente elevam
despesas é inflacionário e, como ficou demonstrado, não reduz os gastos. Os
resultados do governo Lula revelam isso, como demonstram os cálculos de outro
especialista em contas públicas, Fabio Giambiagi. Entre 2023 e 2026 (projeção)
a receita líquida real (descontada a inflação) cresceu 2,8% ao ano e a despesa
primária, 4,5%.
O alvo essencial a ser perseguido precisa ser
o centro da meta, assim como as despesas fora do cálculo do objetivo fiscal têm
de ser reduzidas ao máximo, avalia Mansueto. Essa é uma mudança também sugerida
por Giambiagi, com a premissa de limitar os gastos "extrateto".
O intervalo de variação real do regime
fiscal, de 0,6% a 2,5%, é considerado excessivo. Deveria ser de zero, em tempos
ruins, e 2% com a economia em boa forma, segundo Giambiagi e Mansueto (que toma
como parâmetro o crescimento potencial da economia, de 2%). Giambiagi diz que o
novo governo sinalizaria um "inequívoco compromisso com a austeridade
fiscal" buscando variação zero do gasto primário no próximo ano, o que não
é trivial: significa que as despesas discricionárias seriam reduzidas em 23%,
trazendo um superávit primário de 0,01% do PIB já em 2027. Em sua estratégia "gradualista",
o superávit chegaria a 0,7% do PIB em 2030.
É quase consenso entre economistas privados
que a indexação pelo salário mínimo de benefícios previdenciários e sociais
tornou a trajetória da dívida insustentável e precisa acabar. O salário mínimo
teve aumento real de 10% em 4 anos, calcula Mansueto, o que, além de tudo,
antecipou a necessidade de uma reforma previdenciária, ao consumir as economias
obtidas pela de 2019. Giambiagi propõe que o salário mínimo seja corrigido só
pela inflação por 12 anos, assim como que as despesas com pessoal (segunda
maior da União) tenham crescimento zero até 2030.
Há outros pontos comuns em medidas para
contenção das despesas. O abono salarial deveria ser extinto, assim como a
indexação pela receita do Fundeb (educação) e dos gastos de saúde. Giambiagi
propõe indexar o Fundeb ao IPCA e a educação à regra do teto. Seria preciso
rever as regras do BPC, cujos gastos, segundo a Secretaria de Política
Econômica, crescerão de R$ 127,2 bilhões em 2025 para R$ 222 bilhões dez anos depois,
e, em 2029 ultrapassariam até as despesas com o Bolsa Família, o principal
programa social do governo.
Todas as medidas ajudariam a reduzir a carga
enorme dos juros. A média do déficit nominal em 4 anos foi de 8,5% do PIB, e
diminuí-lo só ocorrerá com superávits primários. No ajuste desenhado por
Giambiagi, a despesa com juros cairia de 8% do PIB para 5,43% do PIB e a Selic
seria menor, 7% nominal (ou perto de 4% real). Seria um indispensável auxílio
se o próximo governo preparasse nos próximos anos uma inevitável reforma da
Previdência.
O avanço maior das despesas, porém, tem ocorrido nos Estados e municípios, que chegaram a ultrapassar os gastos da União, como apontam Manoel Pires e Braulio Borges, economistas do FGV Ibre. Seria importante alinhar o esforço fiscal dos entes federados ao da União, contribuindo assim para a redução do endividamento de ambos.
Julgamento do Caso Marielle deve servir de
virada de chave
Por Correio Braziliense
A falência das instituições fluminenses
precisa ser combatida a partir do que ocorreu com Marielle e Anderson, e o
resultado servir de exemplo para o resto do país
O Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou
ontem o julgamento dos acusados de participar do assassinato da ex-vereadora do
Rio de Janeiro Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, mortos em 2018 no
centro da capital fluminense. Para a Procuradoria-Geral da República (PGR), não
restam dúvidas de que os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão, respectivamente
ex-deputado federal e ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio, ordenaram o
crime.
Além deles, a ação julga o ex-chefe da
Polícia Civil do Rio Rivaldo Barbosa. Ele é acusado de dificultar o curso das
investigações, que, inicialmente, se voltou ao vereador do Rio Marcello
Siciliano e ao miliciano Orlando Curicica. Os dois foram envolvidos na trama
por um falso depoimento do então policial militar Rodrigo Ferreira, conhecido
como Ferreirinha, arquitetado pelos irmãos Brazão com auxílio de Barbosa,
segundo as investigações.
Outros dois acusados pela PGR, com base nas
apurações da Polícia Federal (PF), são o oficial da PM Ronald Paulo Alves
Pereira, apontado como responsável por monitorar Marielle nos dias que
antecederam o crime; e Robson Calixto da Fonseca, conhecido como Peixe,
ex-assessor de Domingos Brazão e peça central para conectar os irmãos aos
executores da vereadora: os milicianos Ronnie Lessa (autor dos disparos) e
Élcio de Queiroz (motorista do carro que levava Ronnie).
Se o julgamento dos cinco acusados se trata
de um passo aguardado pelas famílias de Marielle e Anderson e pela democracia
brasileira como um todo, as condenações definidas pelo Supremo não devem
significar um ponto final nessa história. A falência das instituições
fluminenses precisa ser combatida a partir do que ocorreu com Marielle e
Anderson, e o resultado servir de exemplo. O Brasil não deve conceder espaço à
institucionalização do crime.
É evidente que os acusados de matar e ordenar
as mortes de Marielle e Anderson precisam pagar com a dureza prevista em lei.
Para além do resultado do julgamento no STF, é preciso reflexão sobre o
nascimento de uma nova política, pautada pelo interesse público com base nas
garantias, da Constituição de 1988, a partir do assasssinato de uma vereadora
apenas pelo fato de ela cumprir as obrigações para as quais foi eleita — entre
elas, proteger a população vulnerável da grilagem de terras daqueles que têm
como único objetivo a concentração do poder.
Em suma, é preciso entender o julgamento do Supremo como gênese, como bússola para um Brasil melhor. Não pelo brilhantismo de nossas instituições diante de uma investigação muito atribulada com quase um década de duração, mas pela mensagem, que deve ser clara, de que não se pode conceder um centímetro de espaço para a tirania na política brasileira.
Governança global para a inteligência
artificial
Por O Povo
"O futuro da tecnologia não pode ser
decidido por um punhado de países ou deixado à mercê dos caprichos de alguns
bilionários"
Tornou-se um lugar-comum, porém verdadeiro,
afirmar que a internet é uma "terra sem lei", pois todos os
comportamentos que seriam considerados crimes — muitos deles graves — no mundo
real, são praticados impunemente na web.
Com a explosão do uso da inteligência
artificial, o problema revelou-se ainda mais complexo. O manejo relativamente
simples desses programas permite que qualquer pessoa produza informações falsas
e crie fotos ou vídeos falsos e constrangedores de qualquer pessoa.
As vítimas podem ser artistas famosos, autoridades
governamentais ou pessoas comuns, que não têm como se defender. Não podem ao
menos apelar aos proprietários desses aplicativos, as big techs, que se
recusam a prestar contas de suas atividades — e estão mais interessadas no
lucro que na segurança dos usuários.
Por isso, a importância da Cúpula sobre
o Impacto da Inteligência Artificial (IA), realizada recentemente em Nova
Délhi, na Índia, reunindo mais de 80 países para debater o assunto. Pela
primeira vez, um presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, participou da conferência.
A declaração final do encontro, assinada
pelos países participantes — incluindo os Estados Unidos e a China —,
firmou compromisso com uma inteligência artificial "segura, confiável e
robusta", mas nenhuma medida concreta foi tomada nesse sentido.
Trata-se apenas de uma carta de intenções que
pode ser interpretada de várias maneiras. Mesmo porque o governo dos Estados
Unidos resiste a qualquer tipo de regulamentação. As principais gigantes
digitais estão localizadas em território americano e chinês.
A principal proposta em discussão, a criação
de uma governança global da IA, foi rejeitada "totalmente" pelos
Estados Unidos, confrontando a necessidade de democratizar um poder descomunal
nas mãos de meia dúzia de CEOs, que olham o mundo e as pessoas do ponto de
vista do extrativismo.
António Guterres, secretário-geral das Nações
Unidas, foi ao ponto ao dizer que o futuro da tecnologia não pode "ser
decidido por um punhado de países ou deixado à mercê dos caprichos de alguns
bilionários".
De qualquer modo, somente o fato de um
encontro para debater o assunto ter reunido um número significativo de países
já é um ponto positivo, ao mostrar a preocupação de líderes mundiais com o
avanço descontrolado da inteligência artificial.
Mas é preciso pressa, pois a produção de
conteúdo por inteligência artificial, das fake news às deepfakes, aumenta
celeremente, de forma descontrolada. Estudo do Observatório Lupa mostra
que entre 2024 e 2025 que a geração de conteúdo por IA cresceu 300%.
Ao mesmo tempo, cada vez mais países criam leis para regular as redes sociais. Portanto, uma governança global seria um passo adiante para pôr a revolucionária tecnologia da IA a serviço da humanidade.

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