quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Pelo fim, sem alarde, da escala 6x1, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

A mentalidade colonial brasileira quer nos fazer crer que o fim do regime de trabalho destruirá a economia do país

Investir no aumento de produtividade poderia ser uma das metas com o fim da escala

debate sobre o fim da escala 6x1 precisa, de um lado, se dar sem alardes infundados em evidências e, de outro, considerar a histórica desigualdade nas relações trabalhistas no país. Sem levar em conta o peso de uma nação com quase quatro séculos de escravidão nas costas, torna-se superficial e, portanto, infrutífero debater a sério a relação economia e trabalho.

Importante enfatizar que os estudos disponíveis sobre o impacto do fim da escala de trabalho 6x1 não justificam o alarde. Tudo o mais constante, sim, o custo do trabalho pode aumentar em 7,84% segundo estudo do Ipea, por uma simples razão de que o combo salário igual e menos horas trabalhadas eleva o custo da hora de trabalho. O dado em si diz pouco.

Investir no aumento de produtividade poderia ser uma das metas com o fim da escala 6x1. Se a produtividade cresceu pouco entre 1981 e 2023, em parte isso se deve à necessidade de maior investimento em máquinas e equipamentos usados pelo trabalhador, bem como em sua escolaridade e experiência. O fim da escala 6x1 abre uma brecha para que trabalhadores, além de ter o direito humano ao descanso, possam investir em sua capacitação.

Haver custo não quer dizer, ademais, que a alta não seria absorvida pela economia, nem que seria igual a todos os setores da economia. Ipea prevê impacto na indústria e comércio bem menor, de 1%; em áreas como vigilância e limpeza poderia ser maior, de 6%. A classe política e empresarial é plenamente capaz de desenhar as estratégias setoriais adequadas, basta se empenhar tanto nisto quanto o fazem para justificar exorbitantes benefícios fiscais.

A mentalidade colonial brasileira quer nos fazer crer que o fim da escala 6x1 —e não a cooptação patrimonialista das instituições da República, por exemplo— destruirá a economia do país. Não é a dona Maria ou o seu João que não conseguem ter nem sequer um dia inteiro de descanso que destruirão a economia, mas, sim, a distorção óptica segundo a qual o flagelo sempre parecerá mais leve para aquele que está do lado de quem o impõe.

 

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