Folha de S. Paulo
A mentalidade colonial brasileira quer nos
fazer crer que o fim do regime de trabalho destruirá a economia do país
Investir no aumento de produtividade poderia ser uma das metas com o fim da escala
O debate
sobre o fim da escala 6x1 precisa, de um lado, se dar sem alardes
infundados em evidências e, de outro, considerar a histórica desigualdade nas
relações trabalhistas no país. Sem levar em conta o peso de uma nação com quase
quatro séculos de escravidão nas costas, torna-se superficial e, portanto,
infrutífero debater a sério a relação economia e trabalho.
Importante enfatizar que os estudos disponíveis sobre o impacto do fim da escala de trabalho 6x1 não justificam o alarde. Tudo o mais constante, sim, o custo do trabalho pode aumentar em 7,84% segundo estudo do Ipea, por uma simples razão de que o combo salário igual e menos horas trabalhadas eleva o custo da hora de trabalho. O dado em si diz pouco.
Investir
no aumento de produtividade poderia ser uma das metas com o fim da
escala 6x1. Se a produtividade cresceu pouco entre 1981 e 2023, em parte isso
se deve à necessidade de maior investimento em máquinas e equipamentos usados
pelo trabalhador, bem como em sua escolaridade e experiência. O fim da escala
6x1 abre uma brecha para que trabalhadores, além de ter o direito humano ao
descanso, possam investir em sua capacitação.
Haver custo não quer dizer, ademais, que a
alta não seria absorvida pela economia, nem que seria igual a todos os setores
da economia. Ipea prevê impacto na indústria e comércio bem menor, de 1%; em
áreas como vigilância e limpeza poderia ser maior, de 6%. A classe política e
empresarial é plenamente capaz de desenhar as estratégias setoriais adequadas,
basta se empenhar tanto nisto quanto o fazem para justificar exorbitantes
benefícios fiscais.
A mentalidade colonial brasileira quer nos
fazer crer que o fim da escala 6x1 —e não a cooptação patrimonialista das
instituições da República, por exemplo— destruirá a economia do país. Não é a
dona Maria ou o seu João que não conseguem ter nem sequer um dia inteiro de
descanso que destruirão a economia, mas, sim, a distorção óptica segundo a qual
o flagelo sempre parecerá mais leve para aquele que está do lado de quem o
impõe.

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