Valor Econômico
Relações comerciais entre Brasil e Índia são
muito pequenas em relação ao tamanho das economias
No século XIX, a coroa portuguesa foi à Índia
buscar mudas de árvores altas para fazer sombra aos cacaueiros cultivados por
aqui. Vieram jaqueiras, mangueiras, laranjeiras. Essa combinação é usada até
hoje no sul da Bahia, na região chamada Cabruca, cenário do clássico “Gabriela,
Cravo e Canela”, de Jorge Amado. De lá, saem chocolates com terroir de frutas
amarelas.
“É o que encanta os jurados”, contou à coluna Thiago Fernandes, diretor do consórcio Cabruca, que reúne 15 marcas de chocolate da região. No ano passado, barras com sabor de laranja, de queijo canastra com doce de leite e de cumaru conquistaram medalhas de prata na premiação da Academy of Chocolate, em Londres. No ano anterior, a marca Ju Arléo havia conquistado medalha de ouro com seu chocolate sabor cupuaçu. Desempenho semelhante foi alcançado pelas consorciadas na International Chocolate Awards de Nova York.
Fernandes era um dos 300 empresários que
estiveram na semana passada em Nova Déli participando do Fórum Empresarial
Índia-Brasil, promovido pela ApexBrasil. Na capital indiana, fechou um contrato
para fornecer seu produto para a rede Modern Bazaar, de produtos de luxo. “Vão
ficar ao lado do caviar”, brincou.
No processo para abrir esse mercado, que
levou cerca de um ano, contribuiu uma degustação promovida na embaixada do Brasil,
para a qual foram convidados os chefes de cozinha dos principais hotéis de luxo
da cidade, jornalistas e potenciais compradores.
A eles foi oferecido, entre outros, um
chocolate sabor tchai, a bebida local, desenvolvido por Patricia Viana, uma das
consorciadas. Ela viveu algum tempo na Índia e sua marca se chama Modaka, que
significa “docinhos que agradam ao paladar de Ganesha”.
Ao mesmo tempo que busca mercados na Ásia e
América Latina, o consórcio batalha para obter um certificado de indicação
geográfica. Sem ele, não será possível exportar para a Europa. Mas, na mão
contrária, os europeus poderão enviar seu produto para o Mercosul de forma
facilitada, como parte do acordo entre os dois blocos.
A tese de mestrado de Fernandes, que trata do
consórcio e da indicação geográfica como fatores de upgrade social, é uma das
peças do processo em busca da certificação.
Ele conta que 80% das empresas do Cabruca são
lideradas por mulheres. Elas substituíram os coronéis e viraram a chave: de
fornecedoras de cacau para a indústria, passaram a produzir chocolate de alta
qualidade, agregando valor para a comunidade.
As vacas leiteiras gir fizeram trajeto
semelhante ao das frutas amarelas. De origem indiana, os animais vieram para cá
também no século XIX. Passaram por aprimoramento genético e agora a fazenda
Floresta, de Lins (SP), envia embriões para a Índia.
Produtores indianos disseram ao ministro do
Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, que antes conseguiam 5 litros de leite
por vaca, e agora obtêm 40 litros. Roberta Bertin Barros, proprietária da
fazenda, contou sua história em um painel do fórum empresarial sobre
agricultura familiar.
São duas histórias da relação do Brasil com a
Índia, onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na semana passada
para se reunir com o primeiro ministro Narendra Modi e promover um encontro
empresarial ambicioso.
Ficou evidente que as relações comerciais
entre os dois países, de US$ 15 bilhões em 2025, são muito pequenas em relação
ao tamanho das economias.
Mas, talvez com exceção dos minerais
críticos, o atual cenário oferece dificuldades para a ampliação do comércio de
mercadorias.
Com uma agricultura predominantemente
familiar, base para distribuição de renda, o país é fechado para produtos do
agronegócio, que são a força da balança comercial brasileira. O frango
fracionado enfrenta tarifa de importação de 100%. A Índia é autossuficiente em
açúcar.
Porém, as potencialidades são exploradas de
outra forma. Na visita, a Vale anunciou investimento de US$ 500 milhões em uma
planta de blendagem de minério de ferro brasileiro com minério indiano, para
explorar outros mercados. A Embraer informou que vai montar aviões KC-390
Millenium e E-175 na Índia, com peças fabricadas localmente, em parcerias com a
Mahindra e a Adani. A Unica tem, já há algum tempo, uma associação com sua
contraparte indiana para divulgar a mistura de etanol à gasolina em outros
países.
“Somos dois necessitados”, definiu Lula, ao
dizer que o diálogo com a Índia é mais fácil por ser entre iguais, enquanto
Europa e Estados Unidos exercem “autoritarismo”.
Na visão do presidente, seguimos
“colonizados” do ponto de vista tecnológico e econômico. “Então é preciso
construir parceria com gente que tenha similaridade conosco, para que a gente
possa somar o nosso potencial e nos tornar fortes”, resumiu.
A visita de Lula à Índia teve um caráter
estratégico importante, ao mostrar o adensamento das relações de duas potências
médias, num momento em que os demais países buscam novos parceiros para escapar
da instabilidade provocada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

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