Caso opte por ficar bêbado pelo vinho – o que pode conter, vá lá, a sua dose de poesia, ainda que não implique forçosamente atitude virtuosa – deve o leitor fazê-lo com o máximo de prazer possível. E isso não é muito difícil em se tratando de vinho, a bebida predileta dos deuses, segundo alguns, e também de meros mortais, como os franceses, italianos, espanhóis, portugueses, gregos e afins.
A popularidade do vinho era tamanha na França
que mesmo o regulamento de São Bento de Núrcia, que organizava a dura vida
monástica do Ocidente no século VI, permitia que os monges ingerissem,
diariamente, um quarto de litro de vinho.
Nada substitui um bom petit
vin camponês, desses que se adquire diretamente do pequeno produtor, nos
numerosíssimos vilarejos vinícolas da França e da Itália. Porém, é preciso
reconhecer também que existem excelentes vinhos comerciais nesses países, a
preços bem razoáveis. No caso das marcas mais conhecidas da França, como
bordeaux, beaujolais e bourgogne, há quem aconselhe a não privilegiar, na hora
da compra, as garrafas de vinho que trazem gravada a
palavra négociant no invólucro de papel laminado que cobre a rolha.
Isso significa que o produtor não é diretamente responsável pela colocação do
vinho no mercado, a cargo do négociant ou comerciante, justamente.
Manipulado por várias pessoas, o vinho corre mais riscos de adulteração do seu
sabor original. O melhor é verificar se está marcado producteur no
alto da rolha – sempre uma garantia a mais, só isso. E aqui vai um lembrete:
essa prática de classificação do vinho remonta ao Egito antigo, onde os
recipientes da bebida traziam dados como local e ano da colheita, além do nome
do vinicultor. Ramsés e companhia não tinham muito do que se queixar nessa
vida, convenhamos.
No mais, saúde. Afinal, Cristo, que era
Cristo, transformou água em vinho – e não o contrário. E para quem tem lá
suas dúvidas sobre esta transformação, há quem garanta que pelo menos em Paris
o milagre de fato se concretizou: na Rue des Eaux, isto é, Rua das Águas, fica
o Museu do Vinho. Se o leitor, um bom discípulo de São Tomé, quiser constatar
isso de perto, pode visitar o local, com direito a degustação a preços módicos.
É ver para crer. Ou mais agradável até: beber. Mas, nada de abusos – um dos
provérbios da Bíblia aconselha: "o vinho é zombador, e a bebida forte
provoca brigas; ninguém que se deixa dominar por eles é sábio”.
Devo dizer ainda que, quando Dionísio decidiu
ensinar a técnica de fabricação de vinho a Deucalião, na velha Grécia, ele
jamais poderia imaginar o bem que estaria me proporcionando, muitos séculos,
mas muitos séculos depois mesmo.
Melhor explicar logo. Durante meu tempo de
dureza na França, no início da década de 70, trabalhei um período como engarrafador
de vinho, na bonita Gare de Austerlitz. Eu descarregava tonéis de 600 litros de
bordeaux de enormes caminhões encostados desde a madrugada à saída da mais
famosa estação de trens de Paris. Trabalhava comigo Djalma Ferreira, grande
companheiro e filho do célebre compositor e instrumentista da Bossa Nova Djalma
Neves Ferreira.
Um vinho já conhecido dos gauleses e romanos,
o bordeaux parecia confirmar a máxima de Lope de la Vega de que “só duas coisas
melhoram com o tempo: o vinho e uma amante”. Detalhe: Lope de la Vega, além de
apreciador de bons vinhos e excepcional escritor, era padre. Ao que tudo
indica, Lope de la Vega deixara a ortodoxia de lado. Embriagou-se de vida, pelo
visto.
Estive duas vezes em Bordeaux ou Bordéus, a
Burdigala dos romanos, um reduto aristocrático, antigo porto de entrada de
escravos africanos na França. Como sempre me submeto aos hábitos locais,
seguindo os ensinamentos do filósofo Michel de Montaigne, não
pude deixar de provar algumas boas taças de bordeaux. Não convém contrariar
os sábios. Acredito que com esse gesto eu tenha contribuído, se bem que
modestamente, para estreitar ainda mais os laços tradicionais que nos unem à
França. Em tempo; Montaigne, também um homem de ação, presidiu por quatro anos
a Câmara de Bordéus. Sua mãe seria descendente de portugueses de fé judaica,
daí o interesse do pensador por tudo que se passava no Brasil, em particular no
tocante ao mundo dos índios. Outro pensador, Montesquieu, o autor da
obra Do espírito das leis, que propõe a separação dos poderes do Estado,
era um ardoroso produtor de vinho em Brède, na Nova-Aquitânia. Certamente o
vinho manteve seu espírito sempre alerta, fazendo com que se interessasse por
tudo que dizia respeito à qualidade de suas cepas e, também, à sua comercialização
com países como a Inglaterra. A vida é bela, decididamente, e, com vinho, mais
ainda.
Voltando ao assunto principal. A nosso
favor, tínhamos o fato de o bordeaux existir desde o século I antes de Cristo.
Um vinho com toda essa idade merece a máxima consideração. Eu fazia um trabalho
duro e até mesmo um pouco arriscado na Gare de Austerlitz. Mas havia uma
compensação: cada ouvrier ou operário podia tomar pelo menos uma
garrafa de excelente bordeaux por refeição, fora umas provinhas eventuais, que
ninguém era mesmo de ferro. E muito menos Djalma e eu, garanto.
Difícil trabalhar sóbrio, já se pode
imaginar. Era quase impossível manter a linha. Tinha dias de a turma sair
de lá catando corrimão no vento, como se diz por aí. De imediato, esquecemos
que Bordéus fora o principal porto escravista da França. Éramos só
simpatia para com a cidade. Só enxergávamos – se é que este é o termo
exato – o seu maravilhoso vinho, àquela altura. Alguns trabalhadores
deixaram a estação mais parecendo uma garrafa ambulante de bordeaux. A
perfeição ainda não foi constatada por ninguém e isso é realmente lamentável.
Não fosse pelo horário e alguns riscos
físicos (a labuta começava às 5h30min e terminava às 14h), eu diria que era
realmente um trabalho que todo mundo pediria a Deus. Ou a Baco, possivelmente.
Engarrafar o vinho nosso de cada dia – estou cada vez mais convencido
disso – é a única maneira de a classe operária ir para o Paraíso. Eu
pelo menos fui.
Ainda que, na velha Grécia, segundo Homero, o
vinho não era uma bebida dos Deuses e, sim, dos pobres mortais como nós.
*Ivan Alves Filho, historiador

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