Valor Econômico
É preciso tratar dos problemas de diversos
grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas
tradicionais e suas instituições
Os defensores da democracia começaram 2026
com uma grande vitória: a eleição de Antonio Sérgio Seguro em Portugal, que
bateu o candidato da extrema direita. Estabeleceu-se o que muitos chamam de cordão
sanitário contra os antidemocratas, algo essencial quando há o risco da vitória
de autoritários - no caso português, de um partido como o Chega, cujo racismo
explícito atinge nossos compatriotas que moram por lá.
Depois do alívio e da comemoração, vem o
aviso: ancorar-se numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é
muito arriscado. Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso
construir uma agenda positiva para a democracia, num processo que demandará
mais tempo que o curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os
Estados Unidos ou para o Brasil.
A necessidade de uma agenda positiva não significa que os instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.
De um lado, porque a luta contra o ideário
autoritário do século XXI dependerá, antes de mais nada, de resistência. Se os
Estados Unidos tivessem punido os golpistas do dia 6 de janeiro de 2020, hoje
estariam numa situação democrática melhor. Trata-se de um conflito político no
qual não se pode acreditar que os políticos extremistas vão seguir plenamente
as regras do jogo - ou ficar nas quatro linhas da Constituição. Isso seria
ingenuidade, no mínimo.
O modelo reativo, por outro lado, também tem
um potencial de buscar o que pode ir além da mera defesa, abrindo as portas
para a valorização das instituições e ideais democráticos. Isso fica mais claro
ao se analisar os três tipos de resistência às forças antidemocráticas que têm
sido utilizados: a vitória eleitoral, o uso das instituições como proteção
contra a extrema direita e a mobilização social, tomada como resistência e
construção de novas formas de comunicação política.
No caso dos processos eleitorais, o discurso
contra os partidos e políticos antidemocráticos tem de se transformar em votos,
especialmente seguindo a lógica de convencer os independentes e os não
engajados na disputada polarizada. Foi o que ocorreu em Portugal, é o que tem
acontecido na França e também foi essa a linha do segundo turno presidencial no
Brasil em 2022. Grandes coalizões contra a extrema direita autoritária têm se
formado em muitos países, por enquanto com mais sucesso do que fracasso. Mas os
eleitores descontentes com a democracia continuam lá, geralmente à espera de
lideranças populistas antidemocráticas. Ou seja, o monstro não foi derrotado.
O uso de instituições políticas para evitar o
autoritarismo de governantes, sejam formadas por representantes eleitos como o
Legislativo, sejam compostas por membros não eleitos como o Judiciário, é o
segundo tipo de resistência democrática. Nem sempre o mandatário tem maioria
parlamentar e parte de seu limite será dado por outros políticos. Se os
democratas ganharem a eleição congressual de meio de mandato nos Estados
Unidos, Trump perderá parte de seu vigor autoritário.
Além disso, promotores e juízes, responsáveis
por garantir direitos dos cidadãos que não podem ser restringidos por uma
maioria eleitoral momentânea, têm sido muito ativos em alguns lugares como
contrapesos a autocratas e/ou a projetos de autocracias golpistas. O caso
brasileiro é paradigmático: sem a ação do STF, particularmente do ministro
Alexandre de Moraes, teria sido muito difícil escapar do golpe bolsonarista.
A estratégia de usar o arcabouço
institucional como mecanismo de resistência é parte integrante do pacote que
compõe o regime democrático; porém, num contexto de contestação da democracia,
tal ferramenta não será suficiente ao longo do tempo. Mais do que isso: tais
instituições precisam de legitimidade social para que não se estabeleça o
argumento de que alguém com grande clamor popular, ou eleito pelo povo, possa
ser barrado por quem não tem o mesmo suporte.
A disputa entre o voto e as instituições
contramajoritárias, vale ressaltar, é um dos grandes temas da reflexão
democrática. Depois dos totalitarismos ocidentais, a ciência política do
pós-guerra reforçou a necessidade de a democracia proteger-se de maiorias de
ocasião para evitar quebras autoritárias do regime. Entretanto, também é
fundamental construir a legitimidade institucional de quem arbitra a disputa
política - em outras palavras, a crença de que as instituições não têm
credibilidade suficiente, ou mesmo subvertem a vontade popular, é um grande
risco à democracia contemporânea.
O último tipo de resistência às tendências
antidemocráticas atuais diz respeito à mobilização da sociedade. Ela pode ser
feita cotidianamente por organizações permanentes, como a universidade, a
imprensa e várias formas de associativismo, ou então por manifestações de rua,
geralmente organizadas contra algum evento que atinge os direitos da população.
É o que está acontecendo em boa parte dos EUA como reação à ação troglodita e
autoritária do ICE, agência federal americana que foi comparada à Gestapo
nazista por um dos mais influentes apoiadores de Trump, o midiático Joe Rogan.
Resistências antidemocráticas que apenas
mobilizem e sensibilizem os que já são claramente adversários dos extremistas
têm força bem menor do que os movimentos que chegam a outros grupos, gerando
apoio inclusive em parcela dos que apoiaram os governantes ou partidos
autoritários. Isso significa que o caminho mais bem-sucedido da resistência
civil vai além da metáfora do cordão de proteção. A esse papel deve ser
acrescentado o de encontrar as questões que afetam a todos na vida cotidiana,
no mundo que vai além da disputa política partidária, gerando novas formas de
comunicação e convencimento.
Analisando o conjunto de resistências às
forças antidemocráticas do mundo, constata-se que o vetor defensivo é
fundamental e predominante, mas é preciso avançar para uma agenda positiva,
capaz de revitalizar a democracia e conversar com os problemas de diversos grupos
sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e
suas instituições.
A construção da agenda positiva passa,
primeiramente, pelo reforço de valores democráticos que, por vezes, os próprios
democratas têm enfatizado menos ao entrarem no jogo de soma zero em que se
transformou a política polarizadora comandada pela extrema direita. Um dos
principais elementos aqui é a aposta no pluralismo e no diálogo com os
diferentes. Critica-se corretamente o comportamento de manada das forças
antidemocráticas, com suas lideranças tendo uma capacidade enorme de dominar
autoritariamente seu eleitorado, mas também se deve lembrar que setores
centristas liberais e de centro-esquerda ou esquerda agarraram-se
demasiadamente em suas certezas e são incapazes de adaptar suas propostas e
argumentos às angústias de parcelas crescentes do eleitorado.
Não seria possível defender a globalização ou
o combate às desigualdades conversando com quem desconfia dessas agendas (ou
pelo menos de seus defensores)? Muitos querem a riqueza e as transformações
tecnológicas presentes no ideário mais liberal, mas creem que deveriam ter
maior participação nesse bolo. Outra grande parcela não é necessariamente
racista e tem preocupações sociais, contudo pensa que eles igualmente deveriam
estar na lista dos que devem ser defendidos por não terem a ascensão social
almejada.
A revitalização democrática presente no
debate e mobilização social tem de chegar à política para aumentar sua potência
contra os antidemocratas. Do ponto de vista institucional, três tarefas são
inescapáveis. A primeira é ressaltar mais as políticas públicas que mudam a
vida de muitas pessoas, inclusive de muitas que estão descontentes com a
democracia. Aqui, há um problema comunicacional grave, uma disputa de
narrativas na qual ações governamentais bem-sucedidas não aparecem enquanto
tais para os corações e mentes de muita gente.
Parte da dificuldade de realçar as qualidades
da democracia e da efetividade de muitas de suas políticas públicas reside em
vícios dos políticos, da alta burocracia e das elites de maneira geral, que são
vistos como distantes e privilegiados frente a boa parcela da população. Esse
segundo ponto é fundamental porque, para lembrar o filósofo americano Michael
Sandel, vai exigir sentimento comunitarista das lideranças e grupos que
comandam a sociedade. Os descontentes não se sentem participantes do jogo
democrático e vinculam os governantes e setores influentes a uma casta que
sequestrou o bem comum. Sem dúvida, há mitos aqui, mas também muitas verdades
sobre um fosso social enorme que foi ignorado pelos “donos do poder” nas
últimas décadas.
A descoberta de pautas populares que não
estão sendo atendidas pelas instituições democráticas atuais é a tarefa de
fundo mais relevante aos que querem defender a democracia para além das
vitórias eleitorais. Infelizmente, nesse campo a extrema direita está na
frente, mesmo que seja com base em mentiras e demagogia. Para garantirmos a
longevidade dos regimes democráticos, precisamos conversar e entender mais os
descontentes, superando preconceitos para gerar uma nova agenda pública, que
realce o quão positiva pode ser a democracia.

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