Valor Econômico
Para integrantes do governo, a base na Casa
foi prejudicada pela nomeação de lideranças de peso para ministérios
Em Minas Gerais, existe um ditado popular que pode ser usado para explicar o potencial interesse do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em disputar uma cadeira no Senado. “Político sem mandato é igual padre sem paróquia e general sem tropa”, diz a máxima. Faz sentido: se tudo correr como desejam os petistas em relação à eleição para o Senado, o carpete azul royal que decora o plenário da Casa Alta do Congresso Nacional se tornará o campo de batalha dos potenciais sucessores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dentro do partido, com vistas à eleição de 2030.
Conforme publicou nesta semana o Valor, Lula não demonstra a
menor disposição de abrir mão de ter Haddad como principal nome de seu palanque
em São Paulo. Reconhece-se, no PT, que uma vitória no maior colégio eleitoral
do Brasil é considerada missão praticamente impossível, diante de um cenário em
que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) disputará a eleição com a
máquina pública na mão e um índice confortável de aprovação. Ainda assim,
argumentam interlocutores de Lula em São Paulo e no Palácio do Planalto, seria
necessário “sacrificar” um aliado de peso para pelo menos reduzir a vantagem da
oposição no Estado. Haddad faria a defesa do governo e da economia, considerada
um ativo por Lula, e poderia se apresentar como “pai” da isenção do Imposto de
Renda.
Haddad, por sua vez, já falou da intenção de
contribuir com a campanha à reeleição do presidente, mas sem concorrer a algum
cargo eletivo. Uma possibilidade seria coordenar a formulação do programa de
governo, função que lhe posicionaria como candidatíssimo a chefiar a Casa Civil
em um eventual quarto mandato de Lula. Porém, é sabido que dificilmente o PT
lhe daria a missão.
Não se descarta nos bastidores, contudo, a
possibilidade de o ministro entrar na disputa do Senado. E como trunfo teria,
por exemplo, a melhora da percepção dos brasileiros em relação à economia.
A mais recente pesquisa Genial/Quaest apurou
que subiu de 24% para 28% a quantidade de entrevistados para quem a economia
melhorou nos 12 últimos meses, enquanto caiu de 43% para 38% o percentual dos
que responderam que ela piorou. Para 31% ficou do mesmo jeito, ante os 32% da
sondagem anterior. A melhora foi mais contundente entre os que se apresentam
como “lulistas”, é verdade, mas o governo também colheu boas notícias entre a
esquerda não lulista, independentes, a direita não bolsonarista e até entre
bolsonaristas. Ou seja, essa estatística furou a bolha.
Com duas vagas em disputa, o caminho de
Haddad para o Senado seria menos esburacado do que aquele para o Palácio dos
Bandeirantes. Mas ele não deve ter expectativa de uma vida tranquila, em caso
de vitória.
Como vem mostrando o “Projeto Senado”
do Valor,
oposição e governo definiram a disputa pelo controle da Casa como prioridade.
Existe a expectativa de que as discussões sobre o papel do Senado como
contrapeso ao Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo a discussão sobre
impeachment de integrantes da Corte, ganhem força na próxima legislatura -
principalmente se o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguir eleger um número
grande de aliados.
Nas contas do governo, sempre é bom lembrar,
entre os 38 senadores considerados governistas de carteirinha, apenas dez têm
mandato até 2030. A oposição tem 15 integrantes que não precisam renovar seus
mandatos agora. Ou seja, se o bolsonarismo atingir a meta de eleger 40
senadores em outubro, passará a ter a maioria dos 81 integrantes da Casa. Será
capaz de definir o nome do próximo presidente do Congresso.
Mas deve haver, também, uma disputa por protagonismo
dentro da própria bancada do PT. Wellington Dias (PI) e Camilo Santana (CE),
hoje respectivamente à frente do Ministério do Desenvolvimento e Assistência
Social, Família e Combate à Fome e do Ministério da Educação, estão licenciados
do Senado e podem reassumir eventualmente os seus mandatos. Ambos já foram
citados dentro da legenda como possíveis nomes para disputar a Presidência da
República.
Mais recentemente, no entanto, as discussões
sobre a sucessão de Lula passaram a se concentrar nos nomes de Fernando Haddad,
do chefe da Casa Civil, Rui Costa, e da ministra das Relações Institucionais da
Presidência da República, Gleisi Hoffmann.
Ela irá concorrer a uma vaga no Senado pelo
Paraná, a pedido do próprio Lula. Segundo a percepção de aliados, será uma
disputa complicada, embora uma profusão de candidatos da direita possa
ajudá-la.
Ex-governador da Bahia, o ministro da Casa
Civil também irá concorrer ao Senado e, pelo menos neste momento, possui
chances elevadas de vencer uma das duas cadeiras em jogo. Rui Costa tem se
dividido entre a gestão do governo federal e atividades que mantenham sua
exposição política no Estado.
Dessa forma, é possível que todos os
potenciais herdeiros políticos de Lula estejam no Senado entre 2027 e 2030.
Alguns certamente tentariam retornar ao primeiro escalão do Executivo, mas, com
uma oposição reforçada na Casa, talvez Lula não possa abrir mão desses quadros
como fez na atual administração. Para integrantes do governo, a base no Senado
foi prejudicada pela nomeação de lideranças de peso para ministérios.
Acabariam disputando protagonismo, espaço e
holofotes. Muito provavelmente, fariam isso observando os movimentos de
potenciais candidatos à Presidência do outro lado da Praça dos Três Poderes.
Isto é, do Supremo Tribunal Federal.

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